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Cheia faz comunidade se mudar para balsa-abrigo no interior do Amazonas

Famílias da comunidade do Marimba vivem em cima de balsa, onde tudo é dividido 05/06/2012 às 09:09
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Para amenizar o calor, famílias tentam refrescar chão da balsa onde estão erguidas dezenas de barracas que servem de moradia a desabrigados
Jornal A Crítica Manaus (AM)

Os desafios da população do Amazonas que mora às margens dos rios e enfrenta uma cheia histórica ultrapassaram os improvisos dentro de casa. As marombas não foram mais suficientes para que os ribeirinhos do Município de Careiro da Várzea (a 25 quilômetros de Manaus) conseguissem conviver com a enchente. Dezenas de famílias da  comunidade do Marimba esperam as águas do rio Solimões baixar seguindo com o cotidiano em cima de uma balsa, dentro de barracas e sob o sol forte da Amazônia.

Na balsa-abrigo da comunidade do Marimba estão abrigadas 20 famílias vencidas pela subida das águas e que, pela primeira vez, tiveram que abandonar as casas alagadas. “Não esperávamos que subiria tanto. Em 2009 foi uma grande cheia, mas conseguimos permanecer em casa, sobre as marombas. Neste ano, as águas estão acima do nível da janela da minha casa”, relata a moradora Ocirene de Oliveira, 36.

Algumas mudanças, acompanhadas por A CRÍTICA, foram necessárias para que as vítimas desta enchente pudessem se adaptar ao modo de vida provisório: elas dividem o pouco espaço da cozinha improvisada na hora das refeições, os dois banheiros químicos e a água apanhada do rio e armazenada numa caixa d’água para tomar banho e cozinhar. Mas um dos desafios mais difíceis é suportar o calor de mais de 35º durante o dia. “É estressante ficar nesse calor extremo, mas não temos outra opção. Precisamos que suportar por necessidade. Nossas casas estão alagadas”, conta Daniel Nascimento, 14.

Pela parte da manhã  é preciso resfriar o chão da balsa com a água do rio, pois o forte sol na estrutura de ferro provoca uma sensação térmica no corpo humano de 40º. Na cozinha, quatro fogões são usados de maneira coletiva. Também são quatro geladeiras compartilhadas entre as famílias para conservar alimentos, como peixes, e armazenar a água tratada com hipoclorito de sódio, usada para beber e cozinhar. Compartilham, ainda, a mesa para as refeições e, quando não, é necessário comer sentados no chão das barracas.

Calor Extremo

O calor amazônico também impera dentro dessas moradias, mas sem terem para onde ir, os ribeirinhos buscam driblar o problema às suas maneiras. “De manhã a gente levanta a lona das barracas para que o vento refresque por dentro delas”, explica dona Maria de Lima, 56. Somente à noite, o clima na balsa-abrigo fica mais agradável e suportável.

Saudade das brincadeiras

Na balsa-abrigo do Marimba, os sorrisos das crianças chamam a atenção de quem está ali de passagem. Muitas ainda desconhecem que a vida delas depende do ciclo das águas. Para se divertir, também tiveram que adaptar as brincadeiras em meio a um espaço limitado.

Ao invés do jogo de futebol, o passatempo chama-se “jogo de saco”. O risco de vários sacos de alimentos como macarrão, arroz e bolachas - enrolados e amarrados - caírem no rio com os dribles no jogo é bem menor se comparado ao de uma bola. “Sentimos falta de jogar futebol no campo. E dá para brincar assim mesmo”, lamentou Josiel, 9. “Quero que o rio comece a descer logo pra voltar pra casa e brincar de bola”, contou o pequeno Denilson, 7.

Numa paisagem tomada pelas águas, os sorrisos dos pequenos ribeirinhos também carregam a ansiedade pela visita de pessoas dispostas a ajudá-los. Além de alimentos não perecíveis, roupas e sapatos também são doados e fazem a alegria das crianças que tem somente um desejo: voltar para casa.

Personagem - Allan Kardec Morador do Marimba

Morador há 56 anos do Marimba, seu Allan nunca tinha visto uma cheia como esta na comunidade. Ele lamenta pelos prejuízos e critica a falta de ação do poder público para evitá-los. “Essa é a primeira enchente em que tive que sair de casa. Infelizmente, por muitas vezes as autoridades só lembram das pessoas que moram nessas comunidades quando o desastre já aconteceu. Ou prometem soluções em época de candidatura. Esperamos ações que sejam realizadas durante o mandato e que possam evitar esses transtornos. Estamos agradecidos por essa ajuda do Governo (do Estado), mas ainda é preciso repensar soluções para o período de cheia em nossa região.”

Segundo ele, a cheia na comunidade do Marimba surpreendeu os moradores. “Geralmente o rio sobe acelerado aqui somente durante o mês de maio. Mas este ano a subida das águas se antecipou e foi longa. Esperamos que até meados de julho possamos voltar para as nossas casas e nos prepararmos para a próxima.”