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Aplicativos de mensagens secretas e a linha tênue entre os elogios e as ofensas

Ferramenta tem dado lugar a tudo: há quem aproveite para elogiar e disseminar mensagens carinhosas. Mas há aqueles que se valem do anonimato para deixar desabafos ofensivos e preconceituosos 06/08/2017 às 16:39
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A auxiliar administrativa Yasmine Handrômeda acaba levando as mensagens na esportiva (Foto: Antonio Lima)
Laynna Feitoza Manaus (AM)

“Deixe uma mensagem construtiva”. É assim que os usuários do aplicativo Sarahah são recepcionados, quando chegam ao perfil de alguém para deixar alguma mensagem anônima. A exemplo de outros aplicativos que deixam a identidade dos mensageiros em segredo, como o Ask.Fm e o Secret,  a rede social teve uma importante adesão dos internautas na última semana. A ferramenta tem dado lugar a tudo: há quem aproveite para elogiar e disseminar mensagens carinhosas. Mas há aqueles que se valem do anonimato para deixar desabafos ofensivos e preconceituosos. Como tudo na vida, há sempre os dois lados.

O fotógrafo, professor e músico Bernardo Oliveira baixou o aplicativo por mera curiosidade e para ter noção do que as pessoas pensam e não tem a coragem para dizer. Bernardo recebe tanto mensagens de pessoas manifestando interesse romântico, quanto críticas ao seu trabalho. “Não ligo muito, isso faz parte da vida mesmo”, coloca ele. “Para o lado positivo, existe a vantagem de você poder falar algo que sempre quis para alguém, porém a timidez lhe prendeu até então, e o aplicativo dá esse conforto. Já do lado negativo é um aplicativo que só dá cobertura [para quem quer criticar]”, declara ele.

A auxiliar administrativa Yasmine Handrômeda, 28, criou um perfil na rede social pelos mesmos motivos de Bernardo. “Recebi mensagens de críticas com uma pitada de ódio (risos), mas também recebi mensagens cheia de amor e elogios”, diz ela. Há quem tenha excedido limites. “Teve uma mensagem que, além da pessoa me criticar, foi capaz de falar sobre meu relacionamento e até deduzir o que possivelmente meu marido estaria sentindo”, diz ela, ressaltando que, quem baixa o aplicativo precisa saber lidar com ele. “Algumas pessoas te fazem críticas construtivas. E outras só estão ali pra destilar o ódio, e desse tipo de gente eu me abstraio”, comenta ela.

Limites

De acordo com a psicóloga Aline Padilha, 43, como essas ferramentas são uma faca de dois gumes, essa ambiguidade de feitos de um lado positivo e outro negativo faz parte da nossa sociedade, e chegar em um equilíbrio é fundamental para uma qualidade de vida emocional cognitiva. “Devemos ter limites claros sobre a liberdade de expressão, o tempo de utilização, e avaliar a necessidade exagerada de validação e aprovação dos outros. Monitorar constantemente os efeitos e prejuízos do uso do aplicativo na vida das pessoas e na sua própria é necessário. Os prejuízos emocionais, profissionais e sociais são devastadores quando são [comentários] negativos”, pondera ela.

Mas há quem se esconda por trás da Internet só para agredir as pessoas, e impotência, frustração e necessidade de se impor sobre os outros é o que caracteriza o perfil desses agressores, diz Aline. “Esses aplicativos encorajam pessoas com posições extremas a se sentirem mais confiantes para expressá-las. As redes sociais abertas ou anônimas produzem uma espécie de validação do ódio que era muito mais difícil antes da democratização da Internet, porém é importante falar que a cultura do ódio sempre fez parte da vida das pessoas. Há necessidade de falar sem pensar sobre qualquer tema devido sua carência afetiva e a necessidade de auto-afirmação. E essas fragilidades são observadas incessantemente através da validação e da aprovação do outro, seja para o negativo ou para o positivo", pontua.

A quem recorrer

Para a advogada Jennifer Rebello, 24, a delimitação entre uma ofensa e a liberdade de expressão nem sempre é de fácil percepção, principalmente porque leva em conta aspectos culturais, regionais e sociais, dentre outros. “Isto num país da dimensão do Brasil é de grande relevância, porque no Norte uma expressão pode ter uma conotação e no Sul outra bem distinta”, coloca ela, que recomenda evitar utilizar regionalismos linguísticos em comentários nessas redes sociais de mensagens anônimas. “E que se evite comentários que atentem contra valores constitucionais como honra, imagem, raça, idade, sexo, naturalidade, religião, porque isso sem dúvidas é ofensivo”, declara.

Ainda segundo a advogada, caso a vítima se sinta lesada por algum comentário da rede social, esta deve procurar os meios adequados para promover a defesa do seu direito, desde a imediata documentação dos comentários ofensivos (prints), da sua repercussão, com registro dos fatos na Delegacia e aconselhamento jurídico através de advogado ou da defensoria pública. Entre os crimes que podem se originar de um comentário ofensivo estão a calúnia (quando se acusa alguém de um crime publicamente, com detenção de seis meses a dois anos e multa), a difamação (onde se ofende a reputação da pessoa, com detenção de um a seis meses e multa) ou a injúria discriminatória (quando afeta raça, cor, etnia, religião, origem ou condição da vítima, com reclusão de um a cinco anos)", coloca ela.

Blog

Débora Tapajós, advogada

“No geral [recebo] elogios à minha aparência e personalidade, e até agora só um comentário não muito agradável. Nesse caso específico, reduzindo a minha personalidade pelas fotos que publico e que eu não seria respeitável por conta das imagens compartilhadas. Eu particularmente não me importo, acho que todo mundo tem direito a ter sua opinião [...] e preciso da minha consciência mais do que da opinião alheia. Mas isso não dá o direito de ofender, só porque essa pessoa discorda do meu estilo de vida”.