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Saxofonista Leo Gandelman se apresenta pela 1ª vez em Manaus

O músico carioca retorna à cidade para seu primeiro show na cidade aberto ao grande público, no dia 29 de junho, dentro do 9º Festival Amazonas Jazz (FAJ) 15/06/2014 às 14:58
Show 1
Leo Gandelman traz a Manaus o show do álbum “Vip vop”, lançado em 2012
JONY CLAY BORGES ---

Leo Gandelman se apresentou em Manaus uma única vez, num evento particular, logo depois de lançar seu primeiro disco, em 1987. Quase 30 anos mais tarde, o saxofonista de renome internacional enfim retorna à cidade para seu primeiro show na cidade aberto ao grande público, no dia 29, domingo, no Teatro Amazonas, dentro do 9º Festival Amazonas Jazz (FAJ). E ele já antecipa boas expectativas quanto ao retorno. “Tenho certeza de que vai ser fantástico”, declarou o instrumentista por telefone, do Rio de Janeiro, onde vive.

A participação de Gandelman no FAJ já era aguardada há bastante tempo: o nome do saxofonista, era um dos mais solicitados por músicos e artistas locais, reconhecimento que reflete seu prestígio na cena musical brasileira como um todo, e pelo qual ele se diz “honrado”. “Para quem trabalha por ideal, por sonho, o reconhecimento do público é o maior reconhecimento”, afirma ele, que por 15 anos foi apontado como melhor instrumentista por leitores do “Jornal do Brasil”. “Isso é muito importante, pois é o ‘resultado das urnas’”.

No palco

Em Manaus, Gandelman apresentará o show de um de seus trabalhos mais recentes, “Vip vop”. Lançado há dois anos em CD e DVD, o disco autoral é inspirado na produção musical do Rio de Janeiro nas décadas de 1950 e 1960. “São composições dentro da estética da Bossa Nova e do sambajazz, e uma homenagem a músicos que tornaram a música brasileira internacional”, explica o instrumentista, que tocará num quinteto, com a participação especial de Serginho Trombone.

Além das músicas de “Vip vop”, Gandelman incluirá no repertório algumas composições que marcaram a sua trajetória. Entre elas está “Solar”, faixa-título de um álbum lançado em 1990 e resultado de sua parceria com William Magalhães. Este, vale dizer, é filho do saudoso saxofonista Oberdan Magalhães, ao lado de quem Gandelman trabalhou num histórico naipe de sopros, entre final dos anos 1970 e início dos 1980, e que ele cita como uma de suas referências musicais.

“Nivaldo Ornellas e Oberdan Magalhães. Quando voltei a tocar no Brasil (vindo dos Estados Unidos, onde estudou na Berklee College of Music), em 1979, o (clarinetista) Paulo Moura foi minha maior referência. Sempre curti muito Wayne Shorter era outro que ouvia bastante, mesmo antes de começar a tocar. E, mais tarde, o John Coltrane, que considero o pai de todo saxofonista”, recorda.

Produção

Leo Gandelman lançou seu primeiro e homônimo álbum em 1987, e desde lá mantém uma produção regular que inclui, entre outros, “Visões” (1991) e “Pérolas negras” (1996). Em 1998, ele lançou um selo Saxsamba, pelo qual saíram “Brazilian soul” e “Lounjazz” (2005), para citar alguns.

“A missão de ser empreendedor, de financiar e fabricar, é uma coisa difícil para o artista, pois não tem a ver com a criação artística, consome tempo, trabalho, suor, staff. Mas foi algo que fiz pela necessidade de continuar criando e de fazer essas criações chegarem ao público de forma mais justa”, explica ele, que considera o mercado fonográfico da atualidade “extremamente decadente”. “Quando apareceram os primeiros serviços de streaming, isso bagunçou o mercado para artistas da música, compositores. A indústria fonográfica foi reduzida a uma fração do que já foi”.

O trabalho mais recente de Gandelman é “Ventos do Norte”, em que ele dá continuidade a um mapeamento da construção da linguagem do saxofone no Brasil, iniciada com o premiado “Radamés e o sax”, de 2007. “Nele eu mostro como Radamés Gnattali privilegiou o instrumento. Já ‘Ventos do Norte’ mostra a vinda dos artistas nordestinos para o Rio de Janeiro, como Ratinho, Cachimbinho, Luiz Americano, Moacir Santos. Com outros músicos cariocas, eles construíram um caminho para o sax”, explica.

Com “Radamés e o sax”, Gandelman recebeu os Prêmios Tim de CD Instrumental e Produção Musical – mais um reconhecimento a um dos artistas mais talentosos do sax brasileiro. A receita do sucesso, ele afirma, é a dedicação: “A música que a gente gosta, para se tornar realidade, precisa de muita devoção, paciência consigo mesmo. E acreditar no sonho”.

Mais espaço para o jazz

Nome frequente em festivais de jazz no Brasil e em outros países, Leo Gandelman avalia que o gênero surgido nos Estados Unidos no início do século 20 expandiu suas fronteiras conceituais para abranger diversos estilos musicais. “O jazz, para mim, é o maior legado da música norte-americana, mas é basicamente a organização do improviso. Hoje se fala em ‘música improvisada’. E o improviso faz parte de todo tipo de música: chorinho, samba, bossa nova, qualquer estilo hoje trabalha com o jazz”, opina ele.

Para o saxofonista carioca, o crescimento do circuito jazzístico, com vários eventos do gênero surgidos na última década (entre eles o FAJ), reflete a necessidade de se ter um espaço maior para a produção musical menos afeita às massas. “A música que a gente faz é, antes de mais nada, alternativa, pois não está contida na mídia massiva. O surgimento de vários festivais de jazz vem mostrar, primeiro, que o povo brasileiro é extremamente musical, e segundo, que nem todos vivem do que está contido na mídia massiva. Há uma necessidade de diversidade, e a música brasileira é muito rica. A instrumental tem várias vertentes. O público tem necessidade de consumir esse tipo de música, faz parte da necessidade espiritual das pessoas”.

Evento terá grandes atrações

Além de Leo Gandelman, o FAJ trará outras atrações de peso ao palco do Teatro Amazonas. Já na primeira noite do evento, no dia 26, quinta-feira, o trompetista carioca radicado em Nova York, Cláudio Roditi, apresenta-se ao lado da Amazonas Band, sob a regência do titular da orquestra, Rui Carvalho. O harpista colombiano se apresenta na mesma noite no palco do Teatro Amazonas.

No dia 27, sexta, o evento terá como atrações o grupo amazonense Cordão do Marambaia e o baterista cubano Dafnis Prieto – cuja música tem a força de “um asteroide atingindo a Terra”, de acordo com o jornal “The New York Times”. No dia 28, sábado, quem passa pelo palco do TA são o pianista Diego Schissi, representando uma geração de músicos da Argentina que promove releituras do tango, e Débora e Dani Gurgel Quarteto, exibindo seu mais recente trabalho, o álbum “Um”.

No dia 29, domingo, além de Gandelman, o FAJ apresenta o show de Luiz Bonilla, trombonista, compositor e arranjador costarriquenho radicado em Nova York, com seu versátil quinteto.

No encerramento, no dia 30, segunda, os shows ficam por conta do pianista e compositor sueco, Bo Stenson, e de Naná Vasconcelos. Atração mais aguardada do FAJ, o percussionista pernambucano reedita no palco sua inusitada parceria com o violoncelista Lui Coimbra.