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O poder da criação: no Dia do Compositor, compositores falam sobre a arte da criação musical

BEM VIVER entrevistou o músic Paulinho Moska, que encerrou temporada de dez anos à frente Zoombido, um dos maiores divulgadores da nova safra da MPB 15/01/2016 às 15:25
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Paulinho Moska é autor de sucessos como “Idade do Céu”, “Pesando em Você” e “Último Dia”
Felipe Wanderley Manaus (AM)

Sobre o poder da criação, já cantava o saudoso João Nogueira, “força nenhuma no mundo interfere”. De fato, traduzir a realidade, ou mesmo a fantasia, em melodia e letra, matérias-primas da composição musical, não é tarefa para qualquer um. Porém, uma vez que se é convocado pela inspiração, que planta sua semente no terreno fértil do talento e do trabalho, não há o que mude o destino da obra, e nasce a canção. Neste 15 de janeiro, Dia do Compositor, o Bem Viver presta sua homenagem aos mestres da criação e discute o tema que o samba de João Nogueira e Paulo César Pinheiro explorava no clássico samba de 1980.

Num país de monstros da composição, com Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, de uma geração mais antiga, e Raul Seixas, Renato Russo, Zeca Baleiro, Arnaldo Antunes, Chico César, para citar só alguns, de uma geração mais recente, a renovação é sempre uma questão polêmica. O cantor e compositor Paulinho Moska, que acaba de encerrar um ciclo de dez anos à frente do programa Zoombido, do Canal Brasil, um dos maiores divulgadores da nova safra da música brasileira, acredita que não faltam bons compositores no cenário nacional.

“Acho que de 20 anos pra cá a gente pode conhecer melhor a musicalidade, a diversidade brasileira. Lá pelo Zoombido passou uma nova geração espetacular, desde Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Leo Cavalcanti, Felipe Catto... eu adoro o trabalho da Céu, da Maria Gadu, do Dani Black (filho da cantora Tetê Espíndola)”, diz ele que vê com otimismo o momento da canção brasileira num tempo onde as novas formas de comunicação tem papel fundamental na distribuição e no acesso à música no País.

“A gente não pode confundir mercado com música. A bossa nova quando apareceu era música pop (comercial), a música que mais vendia. A gente pode discutir se o mercado está atendendo a uma música menos sofisticada, que é consequência também do processo de inclusão de outros públicos. Por outro lado, hoje com um clique você chega em todos os lugares. Quando eu comecei, não tinha Internet, e o espaço era muito restrito”, acrescenta o autor de “Idade do Céu”, “Pesando em Você” e “Último dia”.

Paisagem amazônica

Um dos compositores de maior sucesso na cena amazonense, o autor de “Divina Comédia Cabocla”, Nícolas Júnior, vê um abismo entre as músicas que tocam na rádio e o que há de melhor na composição brasileira. “Há um verdadeiro universo paralelo à parte do que toca na rádio hoje, e que tem muita qualidade”, diz ele, que destaca bandas como Alaíde Negão, Tucumanos, Johnny Jack Mesclado, Espantalho, além do rapper Jander Manauara, como representantes do alto nível da criação musical no Amazonas.

Filho da nova geração, o amazonense Marcelo Nakamura é um dos compositores que mais tem músicas gravadas por outros artistas. “Eu acho que isso é resultado de um movimento que já acontece aqui, de música autoral, no qual os artistas estão sempre tocando músicas de outros artistas. Às vezes as pessoas me criticam porque eu entrego músicas minhas para outras pessoas gravarem e cantarem, mas eu particularmente sou totalmente aberto para isso”, diz ele, que ao mesmo tempo reivindica mais espaço para as composições locais nas zonas culturais da cidade. “Falta um pouco mais de espaço para difundir em outras zonas da cidade, que não apenas o circuito cultural do Centro”, diz ele.

Depoimento

“Criar é um ato  espontâneo, como brotar água de uma fonte.  Dali pra frente é que toldam a água, mudam a direção, manipulam ou tentam aterrar o rio. Eu procuro utilizar do que eu disponho no momento: se surge uma melodia eu procuro gravar num celular, ou fico martelando até decorar. Pra fazer a letra, o papel e o lápis é material básico. (lápis porque você pode apagar e refazer a qualquer momento) é mais prático do estar digitando no telefone. A canção ‘Faróis’, por exemplo, eu fiz num momento em que a Inês (esposa do compositor e intérprete de suas canções) passava por uma situação difícil: não podia cantar devido a um problema na garganta. Passou três anos sem poder fazer o que ela mais sabia e gostava, mas não perdeu a vontade de sonhar e acreditar na vida. Renovação (talves o maior sucesso da carreira do músico) foi o nosso canto de liberdade em 84. Ave Ventania foi uma música inspirada em quando eu e Inês estávamos esperando nascer o nosso filho Marcus Vinicius” - João Cândido, o Candinho

"Artista é o que faze da composição sua própria vida e assim cria com a própria vida sua obra de arte. A vida é uma processo criativo (...) e a criação de cada um de nós, todos os instantes da vida, é o que eu faz a existência desse planeta. Sejamos artistas e inventemos o nosso mundo (...). Eu me sinto compondo o tempo inteiro, falando com você eu já desligo o telefone e escrevo duas ou três frases... Se eu soubesse esse segredo todas minhas musicas tocariam na radio. Toda vez que penso pra compor sempre penso na linguagem que eu trabalho, a música pop. Não sou um músico buscando linguagem musical nova, quero escrever canções que tocam na rádio" - Paulinho Moska.