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Crise econômica mundial vai prejudicar a Rio+20, em junho

Para o ex-ministro da França, Dominique de Villepin, os países participantes da conferência não devem assumir compromissos ou metas por causa da crise financeira que vivem 23/03/2012 às 13:07
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Dominique de Villepin
Monica Prestes Manaus

Na Conferência Rio+20, que acontece em junho deste ano, no Rio de Janeiro, os países participantes não vão assumir compromissos formais ou metas para os próximos anos. Foi o que afirmou o ex-primeiro ministro da França, Dominique de Villepin, durante entrevista coletiva concedida na manhã desta sexta-feira, durante o 3º Fórum Mundial de Sustentabilidade, que acontece em Manaus, até o próximo sábado.

Para Villepin, a crise econômica mundial que os países enfrentam atualmente deve dificultar as negociações e acordos durante a conferência e impedir o estabelecimento de metas ou compromissos comuns aos governantes. "É muito difícil lidar com essa crise, e mais ainda sob o ponto de vista da sustentabilidade", declarou.

De acordo com o ex-primeiro ministro francês, apesar de a sustentabilidade e a economia verde pautarem as grandes conferências ambientais no mundo, a maior dificuldade encontrada pelos países é conciliar as metas de sustentabilidade e as medidas políticas tomadas para conter o avanço da crise mundial.

"Esta é uma crise de longo prazo, mas os objetivos de muitos líderes mundiais, hoje, estão voltados para respostas de curto prazo, onde não se encaixa a economia sustentável. Só que o meio ambiente não se resume a um país, ele reflete sobre o mundo inteiro", disse.

Imediatistas

Para Villepin, que elogiou a forma como o Brasil vem  conduzindo a temática da sustentabilidade, é preciso que alguns países tomem a frente nos debates tanto ao tratar de questões imediatistas - como o fim do desmatamento - quanto sobre problemas que demandam medidas imediatas, mas só devem apresentar resultados a longo prazo. 

De acordo com Villepin, os países com uma visão imediatista geram uma concorrência entre governos que defendem o crescimento pautados em respostas imediatas e aqueles que defendem resultados a longo prazo, mas definitivos.

"Hoje temos a liderança de vários países, mas todos enfrentam grandes dificuldades financeiras. Daí a nossa dificuldade em conseguir resultados positivos nas conferências como a de Copenhagen e outras que vieram depois", analisou. 

Segundo ele, é fundamental acompanhar de perto o que acontece em dois grupos de países. Um deles é liderado pelos Estados Unidos e pela China, que estão entre as três maiores economias mundiais e ainda tendem a ver a sustentabilidade como um entrave ao desenvolvimento. O outro, encabeçado por França e Alemanha, acredita que o desenvolvimento sustentável pode fomentar a economia e, por isso, investem em práticas de gestão sustentável.

"Nessa lista eu acrescento ainda o Brasil, porque vocês compreendem o que está acontecendo no mundo e aqui na Amazônia, entendem a impotância das mudanças climáticas e da sustentabilidade e como tudo isso reflete sobre o resto do mundo."

Pressão

A relação entre interesses econômicos e políticos e a sustentabilidade pode ser pautada pelo povo. Assim Villepin destaca o papel e o poder que têm os eleitores para pautar as políticas ambientais de governo, especialmente em ano eleitoral.

"O povo deve exercer uma pressão sobre os líderes, através do voto, cobrando que a sustentabilidade esteja no centro dos debates", disse.

Em ano de eleições municipais no Brasil, o recado vai muito além dos ambientes do hotel Tropical, onde acontece o Fórum, ou mesmo de Manaus. "Isso é uma tendência que deve se tornar regra no mundo todo."

Rio+20

Apesar de descrente com o estabelecimento de metas ou compromissos entre os países que participarem da conferência Rio+20, em junho, por conta da crise financeira mundial, Villepin se mostrou otimista com relação aos debates que devem ser levantados durante o evento, no Rio de Janeiro.

"Não podemos focar apenas em assumir metas comuns, temos que pensar no debate pelo debate. Devemos procurar estabelecer organizações em diferentes áreas e frentes. A Rio+20 é importante porque um fracasso na conferência pode significar a perda do impulso que já temos após dez anos de negociações. E o Brasil, como líder da Rio+20, tem um papel fundamental nesse processo", explicou.

PIB

Villepin defendeu a adoção de um novo índice econômico que incorpore a sustentabilidade, em substituição ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Para ele, além das práticas sustentáveis, esse novo índice econônico deve incluir, também, o aspecto social e a própria felicidade das pessoas.

"Isso seria concretizado em uma economia verde, que também se preocuparia com a vida das pessoas, além dos índices econômicos. Temos que mudar nossa relação com o meio ambiente. A humanidade pode pagar caro se não agir agora", alertou.

Energia limpa 

Com 75% das fontes de energia originárias de usinas nucleares, a França vive hoje um dilema entre críticas de duas linhas de pensamento que "imperam"no país. Uma delas defende a manutenção da energia nuclear como base da matriz energética como a garantia da independência francesa. A outra propõe a redução de 75% para 50% da matriz energética baseada na energia nuclear.

"Quando era primeiro-ministro, incentivei o uso da energia solar. Mas demanda investimentos a longo prazo", relatou.

A Alemanha é outro país que está tentando reduzir a zero o uso da energia nuclear, o que implica em uma nova economia verde, também a longo prazo. "Trabalhar com energia com fontes renováveis será um desafio."

Terrorismo

Durante a coletiva no 3º Fórum Mundial de Sustentabilidade, Villepin também falou sobre terrorismo e atos como o assassinato de alunos e um professor em Toulouse por um grupo terrorista, que abalou a França. Para o ex-primeiro ministro francês, as organizações terroristas têm atuado, cada vez mais, de forma nebulosa.

A "chave" para combater o terrorismo internacional, segundo Villepin, é a cooperação entre os países. "Até mesmo na Inteligência, compartilhando todas as informações que possam desencadear atos terroristas, até mesmo as sigilosas, com outros países. A outra forma de combatermos o terrorismo é combater suas fontes financeiras", analisou.

Eleições

Apesar da vantagem do candidato socialista nas eleiçoes deste ano na França, apontada pelas pesquisas, Villepin acredita que é difícil fazer previsões sobre o resultado do pleito. Segundo ele, as questões sociais com que ele tem se envolvido o afastaram da corrida eleitoral.

"Essa situação (da vantagem ao candidato socialista, opositor ao candidato apoiado por Villepin), é normal. No meio da crise, a tendência do povo é procurar uma nova fórmula. Mas temos tido uma boa reação à crise. Além disso, alguns candidatos ainda não explicaram claramente suas propostas de campanha", analisou.