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Novo longa-metragem de Sérgio Andrade é selecionado para mostra no Festival de Berlim

No Rio de Janeiro para acompanhar o processo de finalização do filme, o diretor amazonense falou com o BEM VIVER sobre a estreia do longa no festival mais cult do cinema mundial 22/01/2016 às 15:54
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Diretor Sérgio Andrade e co-diretor Fábio Baldo coordenam cena nas filmagens de “Antes o Tempo não Acabava”
Felipe Wanderley Manaus (AM)

O cinema amazonense continua fazendo história. O novo longa-metragem de Sérgio Andrade, “Antes o Tempo não Acabava”, acaba de ser anunciado como um dos três filmes brasileiros selecionados para a Mostra Panorama do Festival de Berlim.

O Berlinale é um dos festivais de cinema mais importantes do mundo e acontece anualmente no mês de fevereiro, na capital alemã. No Rio de Janeiro para acompanhar o processo de finalização do filme, o diretor amazonense falou com o BEM VIVER sobre a estreia do longa no festival mais cult do cinema mundial.

“É uma alegria, uma honra muito grande. Estou muito feliz de ser de Manaus e chegar a esse ponto, porque eu faço tudo por Manaus. Acho que essas histórias tem que ser contadas”, disse o cineasta, que compartilha a direção do filme com o paulista Fábio Baldo, que também assina a montagem.

“A gente sempre mirou o Festival de Berlim como nosso objetivo para o filme estrear, mas como uma coisa instintiva porque o filme tem vários elementos que combinam com o clima do festival de Berlim, que se debruça sobre filmes mais undergrounds, mais diferentes”, afirmou.

O diretor falou ainda sobre sua expectativa sobre a exibição do filme num dos grandes centros do cinema europeu e disse não temer a reação do público. “Esse é um momento mágico para um diretor no cinema. O que o filme vai trazer, o que vai construir, que discussão suscitar, não sei se vai agradar, mas não estou com medo. Pode ser de aversão, ou completa paixão pelo filme, estou na expectativa de descobrir isso”, disse Sérgio.

O co-diretor do longa metragem, Fábio Baldo, também falous sobre sua expectativa para a estreia do filme no festival. “Não dá pra ficar muito tranquilo (risos), porque esse é o momento em que o filme precisa sair de você e chegar no outro. Então não dá pra dizer que não existe ansiedade e expectativa baixa em relação a uma exibição como essa. É um filme que joga um olhar bastante profundo sobre a Amazônia”, disse Baldo.

A história

“Antes o Tempo não Acabava” conta a história de Anderson (interpretado pelo indígena Anderso Tikuna), um garoto tikuna que deixa sua aldeia natal para viver no centro Manaus e vive conflitos entre as tradições culturais de sua aldeia e do novo mundo que encontra no coração da metrópole.

Uma co-produção Brasil e Alemanha, o filme recebeu patrocínio da Petrobras, da Agência Nacional de Cinema (Ancine), da Secretaria de Estado de Cultura do Amazonas (SEC) e do World Cinema Fund, do próprio Festival de Cinema de Berlim.

Bem-vinda exceção

Citado pela colunista Fátima Lacerda, do Jornal O Estado de São Paulo, como “bem-vinda exceção” na escassa participação brasileira no festival alemão, a narrativa aborda a dicotomia entre a Amazônia tradicional e o universo urbano moderno que se constituiu em metrópoles como Manaus para além do clichê do exótico e pitoresco, inquietação que já movia o trabalho de Sérgio Andrade desde “A Floresta de Jonathas (2012), bem sucedido filme de estreia do diretor amazonense.

“Me interessa muito por essa zona transitória, intermediária, entre o homem da floresta e o homem urbano. Entre os nativos indígenas e o homem da cidade, existe ali um ser que é intermediário, que nasceu na aldeia, e habita em geral nas comunidades periférias de Manaus, e isso tem que ser mais investigado. Então eu mergulhei nesse universo para fazer ‘Antes o Tempo Não Acabava’, personificando isso na figura do Anderson, personagem jovem indígena que transita entre esses dois mundos, ora rompendo com um, ora se atando ao outro, que é sua origem”, explicou o autor.

Duas perguntas para Sérgio Andrade - Diretor de "Antes o Tempo não Acabava"

O filme é uma co-produção Brasil-Alemanha, foi financiado pelo Fundo do Festival de Berlim e estreia neste festival. É uma estreia “em casa”?

Foi maravilhoso o filme ter uma co-priodução alemã, que surgiu a partir do prêmio (de financimento), porque precisávamos para recebê-lo de uma produtora alemã. Temos um grande amigo, o Paulo de Carvalho (brasileiro dono da produtora Autentika, sediada em Berlim). O Paulo ajudou muito a gente, deu dicas pro filme. Eu fico muito feliz dessa simbiose com a Alemanha.

Qual a explicação para o nome do filme?

Quando fui escrevendo (o roteiro), ele não tinha um nome, mas eu notava que a questão do tempo dominava. Os indígenas não acreditam no tempo, os antepassados não viviam se preocupavam com essa questão , eles apenas vivem, por isso “Antes o Tempo não Acabava”. Também me influenciou muito o livro dos índios Tukano “Antes o Mundo não Existia”, dos indios tukanos, que me inspirou muito e também acabou por me levar à construção semântica desse nome.

A frase

“Eu gosto de fazer filmes sobre Manaus, na minha terra, mas eu quero mostrar uma outra visão sobre a minha terra, não apenas aquelas coisa exóticas e estereotipadas, mas um lado mais humano, mais realista e naturalista”. Sérgio Andrade - cineasta