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ENTREVISTA

‘Se o rock não se adaptar, vamos desaparecer’, afirma Tico Santa Cruz

Detonautas Roque Clube se prepara para lançar em outubro disco que celebra os 20 anos de estrada da banda 16/09/2017 às 20:26 - Atualizado em 17/09/2017 às 17:38
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Disco sai em outubro, mas alguns singles serão lançados aos poucos (Fabiano Santos/Divulgação)
Rosiel Mendonça Manaus (AM)

Uma banda de rock consciente do tempo em que vive e com disposição para transgredir seus próprios limites. Esse é o pensamento que marca o momento atual do Detonautas, que completa duas décadas de estrada neste ano. Nesse embalo, os dois singles que acabaram de ser lançados – “Nossos segredos” e “Dias assim” – são uma prévia do que será o próximo disco de inéditas do grupo, com lançamento previsto para outubro.

A reportagem conversou por telefone com o vocalista do Detonautas, Tico Santa Cruz, que adiantou algumas novidades e fez um balanço sobre os 20 anos de carreira da banda. “Nesse tempo, passamos por todas as possibilidades que alguém pode passar na cena do mainstream, desde a ascensão, com a assinatura do contrato com a gravadora, até a crise da indústria da música com a era digital, momento em que nos tornamos independentes e começamos a fazer nossos trabalhos por conta própria”, diz.

Entre os pontos altos dessa trajetória, Tico cita o fato de a banda ter percorrido todos os cantos do País, além de ter passado por países como Estados Unidos e Japão. Por outro lado, o momento mais traumático foi a perda do guitarrista Rodrigo Netto para a violência do Rio de Janeiro, em 2006. Agora, os integrantes enfrentam um novo desafio: um cenário musical em que o rock se encontra isolado no gosto popular.

O vocalista faz o seu diagnóstico sobre essa situação e diz que um dos objetivos do Detonautas é oxigenar a cena. “As classes mais baixas, que são importantes dentro dessa indústria, passaram a ser visualizadas como consumidoras, e outros gêneros foram ganhando força. É o caso do sertanejo e do funk pop, que são representações culturais legítimas, quanto a isso não tenho críticas. O problema é quando o monopólio dificulta outros gêneros, como o samba, a MPB, e o mercado fica na mão de dois estilos”, opina ele.

Misturas

Esse desafio se reflete no próximo álbum do Detonauatas, batizado de “VI”. “É um disco mais leve. Preferi fazer uma abordagem social e política mais afetiva, menos reativa”, afirma Tico Santa Cruz sobre as faixas, que incluem o bolero “Você vai lembrar de mim”, uma releitura de Hyldon em “Na sombra de uma árvore” e a regravação de “Aqui na Terra”, canção da primeira demo do grupo, de 1997.

“Tentamos criar uma atmosfera que representasse nosso estado de espírito na hora de compor. É como se quiséssemos encontrar nesse ambiente de conflito atual um refúgio de tranquilidade. Mas na hora de compor também pensei numa linguagem para acessar o grande público. Estamos entrando para disputar espaço com o pop sertanejo. Se o rock não se adaptar e se colocar como opção nesse cenário, vamos desaparecer”.

E para isso não acontecer, vale sair do convencional e apostar na mistura. Segundo o vocalista, foi assim que o bolero surgiu no novo disco. O Detonautas também não perde de vista as parcerias que gostaria de fazer daqui para frente – a mais recente foi com Leoni, em “Dias assim”, e há conversas em andamento com o Padre Fábio de Melo e a dupla sertaneja Simone e Simaria. Achou inusitado? Tico explica:

“Estamos flertando com outros personagens da música e da cultura, mas ainda não é nada oficial. Estamos abertos para procurar artistas de fora do nosso gênero, mas que possam se adaptar a uma linguagem que valorize o que procuramos fazer. É também um recado aos críticos puristas do rock: se não conseguirmos abrir o leque, a tendência é virar um gueto, e o Detonautas não cabe em guetos, não nascemos para isso”, finaliza ele.