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‘Poder exibir este filme é um sonho’, afirma Aurélio Michiles sobre estreia em Manaus

Cineasta amazonense virá a Manaus para  pré-estreia  na cidade de seu novo filme-documentário, ‘Tudo por amor ao cinema’, no dia 23 20/07/2015 às 10:03
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“Tudo por amor ao cinema” conta com 34 entrevistas, fragmentos de cenas de 70 filmes e um vasto arquivo pessoal de imagens e objetos, escolhidos por Aurélio Michiles para narrar a trajetória de Cosme Alves Netto (1937-1996)
Jony Clay Borges Manaus (AM)

Não é sempre que um cineasta amazonense tem a oportunidade de ver um filme seu chegar à rede de exibição de Manaus, usualmente restrita a produções de caráter mais comercial. Por essa razão, Aurélio Michiles comemora o fato de ter sua cidade natal incluída no circuito de estreia de seu novo documentário, “Tudo por amor ao cinema”. O longa-metragem tem estreia marcada para o dia 30, quinta-feira.

“Poder exibir este filme para os meus iguais, no lugar onde tu nascestes e que te deu régua e compasso, é um sonho que espero que se repita, não somente para mim, mas para outros realizadores amazonenses”, declara ele, que virá a Manaus para a pré-estreia do filme, nesta quinta-feira, dia 23, no Cinépolis Ponta Negra.

Em entrevista à reportagem, Michiles fala sobre o novo filme, em que enfoca a trajetória do também amazonense Cosme Alves Netto, uma das figuras mais importantes da História do cinema no Brasil. Ele fala ainda de sua relação com Cosme e do trabalho da produção, que consumiu cinco anos e teve filmagens no Brasil, em Cuba e em Portugal.

Como surgiu o projeto de “Tudo por amor ao cinema”?

Em 2006, fui jurado na Jornada da Bahia, quando também se celebrava a memória do Cosme. Num jantar, o produtor Thomas Farkas e o cineasta Rudá Andrade me fizeram uma provocação: “Faça um doc sobre o Cosme”. Aquilo ficou como uma semente jogada numa terra úmida. Somente dois anos depois assumi que realizaria o filme. Enquanto acontecia a formatação do projeto e captação dos recursos necessários para realizá-lo passaram-se cinco anos. (...) Neste meio tempo, antes que conseguisse entrevistá-los, tanto o Rudá como o Thomaz rumaram para a eternidade e foram se encontrar com o Cosme no céu dos astros e estrelas do cinema.

Você chegou a conhecer Cosme pessoalmente?

Na verdade foi ele que me conheceu. No início dos anos 1980, ele soube que um jovem no Amazonas havia realizado documentários em Manaus, ele me enviou um telegrama dizendo que gostaria de me conhecer. Depois recebi uma carta do Cosme dizendo que estaria de passagem por Manaus e queria conversar comigo. Daí em diante foi uma cumplicidade de todo o sempre.

Como era sua relação com ele?

Ele sempre me provocando e me alimentando com desafios. Por exemplo, depois que realizei o documentário “Que viva Glauber!” (1991), Cosme me telefonou dizendo que agora era a vez de fazer uma cinebiografia sobre o Silvino Santos. Ele enviava pelo correio pacotes com documentos sobre o pioneiro do cinema. Finalmente, em 1996, quando conseguimos levantar os recursos para a produção do filme “O cineasta da selva”, o Cosme, que já se encontrava com a saúde bastante delicada, veio a falecer. O filme é dedicado a ele, inclusive filmei uma cena em sua homenagem.

Como foi a trajetória do Cosme no cinema?

(Ele foi) um amazonense que foi morar muito cedo no Rio de Janeiro e tornou-se o mais longevo diretor da Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM-RJ). E mais: transforma aquele espaço numa referência de agito cultural, num verdadeiro rio Amazonas de ideias e criatividade. Tudo isso em plenos anos da ditadura militar, quando tudo era proibido, e desafiar esse proibido implicava o risco de morrer.

Como desenvolveu a produção para narrar essa história?

Filme-documentário mais parece aquele mito grego de Ariadne no labirinto do Minotauro: a gente começa com uma ideia, mas à medida que se aprofunda e penetra no personagem, surgem muitas possibilidades narrativas. Aí forma-se o desafio de optar por um caminho, senão corre-se o risco de perder-se ao meio do labirinto. Com esta cinebiografia sobre o Cosme não foi diferente. Ao cair no labirinto “cosmeano” fui encontrando uma multidão de pessoas que o conheceram e cada uma delas tinha um “causo-cósmico” para contar. Cosme foi amado, admirado e até mesmo cultuado, seja no Brasil ou no exterior. Recebo até hoje e-mails de pessoas que o conheceram e têm “uma história incrível para contar”.

Que pessoas você entrevistou para o longa? E que curiosidades descobriu sobre Cosme nesse trabalho?

Foram mais de 70 depoimentos, de amigos quem moram em Roma, Chile, Argentina, Peru, Panamá, Cuba, Venezuela, Berlim, Colômbia, México, França, Portugal e por todo o Brasil (Norte, Sul, Leste e Oeste). Como tinhamos limitação de orçamento, optamos por alguns. Na edição final ficaram menos da metade. A maior curiosidade foi descobrir o irresistível carisma dele, tanto que acabei por definir (os relatos) como “causos-cosme-cósmicos”.

De que forma escolheu narrar a história de Cosme no filme?

A escolha estética-conceitual de narrativa foi a de contar a sua vida por meio de curtas cenas de filmes, como se a vida dele fosse (e realmente é) formada por aqueles filmes a que ele assistiu e amou. Daí ter escolhido como “tag-line” da produção: “Ele fez dos filmes a história da sua vida”.

Na sua visão, qual o legado de Cosme para a cultura brasileira de hoje?

É a preservação da memória fílmica, sobretudo a brasileira/latino-americana. O fato de as cinematecas terem se transformado num lugar reconhecido, onde se pode encontrar parte das nossas lembranças, aquelas que nos formaram a partir do entretenimento. Ele doou a sua vida para que existisse essa instituição.

“Tudo por amor ao cinema” esteve em vários festivais. Como foi a recepção nesses eventos?

Em 2014, o filme abriu o É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, e teve uma excepcional recepção de público e da crítica. A partir daí foi acontecendo a sua trajetória pelos festivais, sempre despertando fortes emoções. Tem sido muito gratificante – é isso que todo realizador deseja para seus trabalhos, não?