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Rumo do audiovisual no AM em foco num diálogo de gerações

Os realizadores Roberto Kahane e Keila Serruya falam de cinema e vídeo no Amazonas 24/06/2012 às 14:51
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Produção e difusão foram alguns dos temas da conversa de Kahane e Keila para a série
Virgílio Simões Manaus

O O cinema é uma arte que não para de surpreender. Continuando a Série Encontros de reportagens, A CRÍTICA convidou dois realizadores de diferentes gerações para conversar sobre o audiovisual. Mas, logo ficou claro que havia não duas, mas três gerações representadas.

Roberto Kahane é um cineasta da geração surgida na década de 1960. Um de seus primeiros trabalhos foi o documentário “O fim de um pioneiro”, sobre a vida e morte de Silvino Santos. De certa maneira, a figura de Silvino acompanha a trajetória de Kahane desde então. Por sua vez, a jovem realizadora Keila Serruya dirige e produz curta-metragens experimentais e documentários com tecnologia digital.

Quem vê os filmes
O primeiro assunto de que tratamos é a formação de público e distribuição. Kahane se formou culturalmente pelo movimento cineclubista, forte nas décadas de 60 a 80, quando havia um circuito nacional que incentivava a distribuição de filmes. Kahane conta que, durante os governos militares, mesmo com a repressão que havia, a lei incentivava a produção de curta-metragens. “Todas as salas de exibição do País eram obrigadas a passar filmes nacionais no início das sessões, e parte da bilheteria ia pro realizador. Vivi durante dez anos apenas da produção de curta-metragens. E posso dizer que vivi bem”.

Para Keila, o caminho é descentralizar: “Usamos a Internet para fomentar um circuito independente de distribuição regional. Mantemos um cineclube, mas esses espaços ainda são poucos em Manaus. Temos cerca de quatro cineclubes funcionando no Centro, e quase nenhum nas outras zonas da cidade. Se queremos que o audiovisual cresça, temos de chegar a essas outras zonas”.

Pensando a arte
Além de produzir seus filmes, Keila participa de fóruns que discutem políticas públicas para a cultura. “Pensamos ser válido restabelecer as cotas para exibição de curta-metragens nos cinemas, não só para filmes locais, mas para os das regiões Norte e Nordeste”. Para ela, há uma dependência dos editais públicos que atrasa um pouco a profissionalização: “Ainda vivemos de produção, poucos conseguem viver de bilheteria”. Segundo Kahane, os filmes brasileiros já chegam pagos aos cinemas. “O maior investidor do cinema nacional é a Petrobras, mas 80% do dinheiro vai pro Rio de Janeiro, 12% pra São Paulo, e os 8% restantes para o resto do Brasil”.

Falta inquietação
Por que não se produzem longa-metragens hoje em Manaus, quando a tecnologia facilitou o processo? Para Kahane, falta inquietação. “Minha geração sentiu a repressão política da ditadura, o que nos impôs uma postura de inquietação ideológica, política e estética. Não vejo isso na nova geração, com raríssimas e honrosas exceções. Hoje não se depende mais de cineclubes. Basta ter curiosidade e procurar pelos filmes. Os novos realizadores precisam parar de imitar o besteirol americano e se inquietar com a sua realidade. Se você falar dos problemas do seu bairro, da sua rua, você é universal”, declara.

Keila, por sua vez, ressalta que há também trabalhos interessantes e ousados na produção atual. “Tem gente que faz um filme de um minuto e se declara cineasta. Não me considero cineasta, mas sim uma realizadora audiovisual. Tem muita gente fazendo videoclipe, videodança, teatro filmado interessante. Esses segmentos também estão se profissionalizando”.

Sem estímulo?
Entramos na questão das políticas públicas de incentivo. Keila diz que não basta produzir: “Posso fazer meu filme e ele ficar na gaveta. É muito mais importante o fomento político, que vai gerar desdobramentos. Ajudando os outros a fazer bem, você fortalece o mercado e fica forte também”.

Kahane lembra da dificuldade quando acabou o incentivo à produção e distribuição, na era Collor. “O cinema parou e os cineastas tiveram que partir para a publicidade. Eu já tinha experiência nessa área e continuei. Montei uma produtora e parti para captação de recursos. Tem de sair mesmo com o pires na mão, levantando financiamento aqui e ali”.

Keila acha que o pensamento do empresariado local está amadurecendo. “Temos parceiros que produzem publicidade mas também se interessam em produtos culturais. Basta chegar e negociar com eles. O pessoal do brega consegue e nós podemos também”.

Telonas e telinhas
E como apresentar o trabalho? Keila aposta na Internet; Kahane é menos entusiasta. “Na Internet você não tem remuneração”, ele diz. Keila responde: “Mas, assim como vocês levavam seus filmes aos festivais, para divulgar o trabalho, hoje podemos postar na Internet. Você chega com o empresário e fala ‘Meu filme está na rede, teve 5 mil visualizações, tem qualidade, vai lá ver’. No festival o seu filme não será tão assistido quanto na Internet”.

Kahane lamenta não haver cinemas para filmes alternativos em Manaus: “Isso é uma coisa comum no Rio. Hoje tenho três filmes sendo exibidos na Rio+20, nesse esquema. Poderia ter aqui também”.

Para Keila, o caminho é a independência. “Hoje nós mesmos fazemos nossa distribuição e divulgação. Não dependemos mais das grande empresas”.

Festival Norte de Cinema
Roberto Kahane foi o vencedor do 1º Festival Norte de Cinema Brasileiro, realizado em Manaus no ano de 1969. Ele articulou a participação de personalidades do cinema nacional, como Rogério Sganzerla e Joaquim Pedro de Andrade, no festival.

Foi nesta ocasião que sua geração de cineastas entrou em contato com a obra e a pessoa de Silvino Santos. O cineasta português, pioneiro do cinema amazonense, faleceu poucos meses depois.

Kahane relembra que filmou o funeral de Silvino e depois acompanhou a família do artista até a casa onde ele morava, ao lado do cine Éden. Foi lá que encontrou grande parte da obra de Silvino, abandonada no quintal, ao relento.

“Eram vários rolos de filme de nitrato, em péssimo estado de conservação, e iriam parar no lixo, se eu não os tivesse requisitado e recolhido tudo”, recorda. Parte deste material foi recuperado por laboratórios do Rio de Janeiro, e muita coisa continua inédita para o grande público até hoje.

Carma Provinciano
Com seu documentário sobre a morte de Silvino Santos, Kahane sentiu o peso de ser amazonense: “Mostrei o filme no Rio e todos me criticaram. Falaram que era de extremo mau gosto, pois filmei tomadas sobre o caixão. Quatro anos depois, o Glauber Rocha copiou meu filme, quando filmou o enterro do Di Cavalcante. Foi menos respeitoso que eu, e todo mundo bateu palmas”, afirma.