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O ‘Choque cultural’ de quem volta para casa

Para quem mora no exterior, voltar a Manaus pode ser um drama ou um alívio  02/12/2012 às 15:10
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Clarissa (ao centro) costuma retornar para eventos especiais, como casamentos. Família já foi visitá-la em Nova York
ROSIEL MENDENÇA ---

Vai chegando o fim do ano e os manauaras que moram em várias partes do mundo já começam a planejar suas viagens de regresso à “terrinha” – a oportunidade para rever os amigos e passar o Natal ao lado da família. O que muitos não imaginam experimentar no retorno para casa é a sensação de serem “peixes fora d’água”. Choque cultural reverso é uma expressão que define muito bem essa experiência, pela qual muitos não passam imunes.

Não foi o caso da gerente de materiais e projetos Clarissa Dutra, que hoje reside na cidade norte-americana de Houston. Desde que saiu do Brasil, em 1999, ela retorna a Manaus ao menos duas vezes por ano. Para Clarissa, é a chance de abandonar por um tempo o estilo americano de “viver para trabalhar” – ela já morou na Nova Zelândia e também no Kuwait.

Ainda assim, um estranhamento sempre rola: ela ainda fica surpresa com a falta de pontualidade dos brasileiros. Apesar disso, o retorno à terra natal afeta Clarissa de uma forma especialmente positiva. “É como se um interruptor mudasse minha personalidade, trazendo à tona meu lado mais extrovertido e despojado”, revelou.

SAÚDE MENTAL

Quando veio à capital amazonense depois de quase dois anos morando em Nottingham, Reino Unido, o professor universitário Rino Soares lembra que foi logo recebido pelo calor baré de meio-dia – um contraste brutal com o frio que ele costuma enfrentar de novembro a fevereiro lá do outro lado do oceano.

“Também estranhei um pouco a intimidade do amazonense, o fato de as pessoas puxarem papo na fila do banco ou no ônibus para contarem seus problemas. Não vivia mais essa situação, ainda acho engraçado”.

Soares chega a Manaus no dia 18 para passar o Natal na companhia dos familiares, hábito que procurou manter ao logo dos anos. “Nunca mais passo dois invernos na Inglaterra: bate a saudade e a escuridão do inverno me deixa triste. É uma questão de saúde mental ir ao Brasil”, justificou.

‘FUNDO DO POÇO’

O empresário Henderson Miranda é um exemplo de que o choque cultural reverso pode ser cruel. Para ele, depois de dois anos e meio morando na Irlanda, voltar para Manaus foi o “fundo do poço”.

“No período que estive fora acabei me acostumando com o que inicialmente era estranho. Então, quando voltei, estranhei os bares não terem hora para fechar, os mercados ainda distribuírem sacolas plásticas, além do comportamento expansivo das pessoas. Mas era necessário. O jeito era ver o lado positivo, que era rever a família e os amigos”, declarou Miranda, que hoje vive em São Paulo.

A presidente do Conselho Regional de Psicologia da 20ª Região, Iolete Ribeiro, explica que, no retorno, é como se o vínculo com a terra natal precisasse ser reconstruído. “Nessa situação, algumas pessoas ficam ariscas porque, às vezes, o motivo da volta envolve o fracasso de um projeto de vida. O importante é que não podemos reforçar preconceitos: família e amigos têm que entender esse processo, dar tempo para a pessoa se reorganizar”, finalizou.