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Especialista de Copa do Mundo alerta que Arena em Manaus ficará obsoleta

Consultor da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE) sobre o tema Copa do Mundo. 08/04/2012 às 22:00
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Artur Araújo garante que a maioria dos estádios para a Copa de 2014 cumprirá seus cronogramas.
Leandro Prazeres Manaus

A pouco mais de dois anos para o início da Copa de 2014, a maior parte das obras previstas para estarem prontas para a competição ainda engatinham. Boa parte delas, ainda está no papel. Órgãos como o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) já deram o alerta de que boa parte das obras não estará pronta em julho de 2014. Até o secretário-geral da Fifa, Jeróme Valcke, já disse que o Brasil precisa de um “chute no traseiro”. Remando contra todas as críticas, Artur Araújo, consultor especialista em Copas do Mundo da Federação Nacional dos Engenheiros é só otimismo. Em entrevista concedida à reportagem de A CRÍTICA, ele diz que se criou uma ideia equivocada sobre a preparação do Brasil para a Copa, que faremos um evento melhor que o da África do Sul e sem deixar nada a desejar para os realizados na Europa e na Ásia. Será?

AC - Com praticamente todas as obras previstas para a Copa de 2014 atrasadas, os governos locais já falam em decretar feriado nos dias de jogos. O Brasil abriu mão do chamado legado da Copa?

Artur Araújo - Em primeiro lugar essa história de que as obras estão atrasadas não é um fato. Isso não é verdade. A grande maioria dos estádios cumprirá seus cronogramas, assim como os aeroportos, os projetos de comunicações e de Segurança Pública. O que há são dúvidas em algumas cidades em torno das obras de mobilidade urbana. Se criou uma ideia que não é verdadeira. Se você vai ao concreto dos fatos, verá que as obras não estão todas atrasadas.   

AC - Mas o Ipea (Instituto de Pesquisas Econômica Aplicada) divulgou recentemente um estudo afirmando que, por exemplo, os aeroportos, em sua grande maioria, não estarão prontos até a Copa de 2014...

Artur Araújo - Esse estudo do Ipea é absolutamente questionável. O problema é que o assunto deixou de ser técnico e virou opinião. Na nossa opinião, a única área que exige cuidados porque houve atrasos na definição da alternativa adotada, é a questão de mobilidade. Vários municípios atrasaram a definição... se seria veículo leve sobre trilhos, BRT, metrô. Naquilo que é de conjunto do país, vamos cumprir: estádio, aeroportos, comunicações e Segurança Pública. 

AC - Então, na avaliação da Federação Nacional dos Engenheiros, as obras de mobilidade urbana não são prioridade?

Artur Araújo - Veja bem. Fundamental para uma copa do mundo é estádio. Porque sem estádio não tem Copa. Sem aeroporto, as pessoas não chegam nem vão embora.. Sem segurança, você pode ter crise séria. A mobilidade urbana é um caso que muito menos que a necessidade em si para a copa, ela seria um dos bons legados que o evento poderia deixar. A verdade é a seguinte: você consegue resolver o problema de mobilidade urbana durante os jogos. As cidades brasileiras sabem o que fazer em dia de jogo. Em nenhuma cidade haverá um estádio que exceda enormemente o fluxo de pessoas em uma determinada área. É claro que poderíamos ter um nível maior de conforto e é aí que poderíamos ter o legado. Os gestores poderiam usar o momento da copa e criar um clima propício às grandes obras. Porque obra de mobilidade urbana só é boa depois que ela está pronta. Durante os anos em que ela está sendo feita, as cidades viram um inferno. Dentro dessa perspectiva, as obras de mobilidade urbana não nos preocupam.


AC - Então, é possível que o Brasil acabe sem esse legado?

Artur Araújo - Eu não diria que não vamos ter. Vamos ter, mas pode vir numa dimensão inferior à que se esperava e que se podia ter. Veja o caso de Barcelona e Atlanta, onde houve Olimpíadas. Elas mudaram a forma como as pessoas se deslocavam por conta do evento. Se nós não nos mobilizarmos, vamos perder uma oportunidade importante para as nossas cidades.

AC - Mas faltando tão pouco tempo para a realização da Copa do Mundo, ainda dá tempo?

Artur Araújo - Sim. O principio básico do cronograma de qualquer obra  é a função entre dinheiro e vontade de realizar. Qualquer dos projetos que estão em discussão tem condição de execução. Quanto mais você se aproxima do prazo, vai sair mais caro, obviamente. Se tivéssemos feito antes, provavelmente, sairia mais barato, mas ainda não chegamos a um ponto crítico em nenhum projeto.

AC - Os projetos do monotrilho e do BRT em Manaus já são dados como obras que não irão estar concluídas até a Copa de 2014. O senhor acha que ainda dá tempo?

