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Saiba quais são os perigos de tomar muitos remédios ao mesmo tempo

Geriatras e pesquisadores há anos alertam sobre os perigos da polifarmácia, normalmente definida como a ingestão de cinco ou mais remédios ao mesmo tempo. Ainda assim, esse fenômeno continua a aumentar em todas as faixas etárias, atingindo níveis preocupantes principalmente entre os idosos 11/05/2016 às 11:16
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Arte: Joyc­e Hesse­lbert­h/The New York Times
Paula Span © 2016 New York Times News Service

O doutor Caleb Alexandrer sabe da facilidade com que as pessoas mais velhas desenvolvem o fenômeno da "polifarmácia": como acontece com muitos idosos, é bem provável que comece com a ida a vários especialistas, que prescrevem ou renovam receitas.

"O cardiologista recomenda um bom remédio para o coração com base em evidências. O endocrinologista faz a mesma coisa para os ossos", explica Alexander, um dos diretores do Centro para a Segurança e Efetividade de Medicamentos John Hopkins.

E digamos que o paciente use remédios para refluxo que não precisam de receita e tome uma aspirina diariamente ou um suplemento de zinco e cápsulas de óleo de peixe. "Rapidamente, você tem um senhor de 82 anos tomando 14 remédios", diz Alexander, exagerando, mas não muito.

Geriatras e pesquisadores há anos alertam sobre os perigos da polifarmácia, normalmente definida como a ingestão de cinco ou mais remédios ao mesmo tempo. Ainda assim, esse fenômeno continua a aumentar em todas as faixas etárias, atingindo níveis preocupantes entre os idosos.

"É tão perene quando a grama. O idoso médio está tomando mais medicamentos do que nunca", compara Alexander.

Ao acompanhar o uso de remédios que precisam de receita de 1999 até 2012 por meio de uma grande pesquisa nacional, pesquisadores de Harvard relataram em novembro que 39 por cento das pessoas com mais de 65 anos hoje usam cinco ou mais medicamentos, um aumento da polifarmácia de 70 por cento em 12 anos.

Muitos fatores provavelmente contribuíram, incluindo a introdução da cobertura de remédios no sistema de saúde público para idosos, o Medicare, em 2006, e diretrizes de tratamento que (de modo controverso) pedem um maior uso de estatinas.

Mas os idosos não tomam apenas remédios prescritos. Um artigo publicado no JAMA Internal Medicine, usando um estudo nacional longitudinal com pessoas de 62 a 85 anos, pode ter revelado um quadro mais completo.

Mais de um terço estava tomando pelo menos cinco medicamentos prescritos e quase dois terços usavam suplementos, incluindo ervas e vitaminas. Cerca de 40 por cento ingeriam remédios que não precisam de receita.

Nem todos correm perigo por causa da polifarmácia, claro, mas alguns desses produtos, mesmo aqueles que parecem naturais e estão disponíveis nas lojas de produtos saudáveis, interagem com outros e podem causar efeitos colaterais perigosos.

Com que frequência isso acontece? Os pesquisadores, depois de analisar os remédios e os suplementos tomados, calcularam que, em 2005 e 2006, mais de oito por cento dos idosos estavam correndo risco de sofrer uma interação medicamentosa importante. Cinco anos depois, a proporção excedia os 15 por cento.

"Não estamos prestando atenção às interações e à segurança da ingestão de vários remédios. Esse é um grande problema de saúde pública", afirma Dima Qato, principal autora do artigo do JAMA Internal Medicine (do qual Alexander foi um dos autores), farmacêutica e epidemiologista da Universidade de Illinois em Chicago.

Ela ficou chocada ao descobrir, por exemplo, que o uso de suplementos de óleo de peixe com ômega 3 havia quadruplicado em cinco anos. Sua pesquisa sugere que quase um em cinco idosos toma essas cápsulas hoje.

Os usuários acreditam que o óleo de peixe é bom para o coração, mas Dima explica que as cápsulas ainda não foram regulamentadas, nem possuem evidência de efetividade e podem causar sangramentos em pacientes que tomam anticoagulantes como o warfarin (genérico: Coumadin).

Apesar de as interações medicamentosas poderem acontecer em qualquer faixa etária, as pessoas mais velhas são mais vulneráveis, explica o doutor Michael A. Steinman, geriatra da Universidade da Califórnia, em San Francisco, que escreveu um comentário que acompanha o artigo.

