Publicidade
Entretenimento
Vida

Samba em dois tempos: Tradição que sempre se renova

Símbolo de resistência e de brasilidade, o samba é transmitido de geração para geração 29/07/2012 às 16:43
Show 1
Paulo Onça e Jorge Henrique discutem o cenário sambista de Manaus em encontro de gerações
Virgílio Simões ---

 A série Encontros resolveu colocar o pé no samba esta semana e convidou dois bambas para uma conversa descontraída sobre o cenário manauara. Paulo Onça é compositor das antigas. Criou verdadeiros hinos para a Vitória Régia, Reino Unido e Sem Compromisso, além de enredos nas cariocas Salgueiro e Grande Rio. Também compôs para o Boi Garantido por anos. Jorge Henrique, por sua vez, é representante da nova geração do samba na cidade. Mas com um pezinho na tradição.

Violonista no Ases do Pagode, é filho de um dos criadores e compositor do grupo, nos anos 1980, Jorge Ignácio. Começamos falando sobre a diferença do samba que era feito antes com o de agora. Onça opina: “Antes era um samba mais gostoso, era de raiz. A gente cantava por amor. Se tivesse uma grade de cerveja, tava ótimo. Hoje a mídia deturpou tudo. É outro samba. O pessoal vai mais para paquerar que para ouvir a música. Na minha época, nem cavaquinista tinha. Tinha só um na cidade inteira”. Henrique concorda que o samba passou por mudanças e agora a moda é um pagode mais pop: “Nós do Ases tentamos fazer um resgate do samba de roda tradicional. Mas acredito que todos devem ter seu espaço, cada um com seu trabalho”.

Cenário sambista
Onça confessa a satisfação quando vê casas de samba cheias hoje em dia: “São poucas. A Reino Unido é quem faz a resistência do samba hoje. A quadra fica ‘minada’. As outras não conseguem lotar”. O Ases do Pagode mantém um bar em Adrianópolis. “Estamos conseguindo manter, com casa cheia. Isso mostra que o samba está recuperando um espaço que perdeu no passado. Vamos lançar este ano nosso primeiro DVD, então vejo com bons olhos o momento”, comentou Henrique.

 E quanto ao espaço para o compositor mostrar seu trabalho? Onça reclama que aqui há muito espaço para o “roubositor”, que se aproveita dos sambas de roda e tira espaço do verdadeiro compositor. Para ele, esse é um dos entraves para o sambista viver de música. “Faço músicas para as escolas do Rio, e lá a coisa funciona. Eles pagam bem para o compositor. Aqui em Manaus, a gente só recebe oração”, brinca o sambista. Onça está lançando um novo CD, “Foi-se o verde”, totalmente independente.

“É para mostrar que estou vivo”, afirma. “As gravadoras não se interessam pelos sambistas daqui. Já recebi direitos autorais de músicas minhas tocadas na França, mas na minha terra, nada”. Henrique acredita que o cenário não mudou muito nos últimos tempos. Além do desinteresse das gravadoras, os sambistas sofrem com as barreiras para colocar suas músicas no Carnaval. “As escolas de samba têm esquemas fechados, panelinhas, e não abrem espaço pra novos talentos”, desabafa.

Vertentes do samba
Há diferença entre samba e pagode? Para ambos, há o samba de raiz, o partido alto, e há o samba pop ou pagode romântico. “É outra pegada, outra levada. Nós fazemos mais raiz e partido, com poucos pagodes no meio”, falou Henrique. Ele também trabalha com a vertente samba-rock. Mas acha difícil emplacar o estilo em Manaus: “Não tem público suficiente. Uma banda não consegue sobreviver só fazendo samba-rock. Eu toquei no grupo Samba Bem Black, entre 2009 e 2010, mas tivemos de parar com a banda, justamente porque o público não rendia. Hoje, no Ases, eu sou o cara que puxa as músicas do Seu Jorge, por exemplo, que é um tipo de samba-rock”. Seu Jorge, aliás, é um compositor elogiado por ambos. Onça afirma: “É um guerreiro, mas só foi valorizado no Brasil quando venceu nos EUA”.

Escolas e artistas mantêm gênero vivo
Jorge cresceu em “berço de samba”, e Paulo Onça foi um dos que embalaram Conversamos um pouco também sobre a tradição do samba em Manaus. Para Paulo Onça, o berço do samba na cidade é o bairro da praça 14, com a Vitória Régia. “Era lá que a ‘pretalhada’ toda se reunia para fazer samba, o pessoal do barranco, uma coisa maravilhosa. Depois surgiu o samba na Reino Unido, que abraçou a ideia. E só depois vieram os blocos”, comentou. Jorge Henrique completa: “A gente pode dizer sim que a maior tradição do samba em Manaus é das escolas de samba. Mas tem pessoas e grupos que tentam manter viva essa tradição do samba de roda. Essa é a proposta do Ases do Pagode, um grupo que existe há 25 anos, e com o qual buscamos manter esse samba mais pé no chão, com o povo ao redor, cantando, sambando. Tentamos manter essa bandeira”.

 E em relação aos blocos de rua? Para Onça, perderam muita força: “Tínhamos muitos, e era uma coisa muito legal. Tinha bloco do Havaí, da Onça. Hoje só tem bloco do ‘saco’”, brinca. Mas Henrique acredita que eles estão voltando a acontecer: “Alguns estão começando a ganhar novos adeptos. Estão surgindo novos blocos com muita força. Acho que esse tipo de festa vai crescer novamente. É divertido demais, feito com muita descontração. Este ano, participei de alguns”.

Samba nos passos do boi
O boi tirou o espaço do samba em Manaus? Onça acha que não: “Quem tirou o espaço foram os presidentes das escolas de samba. O nosso Carnaval era o segundo melhor do Brasil. Hoje as quadras das escolas estão vazias. Estão acabando com aquilo que a gente gosta. Fomos transmitidos para todo o País, uma coisa linda. Montaram o ‘Botequim do Samba’, entrevistando os sambistas na cabeceira da pista. Você vai ver o desfile agora, os carros não têm mais alegorias bonitas, vestes bonitas. A Secretaria de Cultura não libera mais o dinheiro. Fico triste com nosso Carnaval”, desabafa.

Já Henrique acha que as escolas estão recuperando o profissionalismo: “Não diria que as escolas acabaram. Elas continuam aí, ainda existe resistência, gente batalhando para fazer uma festa bonita”.