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Desabafo da madrinha do boi Garantido

Símbolo do Garantido, e mãe do ex-apresentador Paulinho Faria, ela abre seu coração e fala da tristeza em deixar seu boi após desentendimentos com a atual diretoria da associação folclórica da baixa do São José 25/06/2012 às 12:46
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Coração que chora agora em verde e branco
Paulo André Nunes Parintins (AM)

Madrinha do Boi Garantido e espécie de embaixadora das cores da associação folclórica em Parintins, no Brasil e no mundo, a paraense Maria Ângela Albuquerque Faria, 89, deu uma reviravolta forçada em sua vida. Após obter um não a um pedido de uma vaga no camarote do Bumbódromo, ela, um dos símbolos do “Boi do Povão” e divulgadora das cores vermelha e branca, revoltou-se contra a atual diretoria do boi e decidiu pintar sua casa, que era ponto turístico internacional por ter a predominância nas cores vermelha e branca, para atuais verde e branco. Em sua casa em Parintins, Maria Ângela tinha uma piscina na cor  vermelha, a qual ela não enchia de água para não lembrar do azul, cor do Caprichoso.

O local é um dos mais famosos pontos turísticos de Parintins, sendo constantemente visitado por populares, artistas, celebridades, prefeitos e governadores. Maria Ângela Albuquerque Faria falou com exclusividade ao caderno especial de Parintins sobre sua tristeza em deixar o Boi Garantido, do crime cometido contra seu filho, Omar Albuquerque (em setembro do ano passado), de problemas de saúde e de outros assuntos.


O que a fez pintar a sua casa de verde e branco e abrir mão do vermelho e branco?

Estou muito magoada e decepcionada com a falta de amor e consideração da direção do Garantido comigo. Não foi com o boi, e sim com a direção. A retirada do vermelho das paredes exterior e interiores, e da piscina, começou há cerca de cinco meses, e ainda não está completa. E dentro já pintamos algumas partes de rosa. 

Qual foi a gota d’água para essa decisão?

Ano passado eu não estava bem de saúde, e pedi um camarote da presidência do Garantido para o Festival de Parintins, visando meus netos e filhos que estavam vindo de Belém. Eu recebi um não, e me disseram que quem quisesse camarote teria que comprar, o que me deixou bastante revoltada. O problema não é com o Boi Garantido, mas sim com a diretoria da associação folclórica.

Estou magoada com a direção e os dirigentes pela falta de consideração conosco. Nas vezes que eu pedi algo, nunca ajudaram nem a mim e nem ao meu filho Paulo (Paulinho Faria). No enterro do meu filho Omar, por exemplo, só compareceram membros do Caprichoso, e nenhum do Garantido. Vou fazer 90 anos no dia 12 de janeiro do próximo ano e estou cansada disso tudo. O boi nunca me ajudou em nada, nem me deu valor, tampouco a prefeitura de Parintins. Ano passado, quando fiz 88 anos, eu enfeitei e arrumei minha casa, mas do boi não apareceu ninguém, nem presidente, nem diretor. Nunca me deram valor. Tive nove filhos. Seis ainda estão vivos. Todos os meus filhos trabalharam no boi. Hoje, de familiares, apenas a minha filha Graça (de Albuquerque Faria) e o Vandir  (Faria).

Depois disso houve um momento muito trágico na sua vida, que foi o assassinato do seu filho Omar Albuquerque Faria. O boi lhe deu apoio?

Infelizmente, não. Ele morreu em setembro do ano passado assassinado com 27 facadas em sua casa. O enterro não teve a presença de ninguém do Garantido. Ninguém. Mas membros do Caprichoso foram prestar a última homenagem a ele. E o homicídio continua sem solução.

Como Madrinha do Boi, a senhora ajudou a massificar essa identificação com as cores vermelha e branca.

Fui eu quem destaquei, para artistas como o Jair Mendes (hoje um dos artistas de ponta do Boi Caprichoso, e responsável por dar movimentos às alegorias, ainda na época de Boi Garantido) a importância de que o coração do boi deveria ser  vermelho, e não preto, como era retratado anteriormente. Também fui responsável por ressaltar que a bata do boi-bumbá Garantido é vermelha. E ficou desse jeito. E eu pintava minhas botijas de gás, de casa, de vermelho. Isso acabou chamando a atenção até de distribuidores de gás que passaram a revender as botijas também em vermelho justamente por  minha causa. 

Como está a sua saúde atualmente?

Há alguns anos fui ao médico do coração e ele disse que eu não estava bem, e que eu não viveria muito. Mas felizmente estou aqui, vivinha da silva, sem qualquer problema. Se  estivesse com algum problema, como esses fatos lamentáveis que estão ocorrendo na minha vida, eu nem estaria mais aqui. Mas, atualmente, venho convivendo com dores na perna esquerda e tenho dificuldades na visão e não escuto bem. Mas estou vivendo. 

A senhora é devota de algum santo?

Sou de Belém, e devota de Nossa Senhora de Nazaré.

E seu filho Paulinho Faria? Ele também enfrenta as mesmas dificuldades que a senhora?

Infelizmente, sim. Ele tentou assistir ao festival há alguns anos, mas ficou decepcionado porque, após apresentar o evento por 26 anos, lhe disseram que teria que pagar entrada para ir ao Bumbódromno. Tudo isso é uma falta de consideração que dói no coração da gente. Eu vou morrer com essa dor  no meu coração de nunca ter assistido ao Garantido em um camarote. No ano da inauguração do Bumbódromo, chegaram a me dar um cadeira. Eu pensei que seria um lugar bom. Fui sozinha, mas, como tenho idade avançada, foi muito dificultoso assistir ao festival em um lugar daquele e tive que sair.

Já esqueceu totalmente o Boi Garantido?

Ainda não esqueci totalmente. Isso está acontecendo aos poucos, pois foram várias lembranças do passado. Me desfiz de várias roupas, fotos e de quase tudo que lembrasse o vermelho do Garantido. A velha guarda é esquecida pelos dois bois,  infelizmente.

Alguém do Caprichoso já lhe convidou para ser “azul”?

Já. A própria Márcia Baranda já me convidou a ir para o Caprichoso. E outras pessoas também. Mas eu nunca quis ir.

A senhora pensa em retornar para a cidade de Belém algum dia? Reencontrar com familiares, etc...

Sim. Tenho familiares que constantemente me convidam para ir morar em definitivo em Belém, que é a minha terra natal. Mas ainda não decidi isso. Quem sabe um dia.