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Alimentos reimosos

Sabedoria amazônica desaconselha consumo de alguns alimentos por pessoas recém operadas

Carnes de peixes amazônicos como o bodó, piranha e pirapitinga, além da carne de porco, são retirados da dieta de pessoas que estão se recuperando de cirurgias 29/03/2012 às 16:10
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Alguns tipos de carne, como a de porco e certos peixes deixam pessoas em alerta
Luciana Santos Manaus

A sabedoria dos amazônidas ensina que comer alimentos reimosos é contraindicado para pessoas doentes ou que passaram recentemente por algum tipo de cirurgia. Mas um alimento seria realmente capaz de influenciar no processo de cicatrização, ou tudo não passa de um mito alimentar que permanece vivo entre nós apesar de todo o avanço tecnológico e da medicina? Os médicos são categóricos em afirmar que essa contraindicação não passa de uma crendice popular, não havendo qualquer confirmação científica sobre o tema.

 Moradora da Costa do Pesqueiro, uma comunidade próxima de Manacapuru, a aposentada Leonora Furtado diz que o povo do lugar acredita piamente nos males causados pelos alimentos reimosos e evitam ingerir tais pratos quando estão adoentados ou passam por algum tipo de cirurgia. Entram na lista das comidas proibidas muitos peixes da região, como o bodó, a piranha, a pirapitinga e também a “temida” carne de porco. “Eu como de tudo, mas aqui as pessoas evitam essas comidas porque acreditam que provocam inflamações”, conta.

 Os índios Saterê Maué também acreditam que alimentos reimosos, principalmente peixes, não devem ser ingeridos em determinados períodos, como o de resguardo, para as mulheres; e durante os dias anteriores ao ritual da tucandeira, para os jovens guerreiros do grupo. “Acreditamos que peixes como matrinxã, pacu e os de couro causam inflamação. No caso das mulheres que acabaram de ter bebê, o parto pode subir para a cabeça”, conta Sahu da Silva, um dos representantes da etnia em Manaus.

 Além da questão de saúde, os saterê atribuem uma outra função aos alimentos “reimosos”. Segundo Sahu, os homens da tribo evitam comer o peixe traíra nos dias em que saem para caçar. “O caçador para entrar na selva não pode comer traíra porque, ao suar, deixa um cheiro forte e acaba afugentando a caça”, explica.

Gordurosos

O gastroenterologista e cirurgião geral Isaac Tayah explica que os alimentos batizados pela população de reimosos são, na verdade, alimentos com grande concentração de gordura, o que os torna de difícil digestão pelo organismo. Essa sobrecarga, segundo o especialista, pode levar a sintomas como dor de estômago, diarréia, mas em nenhum momento afeta a cicatrização.

 “Essa gordura vai afetar o funcionamento do aparelho digestivo, não vai para o sangue. E o tempo de coagulação é medido nos exames pré-operatórios, através do coagulograma para garantir que não há algum distúrbio”, diz Tayah, citando o descontrole do diabetes e a obesidade como fatores que podem dificultar a cicatrização.

O também gastroenterologista e cirurgião geral Sidney Chalub afirma que a crença é um mito, mas explica que determinados alimentos, como os crustáceos, produzem substâncias inflamatórias, a prostaglandina e o leucotrieno, fato que, segundo ele, pode ter levado à crença popular. “Não existe comida reimosa. Esses alimentos são, na verdade, muito gordurosos e de difícil digestão”, garante Chalub.


O cirurgião plástico Renato Gallo também afirma que a restrição aos alimentos reimosos é uma crendice popular. Ele explica que a cicatrização não está relacionada ao tipo de alimento que o paciente consome, mas às condições existentes para que o corpo possa realizar esse processo. “Para fabricar as células , o corpo precisa encontrar as substâncias necessárias, como proteínas, líquidos e um aporte de calorias para fazer o novo tecido”, explica.

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Rosilda Carmelo, tesoureira

“Fiz uma pequena cirurgia para tirar um sinal no seio no fim do ano passado. Como estava próximo das festas de fim de ano, perguntei ao médico se precisaria evitar alguma comida típica, como o pernil que é tradicionalmente servido na ceia de réveillon da minha família. No dia 31 de dezembro, o corte já estava bem cicatrizado e comi normalmente. No dia seguinte, percebi que o local estava inchado e, à noite, verifiquei que havia secreção no ferimento. Não sei se isso acontece com todo mundo, mas acredito que algumas pessoas podem ter organismo com restrições. Agora evito comer carne de porco e acho que se não tivesse comido, nada teria acontecido”.