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Cheia do século: Atenção máxima a qualquer alerta

Planejamento > Aviso de seca ou cheia deve ser considerado por gestores públicos 05/06/2012 às 14:42
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Crianças conduzem canoas para se locomoverem na cheia
Jornal A Crítica Manaus (AM)

Uma lição deve ser incorporada à mentalidade e ao planejamento do gestor público: é necessário levar mais a sério os avisos dos cientistas. E não precisa ser uma cheia (ou seca, se for o caso) recorde, como observa Marco Antônio de Oliveira, superintendente do Serviço Geológico do Brasil (CPRM).

Oliveira diz que três meses antes do pico da cheia é um período suficiente para que governo e prefeitura planejem e comecem a executar as ações de emergência às populações afetadas. Em 2012, no final de março, a CPRM fez sua primeira divulgação oficial. O alerta já avisava que a cheia deste ano seria uma das maiores em mais de 100 anos.

“Se vai ser cheia recorde ou não, se vai bater os 30 metros, isso não é importante. Quando se anuncia que será grande, superior a 29 metros, não é para ficar parado. Desde aquela época já era para estar se comprando madeira, por exemplo. Mas isso não ocorreu. Aconteceu somente quando realmente a água chegou”, analisou.

O físico da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Painel do Clima da ONU, Paulo Artaxo, diz que a região Amazônica deve se preparar mais adequadamente para enfrentar as alterações climáticas.

“Fenômenos climáticos extremos sempre existiram. O que estamos observando é o aumento destas frequências. Por isso é fundamental que a sociedade se instrumentalize meses antes de a água chegar nas moradias, em espaços públicos como hospitais, ou em uma área densamente povoada”, observou. Ele diz ser necessário que a Defesa Civil se estruture para garantir ações preventivas que incluem deslocamento de populações de áreas vulneráveis e um planejamento a longo prazo.

Cientista aconselha planejar

Jochen Schongart, coordenador de pesquisas em regimes hidrológicos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Instituto Max Planck, lembra que na primeira quinzena de março já se havia feito alerta de que a cheia de 2012 seria uma das mais severas do século, variando entre 29,29 e 30,05 metros. Ele também concorda que a partir desde período é possível sim planejar as ações.

“Cheias acima de 29 metros sempre são severas, causam prejuízos nas zonas urbanas e nas áreas rurais. Todo mundo sabe que o bairro da Glória fica inundado quando o rio alcança 29 metros. O dinheiro que você gasta para fazer prevenções é menos do que você tem para arrumar os prejuízos causados. Você gasta menos em planejar e tomar providências do que correr atrás do prejuízo”, comenta.

Segundo Schongart, os atuais modelos de previsão da magnitude da cheia permitem que as análises comecem a ser feitas a partir de fevereiro, para que sejam divulgadas no início de março. Antes disso, os riscos de se cometer equívocos são elevados. “No início de março de o nível do rio Negro estava em 23,50 metros. Para chegar a 29 faltavam cinco metros. Então, de março a junho é um bom período para que se aproveite e planeje.”

Redes de esgotos inundadas, ruas alagadas, interdição de vias, retirada de circulação de transportes, tráfego de veículos alterado, fechamento de comércios e de serviços. Este foi o efeito dominó causado não pela cheia, mas pela ausência de infraestrutura adequada para enfrentar o fenômeno hidrológico.

Estímulo à economia é fundamental

Para que o produtor rural, principalmente de área de várzea, não sofra tanto os impactos das cheias e vazantes dos rios da região, o Estado precisa ser indutor de um desenvolvimento regional que “estimule a demanda agregada, fortaleça a economia local e o aproveitamento das potencialidades regionais”, segundo o economista e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Sylvio Puga. Isso passa por implementação de políticas públicas amplamente discutidas com os envolvidos, por treinamento e uso de tecnologias.

Para Alexandre Rivas, engenheiro de pesca e professor da Ufam, o aproveitamento dos recursos naturais da Amazônia, que são economicamente viáveis e ambientalmente saudáveis, com raras exceções, não tem movimento técnico e político adequado.

Rivas destaca que essa mudança de cenário no Estado passa por pelo menos três aspectos importantes: “Em primeiro lugar, uma visão estadista dos nossos governantes. Em segundo lugar, um planejamento de Estado para enfrentar sistematicamente todas as adversidades inerentes e, por último, maior competência e objetividade técnica em ações e decisões.

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas (Faea), o pecuarista Muni Lourenço, destaca que experiências do Estado provam que não é mais uma verdade o tabu que se criou que no Amazonas a agricultura e a pecuária não são viáveis. “Temos exemplos de segmentos das atividades agropecuárias que se desenvolvem satisfatoriamente no Amazonas”.

Investimento ajuda a evitar alagação

Manaus tem condições de enfrentar uma próxima grande cheia sem sofrer os impactos e os transtornos?

Para alguns especialistas sim. Marco Antônio de Oliveira acredita que nas áreas afetadas do Centro de Manaus pode-se redimensionar a rede de esgoto. “O que acontece no Centro não é água do rio Negro, é o esgoto que não consegue sair. O rio entra pelas galerias, que fica com águas pluviais e esgoto”, diz.

Obras paliativas e emergenciais, com retiradas de pessoas em cima da hora, são apenas soluções imediatistas que não resolvem um problema histórico. A avaliação é do urbanista Jaime Kuck, para quem está na hora de começar a se pensar em tecnologias de bombeamentos, adequações de redes de drenagens de Manaus.

“Vai demandar um trabalho muito complexo e investimentos. Recursos há, basta vontade política. Infelizmente, nossos gestores preferem investir em obras de grande porte que dão visibilidade a seus governos transitórios, algumas até de menor prioridade, e que servem apenas para marcar sua gestão. Está faltando política de Estado, que transcende uma gestão. Em 2009 o mesmo problema aconteceu e não foi disponibilizado um centavo para obras de prevenção. Não foi feito nenhum investimento na área tecnológica para enfrentar eventuais novas cheias”, comenta Kuck.

Segundo o urbanista Jaime Kuck, nada foi feito a não ser continuar com antigos programas de “saneamento” da paisagem social de áreas centrais de alta visibilidade para esconder o pobre e vender a ideia de uma cidade competitiva.

Planejamento de ações

O período de três meses antes do pico da cheia, que ocorre normalmente em maio ou junho, é considerado por especialistas tempo suficiente para que o poder público planeje as ações de atendimento às populações atingidas.