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Precisamos falar sobre o Brasil: companhia de teatro curitibana aborda o País em espetáculo

O grupo desembarca em Manaus na próxima semana para apresentações do "projeto brasil", que acontecem nos dias 27 e 28, às 20h, no Teatro Amazonas 21/01/2016 às 13:59
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Nos últimos dois anos, a equipe percorreu capitais das cinco regiões apresentando outros espetáculos do repertório e realizando vivências em cada uma
Rosiel Mendonça Manaus (AM)

No fim dos anos 70, os compositores Maurício Tapajós e Aldir Blanc cunharam a canção “Querelas do Brasil” que tem como um dos seus trechos mais cheios de significado o verso “o Brazil não conhece o Brasil”.

Passados mais de 30 anos da primeira gravação na voz de Elis Regina, alguém dirá que a música tenha perdido a sua essência no tempo e já não seja mais um retrato do País? 

Provocar o público para essas e outras questões está entre os motivos que levaram a Companhia Brasileira de Teatro a criar o espetáculo “Projeto Brasil”, com texto e direção de Marcio Abreu e elenco formado pelos atores Giovana Soar, Nadja Naira e Rodrigo Bolzan, além do músico Felipe Storino.

O grupo, com sede em Curitiba, desembarca em Manaus na próxima semana para apresentações nos dias 27 e 28, às 20h, no Teatro Amazonas. A entrada é gratuita.

Inspirações

Marcio Abreu explica que o embrião da peça surgiu em 2013, antes da série de protestos históricos que aconteceram naquele ano e que se refletem ainda hoje no ambiente político e social.

“O primeiro fator de inquietação veio da nossa realidade cotidiana de trabalho. A companhia sempre se envolveu em muitas viagens, circulações e também trabalhamos com atores de cidades diferentes, então quisemos relacionar um pouco essa dinâmica com uma nova criação artística”.

Da mesma forma, o diretor se viu influenciado pelas experiências que teve nos últimos anos em viagens para fora do País, o que naturalmente despertou nele outra percepção sobre a própria terra natal. “No exterior, a gente se vê de fora, conseguimos nos olhar através do olhar do outro”, justificou ele.

“Aí começaram as manifestações de 2013, e isso foi uma loucura porque a gente pensou e viabilizou o projeto antes disso tudo. O eixo do espetáculo acabou atravessado por esse turbilhão de acontecimentos, que de certa forma se pronunciou de maneira muito feroz no mundo inteiro”, disse.

Ele garante, no entanto, que a questão inicial da nova obra foi preservada – a Companhia Brasileira não buscava criar uma peça sobre o País, mas a partir dele. Para isso, nos últimos dois anos a equipe percorreu capitais das cinco regiões apresentando outros espetáculos do repertório e realizando vivências em cada localidade. 

“Queríamos uma peça que fosse fruto dessa vivência e de um olhar específico, meu e dos artistas, numa perspectiva de viagem, coisa que já fazíamos, mas que agora era diferente porque estávamos conscientes disso”, completa o diretor.

Arte do encontro

“Viver” as cidades e conversar com as pessoas fizeram parte do processo inicial do “projeto brasil”. Segundo Abreu, dispor de tempo para além dos compromissos de trabalho se mostrou crucial nesse trabalho de apreensão de cada realidade.

“Deixamos um espaço para o imprevisto também, porque as principais coisas acontecem no imprevisto. Isso gerou um material sensível imenso”, comentou o diretor.

De Manaus, o grupo levou uma percepção inédita sobre a dimensão da cidade e dos seus contrastes. Ele tenta resumir: “Sair do perímetro urbano e entrar um pouquinho que seja na floresta é algo gigantesco para quem não é daí”. Aqui, eles também beberam o chá Ayahuasca, o que despertou uma conexão nova e nada banal entre os artistas.

“A nossa presença em Manaus nos deu a experiência de uma dimensão esquecida na história. Depois lemos e conversamos muito sobre isso. A cidade trouxe a consciência de que há inúmeras partes da nossa própria história que nos foram negadas, de certa maneira. O relevo das diferenças em Manaus também parece mais pronunciado. É muito bonito e violento ao mesmo tempo”.

Construindo o espetáculo

Outra etapa do processo envolveu leituras públicas de clássicos sobre a formação do pensamento a respeito do Brasil, como Darcy Ribeiro e Sérgio Buarque de Holanda, e de autores de literatura contemporâneos de cada região (o amazonense Milton Hatoum entre eles).

A dramaturgia do “projeto brasil” é fruto do trabalho conjunto da equipe, mas os textos são de autoria de Marcio Abreu, com exceção de trechos de dois discursos que são reais. “Talvez eu encabece as decisões, mas a colaboração dos atores é muito importante. Não teria escrito esse texto se não fossem eles”, admite o diretor.

Sobre o novo espetáculo ser o trabalho mais político e questionador da Companhia Brasileira, Abreu pondera: “De forma mais imediata, eu diria que sim, porque a estrutura dramatúrgica é mais permeável. Mas em outros trabalhos nossos também há a dimensão política no sentido de entender o teatro como campo de encontro. Isso pode ser visto na escolha por criar ou usar dramaturgias que coloquem esse espaço em evidência como linguagem, na busca por reentender e repensar a relação com o público”.