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Toda nudez não será castigada: Pequena história do nu artístico

Conheças as principais formas de artes com artistas desnudos 01/04/2012 às 09:54
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Registro da performance artística exibida por alunos nos corredores da UFAM
JONY CLAY BORGES ---

Na manhã do último dia 21, um grupo de estudantes da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) apresentou uma performance artística num dos corredores do Campus, como parte da recepção aos calouros de Artes Plásticas. Nada de mais até aí. Mas o ato chamou atenção pelo fato de parte dos alunos se apresentar inteiramente desnuda, exceto por camadas de tinta guache, usadas no trabalho. A performance – sobre a qual o leitor pode saber mais na matéria abaixo – foi alvo de reportagem de um site local de notícias, que por sua vez foi repercutida em dezenas de compartilhamentos e comentários no Facebook. A maioria elogiava a iniciativa dos artistas ou a defendia, já que uns e outros faziam críticas ao ato, algumas levianas, outras ferozes. Repercussão à parte, o trabalho dos jovens artistas na Ufam apenas fez uso de uma ferramenta presente na arte quase desde os seus primórdios: o corpo nu.

Muito antes...
Exemplos não faltam na História da arte: das estátuas greco-romanas, passando pelo Renascimento – do qual o “David”, de Michelangelo, nesta página é um exemplo – às fotos de Spencer Tunick, que reúne multidões de pessoas nuas por todo o mundo. O nu artístico – em oposição ao erótico ou pornográfico – também tem exemplos por aqui. Bem antes do episódio na Ufam, já na década de 1970 artistas apareciam nus em peças como “A paixão de Ajuricaba” ou “Dessana, Dessana”, do Tesc. “Desde quando havia espetáculos havia nudez em Manaus”, diz Márcio Souza, diretor do grupo. Também as atrizes Paula Frassinetti e Isa Kokay protagonizaram cenas de nudez na peça “Promessas de Sol”, do Grupo Origem, em 1984. “Foi superbem aplaudido”, recorda o diretor Chico Cardoso. O nu nos palcos, ele recorda, nunca causou maiores constrangimentos: “Não lembro de momento algum em que a nudez tenha sido motivo de polêmica”.

Nudez e beleza
Nos últimos anos, várias outras peças desnudaram seus atores: “É proibido jogar lixo neste local”, da Cia. Zona Cultural; “22 lâminas”, de Jorge Bandeira e Coletivo Graúna; e “Ventos da morte”, da Cia. Arte & Fato, são alguns exemplos. Nesta última, a atriz Amanda Paiva exibe o corpo nu ao receber um banho de sangue. “A cena mostra que o corpo é tão belo como a própria arte”, elogia Cardoso. “Bem colocada e dirigida, a nudez não chega a ser polêmica ou chocar”, completa. Na fotografia, exemplo recente é a exposição “Tamoios e Porangas”, que exibe 27 velhinhas desnudas, clicadas por Chico Batata. Choque? Nada disso: a iniciativa recebeu elogios e até apareceu em reportagem de TV nacional.

No olhar de quem vê
“A arte não tem preceito moral ou ético”, diz Souza. Mas, a cabeça de quem vê pode ter, e por isso não é incomum que o nu artístico aqui e ali seja visto como afronta, e comparado com pornografia ou apelação. Para Cardoso, isso revela um puritanismo ultrapassado. “Vemos nudez na televisão, no cinema. Vemos gente quase desnuda nos forrós, esfregando o sexo no chão. E quando alguém se depara com nudez artística ainda se choca? É uma demagogia puritana. Fazia sentido nos anos 1970, mas hoje é ridículo”, critica. A atriz e apresentadora de TV, Norma Araújo, é da mesma opinião. Criticar o nu artístico em tempos de “BBB” e novela das oito, segundo ela, “é a famosa hipocrisia”. “A arte sempre é bela, impactante, faz pensar e provoca reações. Mas é bom ver reações inteligentes. Reações bobas, me poupe!”, saracoteia. Souza ainda concede: “O gostoso do proibido é ver aqueles que se escandalizam. A melhor parte são os puritanos: os outros não veem nada de mais na nudez, e eles não: eles veem algo ‘especial’”. O diretor recorda ainda que “os fundadores da Amazônia já andavam com muita pouca roupa”. Ou seja: o nu é um figurino que nunca vai sair de moda, seja aqui, na arte ou em qualquer lugar.