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Amazônidas: eles são a inspiração das toadas

--- 26/06/2012 às 11:45
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“Santa aclamada pelos beiradões / Nas tuas mãos o quebranto perde o encanto / Milagrosa mulher, milagrosa parteira /Milagrosa erveira da Amazônia (“Cabocla”), toada do Boi Caprichoso, dos autores Alder Oliveira e Marcos Lima.. Na foto, a parteira Évila da Silva Lima, 46.
Paulo André Nunes Parintins (AM)

Inspiração maior das toadas de boi-bumbá dos compositores de Garantido e Caprichoso, o dia a dia dos amazônidas forma o enredo mais do que perfeito para as tradicionais toadas - a música que embala a apresentação das associações folclóricas na arena do Bumbódromo.

E se no dia 29 e 30 deste mês, e 1º de julho a retratação desse cotidiano promete surpreender novamente, esse imaginário popular já povoa a mente dos amantes das letras de boi desde o início do ano, quando foram divulgadas essas composições. 

O fascinante é imaginar que, paralelo às lendas amazônicas como a Cobra Grande, Curupira, Boto, Mapinguari e outras, é o parintinense de “carne e osso” que é retratado  pelos talentosos compositores.

É o caso, por exemplo, da dona de casa Celina Fernandes, de 80 anos de idade e 73 só de Boi Garantido - aos 7 anos ela se apresentava na associação, no Curral antigo, com um vestido de talinha de crochê e , já há vários anos, é ritmista das palminhas da Batucada encarnada.

“Sou parintinense e é o maior prazer sair pela Batucada do Garantido. Sou do tempo do Lindolfo Monteverde, que criou o Garantido, e Euclides Ribeiro, o Porrotó (também ritmista, já-falecido, aos 84 anos, em 2008)”, declara a torcedora-símbolo, em plena lucidez e com uma disposição de dar inveja a qualquer brincante principiante.

O pescador é uma das figuras principais e constantemente enfocado nas toadas. Ainda pelos lados vermelhos da Baixa do São José, a letra de “O Caboclo e a Canoa”, dos compositores Demetrios Haidos e Geandro Pantoja e Naferson Cruz, desse ano, trata bem disso:  “Vou remando nas águas barrentas do rio, vou/Vou singrando a aurora de vento bravil/Eu e minha canoa, história de amor/Vou pescar esperança, seja onde for/Sou pescador, eu sou canoeiro/Enfrento sem medo o banzeiro/Vou tarrafear meu desafio”.

Do lado azul da Ilha Tupinambarana, a toada “Viva a Cultura Popular”, de Guto Kawakami, Geovane Bastos e Adriano Aguiar, traz bem a representação da raça negro: “Tem batuque de negro, é afro o rufar /Dos tambores da terra/É nativo, ameríndio, tribal, o som da floresta/É toada de boi, é caboclo, é azul esse amor caprichoso/Viva o som desse povo guerreiro ! /Viva a força do folclore brasileiro!”.

É comum, como toda música, que ela caia no gosto popular de “saída”, ou seja, vire hit dos bois logo no seu lançamento, como a própria “Viva a Cultura Popular”, que é cantada a plenos pulmões pelos torcedores do Caprichoso e que promete ser fundamental para a reconquista do título do Festival Folclórico de Parintins para o Diamante Negro, como é conhecida a associação folclórica (“Tem batuque de negro, é afro o rufar/Dos tambores da terra/É nativo , ameríndio , tribal , o som da floresta /É toada de boi , é caboclo , é azul esse amor caprichoso/Viva o som desse povo guerreiro!/Viva a força do folclore brasileiro!”.

No Garantido, uma das apostas é “Apaixonado Coração”, de Enéas Dias e Jéssica Jacaúna, que traz os versos “Então vem!Vem balançar com a galera encarnada!/Então vem! Deixa o cansaço pra depois, depois!/Então vem! Vem balançar com a galera encarnada”.

Garantido

Atual campeão do Festival, o Garantido tem um total de 22 toadas para este ano. São “Meu Coração é Garantido”, “Apaixonado Coração”, “Festa do Povo Vermelho”, “No País do Folclore”, “Sentimento da Galera”, “Sedutora das Águas”, “Auto do Boi”, “DNA Caboclo”, “Ameríndias”, “Naruna das Amazonas”, “Apocalypto Yanomami”, “Pajé”, “Eterno Trovador” , “O Caboclo e a Canoa”, “Tucandeira”, “O Grande Ritual”, “Romeiro da Fé”, “Amor Vermelho”, “Seiva”, “Arãtareimo”, “Kaiapó Xikrin”, “Mas quando já?” e “Avermelhou”.

Já as 20 toadas deste ano do Boi Caprichoso são “Viva a Cultura Popular”, “Balanço Popular”, “Superação Caprichoso”, “Azul do Meu Brasil”, “Sensibilidade”, “Rufar do Tambor”, “A Mística Xinguana”, “Sabedoria Ancestral”, “Virgem do Carmelo”, “Garra de Marujeiro”, “Universo de Amor”, “Morceganjo”, “Mai Marakã”, “Farinhada”, “Filhos da Mundurukania”, “Ritual Tariana”, “Paikisés Munduruku”, “Cabocla”, “Folguedo Caprichoso” e “Aplica Petché”.

Indígena

A temática indígena é forte nas composições. Que o diga o dançarino e artista plástico Adriano Jorge Simas, o Adriano Paquetá. Descendente de sateré-mawé, ele é de Maués. “Atuei na representação do ritual kuarup ano passado. Na arena a emoção é forte e procuramos preservar elementos importantes como a dança tribal”, explica ele. Paquetá não revelou em qual noite vai se apresentar como destaque nas encenações tribais do Garantido. No entanto, ele “cairia” bem se a representação for baseada na toada “Apocalypse Yanomami”, de Rafael Marupiara e Ronaldo Jr.).

Vaqueirada

Com a “mão na massa”, os ex-vaqueiros Raimundo Jorge Carneiro Monteverde, 50, o “Pidoca”, e Raimundo José Carneiro Monteverde, netos do fundador do Garantido, Lindolfo Monteverde, se sentem contentes em serem retratados nas toadas. Hoje, eles são dois dos responsáveis por criar os cavalinhos, também chamados de “burrinhas”, que serão conduzidos pelos tradicionais vaqueiros, um dos setores mais importantes das associações folclóricas. “Ouvir uma toada que trate da vaqueirada sempre nos emociona. Tudo isso que fazemos é fruto de uma dedicação ao Boi Garantido”, disse “Pidoca”.

Parteira

Filha da parteira já-falecida Helena Godin, a dona de casa Évila da Silva Lima, 46, seguiu os passos da mãe. E vez por outra essa “atividade “ amazônida está nas toadas. “Já salvei a vida de algumas mulheres “endireitando” crianças dentro da barriga delas. Mas tudo depende de analisar cada situação para preservar a saúde da grávida”, comentou ela.

Farinheiros

Raimundo Bentes da Silva, 77, o Mundico Lauriano, e sua esposa, Odete Oliveira da Silva, até hoje cultivam o forno à lenha que já fez milhares de toneladas de farinha. Hoje, restam boas lembranças. “Também fui pescador de arpão. Hoje, resta a saudade”.