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Cheia do século: Cidades em busca de soluções

Alternativas > Regime hidrológico alterado requer novas abordagens urbanas 05/06/2012 às 13:48
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Prefeitura de Anamã busca alternativas para evitar as constantes alagações que se repetem ano após ano. Expansão para áreas mais altas é opção
Jornal A Crítica Manaus (AM)

Situadas às margens dos rios amazônicos, quase todas as cidades amazonenses sofrem com as consequências de cheias como a de 2012. Diante do agravamento dos eventos climáticos extremos, algumas cidades já começam a pensar em alternativas para que os prejuízos, no futuro, possam ser menores.

Anamã (a 165 quilômetros de Manaus) virou destaque na mídia nacional após ter praticamente toda sua extensão urbana inundada pelas águas do rio Solimões. Agora, a cidade busca soluções.

A primeira medida que deverá ser tomada virá em forma de decreto. Trata-se de uma medida que a prefeitura estuda para proibir a expansão da cidade em áreas sujeitas a inundações. “Queremos impedir que a cidade cresça”, disse Gercimar Pinheiro, prefeito de Anamã. O decreto ainda está em fase de redação e deverá ser publicado no segundo semestre.

Outra opção seria a transferência da sede do município para uma outra área ou a expansão da área urbana de Anamã. Em princípio, o que se planeja é apenas a transferência de prédios públicos como bancos, prefeitura, hospital e escolas, para uma área mais alta a três quilômetros da atual sede de Anamã.

A proposta, porém, mesmo diante dos estragos causados pela cheia, não é unanimidade. “Sempre que se fala em transferência, isso causa um impacto muito grande na mente das pessoas. Anamã está muito limitada para essa questão de crescimento. Temos 300 casas que são afetadas todos os anos, independente da grandeza da cheia”, disse ele.

Ciente dos efeitos negativos que a medida poderá tomar, Gercimar é cauteloso. “Somos caboclos do interior e convivemos com essa situação. Muitos estão acostumados e são resistentes a sair da área. Por isso que é preciso buscar uma solução de forma tranquila. Mostrar o que é viável”, relata Pinheiro, que tem 33 anos de idade e nasceu no então distrito de Anamã.

Visão futurista

O que Anamã está pensando em fazer agora, Boca do Acre fez na década de 70. Após seguidas alagações, o prefeito da época conseguiu um financiamento junto ao Governo Federal que bancou a transferência da sede administrativa do município para a área hoje conhecida como Platô do Piquiá, distante seis quilômetros do que antes era conhecido como o centro de Boca do Acre.

O Platô do Piquiá tem ruas largas, com acostamento, calçada e canteiros arborizados. É lá que estão a prefeitura, as secretarias municipais, demais órgãos estaduais e os bancos. O problema é que nem mesmo toda essa nova estrutura foi suficiente para atrair o grosso da população de Boca do Acre para a nova sede. Dos 30.632 habitantes do município, estima-se que dois terços ainda vivam na antiga sede. “A população do município ainda é muito ligada à cultura e à economia do rio. Tudo está voltado para o rio. Por isso muita gente ainda vive lá”, afirma o historiador Aguimar Noronha, que vive em Boca do Acre.

As cheias de 1997 e de 2012 mostraram que a ideia de transferir a sede do município para uma área mais alta foi acertada. Enquanto parte do município estava debaixo d’água, a estrutura administrativa necessária à atenção às vítimas das cheias se manteve praticamente intacta. Entretanto, quase 40 anos depois da inauguração do Platô do Piquiá a área não está mais “disponível” para a população ribeirinha de Boca do Acre. A especulação imobiliária levou os preços dos lotes na área a níveis praticamente proibitivos para os padrões amazônicos. Sem alternativa, os ribeirinhos que fogem da cheia avançam sobre áreas ainda preservadas, mas também sujeitas a inundações. “Não é fácil encontrar um lote barato no Piquiá. Mesmo que o caboclo queira se mudar, vai ficar difícil”, completa Aguimar Noronha.

Orçamento inviabiliza

Casas populares em São Paulo de Olivença para abrigar vítimas das terras-caídas.


Em São Paulo de Olivença (a 988 quilômetros de Manaus), cuja orla está condenada pela Defesa Civil há quase dois anos, novas alternativas estão sendo buscadas, mas esbarram no pequeno orçamento do município e do Estado. “Nós sabemos que temos que transferir mais de 300 famílias da orla para uma área mais segura, mas até agora não sabemos como vamos fazer isso. Nosso orçamento é pequeno e não encontramos resposta junto ao Governo do Estado. Até agora, tudo o que temos é a construção de 150 casas populares em um terreno que nós doamos, mas a demanda por essas casas é bem maior”, afirma o prefeito de São Paulo de Olivença, Raimundo Nonato Souza Martins (PSD).

De acordo com a secretária Estadual de Infraestrutura, Waldívia Alencar, a necessidade de transferir os moradores da orla de São Paulo de Olivença para uma área mais segura é conhecida há algum tempo, entretanto os cofres públicos do Estado ainda não estariam preparados para bancar uma empreitada desse porte. “Nossos recursos são limitados. Uma transferência desse nível implicaria em muito dinheiro. O que estamos fazendo é tentar obter recursos junto ao Governo Federal, mas ele tem demandas do Brasil inteiro. Fica difícil conseguir isso em curto prazo”, explica Waldívia Alencar.