A maioria possui várias doenças crônicas, então toma mais medicamentos, o que aumenta o risco de interações perigosas. As consequências também podem ser mais ameaçadoras. Vamos dizer que um remédio deixe o paciente idoso tonto.

"Eles estão mais propensos a cair, porque não têm as mesmas reservas de equilíbrio e força de um jovem ou de alguém na meia idade. E se caem porque estão tontos, têm mais propensão a se machucar", afirma Steinman.

Algumas combinações comuns que apareceram no estudo e podem causar problemas: aspirina e o anticoagulante clopidogrel (Plavix), dois diluentes do sangue que juntos aumentam o risco de hemorragias com o uso prolongado; aspirina e naproxen (Aleve), remédios sem necessidade de prescrição que, quando combinados, podem causar sangramentos, ulceração ou perfuração do estômago.

Dima Qato se lembra de rever os medicamentos de um homem de 67 anos que tomava tanto o remédio contra colesterol simvastatin (Zocor) quanto o para pressão amlodipine (Norvasc) – a combinação mais comum de remédios com algum tipo de interação que surgiu em seu estudo.

As estatinas, junto com suas propriedades para baixar o colesterol, podem causar dores musculares e fraqueza; o Norvasc aumenta esse risco. Um remédio diferente para pressão – existem muitas alternativas – seria uma opção mais segura, afirma Dima. Ainda assim, quase quatro por cento dos idosos em seu estudo tomam os dois medicamentos.

Além disso, embora seu paciente não estivesse com problemas, ele também tomava suplementos de alho e de ômega 3, que podem interagir com remédios que exigem receita.

"'Você contou ao seu médico que estava tomando os suplementos?'", ela se lembra de ter perguntado. "Ele disse: 'Não, por que deveria? Se fosse importante, ele me perguntaria, não?'"

Uma dúvida razoável. Um estudo recente do JAMA Internal Medicine, no entanto, descobriu que mais de 42 por cento dos adultos não contam a seus médicos sobre os complementos que usam mais comumente ou remédios alternativos, incluindo um quarto desses que aposta mais em ervas e suplementos.

Normalmente isso acontece porque os médicos não perguntam e os pacientes não acham que eles precisam saber; em alguns casos, os profissionais já tinham desencorajado o uso de terapias alternativas ou os pacientes acham que eles o fariam.

E eles talvez o façam, especialmente para pacientes idosos com rotinas complexas. "Não sou muito fã de suplementos", Alexander costuma dizer aos pacientes que tomam muitas vitaminas, suplementos e remédios de ervas.

"Acho que a maioria das evidências levanta questões sérias sobre sua efetividade ou, em alguns casos, sua segurança. Eles são menos regulados do que os remédios que precisam de receita. Acho que é melhor não tomar."

Alexander conta: "Os pacientes frequentemente resistem e são os capitães de seus próprios navios". Então, o médico explica os riscos e os benefícios e eles negociam.

Muitas vezes, os pacientes não sabem que uma aspirina por dia, o remédio para gastrite Prilosec OTC ou o óleo de peixe podem interagir com outros medicamentos. Ou ficam confusos sobre o que estão realmente tomando.

Steinman se lembra de pedir a um paciente para trazer todos os remédios que estava tomando para uma reavaliação. Ele descobriu que o homem acumulava quatro ou cinco vidros do mesmo medicamento sem perceber e ingeria várias vezes a dose recomendada.

Em última análise, a melhor maneira de reduzir a polifarmácia é reformular a abordagem fragmentada da saúde. "O sistema não está voltado para olhar a pessoa como um todo, para ver como os padrões se encaixam", explica Steinman.

Enquanto isso, porém, os pacientes e suas famílias podem pedir pareceres aos médicos, incluindo todos os suplementos, e discutir se devem continuar ou mudar suas rotinas. Os farmacêuticos, muitas vezes subutilizados como fonte de informação, podem ajudar a coordenar os medicamentos e alguns pacientes podem estar qualificados para revisões por meio do Medicare.

"Gastamos muito dinheiro e esforço tentando descobrir quando começar a tomar um remédio e surpreendentemente pouco para saber quando parar", diz Alexander.

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