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Entretenimento
EXTINÇÃO

Temer 'ressuscita' Ministério da Educação e Cultura (MEC) e artistas criticam

O cineasta Sérgio Andrade, por exemplo, vê com desconfiança a fusão das pastas com a justificativa de conter gastos: “Estatísticas já dizem que o corte de ministérios tem participação ínfima no enxugamento de contas públicas” 13/05/2016 às 11:09 - Atualizado em 13/05/2016 às 14:09
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Reação: artistas se reuniram esta semana em frente ao Ministério da Cultura para protestar
Rosiel Mendonça Manaus (AM)

Com o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, nesta quinta-feira, e a posse do vice Michel Temer como presidente em exercício, confirmou-se um temor que vinha sendo ventilado há alguns dias pelos setores culturais do País: o Ministério da Cultura será extinto e a pasta voltará a ser absorvida pelo Ministério da Educação. Quem assume o comando das duas áreas passa a ser o deputado federal Mendonça Filho (DEM).

O agora ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, que cumpria sua segunda gestão à frente da pasta, criticou a mudança e tachou a decisão de “irresponsabilidade”. “A cultura tem uma interface com todas as facetas da vida social. Você pode fundi-lo até com o Ministério da Fazenda se quiser, mas é um erro, porque há uma especificidade do nosso trabalho”, declarou.

A notícia também repercutiu entre a classe artística de Manaus. O cineasta Sérgio Andrade, por exemplo, vê com desconfiança a fusão das pastas com a justificativa de conter gastos: “Estatísticas já dizem que o corte de ministérios tem participação ínfima no enxugamento de contas públicas”. Apesar de admitir que algumas áreas se complementam, ele acredita que esse não é o caso da Cultura e Educação.

“A Cultura movimenta uma indústria muito específica, que une técnica e arte e necessita de um corpo com abrangência para seguir adiante. Numa mescla com a Educação, a meta de uma se confundiria com a outra, tirando autonomias”, opina ele.

Para o diretor, o setor do audiovisual também tem motivos para temer a mudança brusca de direcionamento. “Com o MinC e a Ancine, conquistamos um escopo autosustentável que fez o cinema e as mídias de entretenimento avançarem economicamente. Foi um processo demorado e que lamentavelmente não deveria ser interrompido assim. Não sei o que acontecerá com a Ancine, eu receio que ela fique sem o seu direcionamento artístico”.

Conquistas

O artista e produtor cultural Paulo Trindade está em Brasília acompanhando os desdobramentos do afastamento da presidenta Dilma Rousseff para a Mídia Ninja e também opinou sobre as mudanças de rumo na cultura nacional com o fim do MinC. Para ele, 30 anos depois da criação do ministério, a pasta ainda tinha um potencial “gigantesco” a ser explorado.

“Ele tem um papel fundamental no desenvolvimento do país. Precisamos incluir a Cultura cada vez mais forte na plataforma de melhorias para nossa sociedade, como garantia de cidadania. A gestão pública baseada no conceito antropológico de cultura construiu um sistema nas diferentes esferas que possibilitou o diálogo, a busca de soluções, o debate, a reflexão, a articulação, a troca de experiências – tudo ajudou a fortalecer o setor”.

Caso a fusão dos ministérios se consolide com o impedimento definitivo da presidenta Dilma, Trindade acredita que deve haver uma desaceleração gradativa das políticas culturais. “A gestão atual trabalha o desenvolvimento do intangível, do imaterial, que o mercado tem dificuldade de entender porque sempre busca a materialização, o produto. Após um histórico marcado por avanços (vale destacar que tudo isso se deu durante o governo Lula), a sociedade após muita luta conquistou a Lei Cultura Viva, por exemplo”.

Diversidade

Na avaliação da cantora e produtora Elisa Maia, o MinC também sai de cena por motivos políticos. “É uma pasta de disputa do movimento social e isso ficou muito claro no governo Dilma. Era um dos poucos que abrigava uma resistência ao entreguismo que rolou”.

Sérgio Andrade é outro a destacar o potencial que o ministério tinha em aglutinar ao seu redor diversos grupos sociais. “A cultura dialoga de forma libertária e igualitária negros, indígenas, quilombolas, imigrantes, trabalhadores, mulheres, LGBTS, etc., então é uma instância de inquietação e reflexão. Ela pode exercer essa função ao lado da Educação mas sem ser atrelada a programas muito esquemáticos”.

Manter o diálogo

O artista e gestor cultural João Fernandes, que tomou posse nessa semana como representante do Amazonas na cadeira de Dança do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC), contou que foi aprovada uma carta de defesa à cultura durante a primeira reunião do colegiado. O documento considera a fusão dos ministérios como um “ataque” ao desenvolvimento das políticas públicas.

“Toda mudança sempre é uma incerteza, principalmente quando se fala em extinção. Nesse sentido, acho que o momento é sim de contenção, em todas as esferas, e também sabemos que esses lugares viram cabides de emprego, daí tudo onera. Nós, artistas, gestores e sociedade civil, temos que estar atentos a tudo e, mais do que isso, temos que continuar com nossa arte, potencializando cada vez mais o poder que a cultura tem de transformar”, disse ele.

Para João, a prioridade no momento é o fortalecimento da Fundação Nacional das Artes (Funarte) e do CNPC para que conquistas não sejam perdidas. “Qualquer política pública só sobreviverá se for uma via de mão dupla. Estamos falando de cultura, e quem assumir vai ter que nos ouvir e sentar para construir esses diálogos”.

Opiniões

Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura

“De 2003 para cá, avançamos muito. Temos responsabilidades em muitas áreas de patrimônio, de museus, de desenvolvimento cultural, de apoio e incentivo à cultura popular, na produção artística. Tudo isso corre perigo”.

Ivana Bentes, ex-Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério

“Não será a derrota de uma gestão ou de um governo, significará um retrocesso de décadas nas políticas culturais e uma desqualificação e desprestígio de todo o campo cultural!”

Aldemar Matias, Cineasta

“Esse raciocínio de ‘o povo da Cultura só quer defender o seu’ é tão pequeno, tão limitado… Exigir políticas públicas para a Cultura deveria ser prioridade para QUALQUER cidadão, não só para os profissionais do setor. Entender como desperdício o uso do dinheiro público para a produção artística de um País é sintoma de uma noção de cidadania pobre, insensível e alienada”.

Picolé da Massa, produtora cultural

“[A fusão é] um retrocesso em meio a tantas conquistas e vitórias e, principalmente, um golpe na esperança de ver, cada vez mais, as ações descentralizadas, chegando ao Brasil mais profundo”.

Federação de Teatro do Amazonas (Fetam)

"A cultura é o que nos torna realmente humanos, o que nos tira da barbárie. Estamos vivendo um tempo deveras estranho. Uma nuvem de incertezas, medo e, sobretudo vergonha, paira sobre a cabeça dos fazedores de arte país afora. Todos nós artistas seremos atigindos negativamente com a decisão do novo presidente do Brasil. É lamentável."