Artur Araújo - Eu sempre tenho pé atrás quando me dizem que em dois anos não dá tempo de fazer. Como eu disse, se houver dinheiro e vontade de fazer, vão fazer. Você pode colocar gente trabalhando 24 horas, por exemplo. Tem momentos, porém, que não adianta, porque nem colocando uma multidão trabalhando não daria tempo.

AC - Essa incompetência gerencial não vai causar um gasto desnecessário?

Artur Araújo - Provavelmente vão custar mais do que se tivessem feitas no prazo. Mas eu não chamaria isso de incompetência gerencial. Existe autonomia dos município do Brasil. Não somos um Estado unitário, em que se baixa uma regra e todos os Estados e municípios são obrigados a cumprir. Somos uma federação.  Os municípios tem disponibilidade de recursos, mas o processo decisório dos municípios, têm um problema de natureza política. Passa pelo que cada prefeito vê como prioridade. Do nosso ponto de vista todas as cidades que usassem a copa como gancho para realizar suas obras de infraestrutura teriam feito um belíssimo trabalho. É um momento em que dinheiro e vontade aparecem. Eu atribuo menos a uma incompetência geral e mais a uma definição política.

AC - Na sua opinião, Manaus está perdendo essa chance?

Artur Araújo - Até o momento, sim.

AC - Quando a Copa foi anunciada para o Brasil, o governo falava que a maior parte das obras seriam feitas por parcerias público-privadas. No entanto, hoje o Estado é o principal investidor da Copa. O que deu errado com as PPPs?

Artur Araújo - Falta de interesse empresarial. As taxas de retorno não foram convidativas, ou os empresários esperavam subsídios que não vieram e resultou em poucos interessados. Mas isso variou bastante. Veja que em São Paulo choveu candidato para fazer Estádios. Na questão dos aeroportos. A privatização foi um sucesso. De resto, nos parece que não se construíram modelos com taxa de retorno atrativas para a iniciativa privada. Em muitos lugares as arenas só se viabilizarão se forem multiuso. E aí precisa ver se essa cidade teria vocação para isso. Se a iniciativa privada não se convence disso, ela não investe.

AC - Na África do Sul, onde a última Copa foi realizada, há pelo menos duas ou três arenas que se transformaram em elefantes brancos. Esse será o destino de algumas arenas como as Manaus, Natal e Cuiabá?

Artur Araújo - Se elas não desenvolverem projetos de adaptação física e  marketing, sim.

AC - Mas a partir de quanto esse planejamento deveria começar a ser feito?

Artur Araújo - Deveria ter sido pensado sempre, agora, há uma flexibilidade. Você pode salvar um projeto desses posteriormente. Agora, as arenas nessas três cidades vão ter mais dificuldade. O nível de atividade esportiva não mantém uma arena desse tamanho. Por isso que é preciso viabilizar essa arenas depois da Copa.

AC - Tanto o Ministério dos Esportes quanto o comitê organizador da Copa (COL) têm sido cargos ocupados por políticos. Esse perfil pode ajudar a explicar porque o projeto Copa vem sofrendo tantas críticas interna e externamente?

Artur Araújo - Não vejo qualquer associação entre uma coisa e outra. Primeiro porque todo ministro é um político. Seria novidade se não fosse. Todos os ministros de todos os ministérios em qualquer lugar do mundo são políticos. Ele pode ou não ter competência técnica associada a isso. Isso para mim não pode implicar ou não em ter dificultado o projeto da copa. O projeto pode ser bem sucedido ou mal sucedido e eu não vejo o cenário da copa como um cenário a caminho de problemas. Não é nossa avaliação o Brasil vai conseguir fazer uma copa bastante boa.

AC - Boa comparada a que? Ao que foi feito na África do Sul?

Artur Araújo - Particularmente em relação à África do Sul e sem deixar nada a perder para Alemanha, Japão e Coreia. O problema é que o legado está perto de ser menor do que o esperado. Em relação à realização do evento especificamente, o processo brasileiro é absolutamente idêntico. Teve envolvimento dos governos, das federações e debaixo disso se montou uma estrutura de profissionais contratados.


AC - O Governo Federal se acovardou ao deixar a decisão sobre o consumo de bebidas alcóolicas nos Estádios para que cada Estado defina?

Artur Araújo - É um acordo político. A legislação sobre os estádios não é nacional. O estatuto do torcedor, foi alterado. Do ponto de vista do Governo Federal, está liberada. Agora, cada Estado tem sua legislação e como cada estado vai fazer, isso vai depender de cada realidade.

AC - O deputado federal Romário (PSB) disse que a Copa de 2014 vai ser a maior roubalheira da história do Brasil. O senhor concorda com o parlamentar?

Artur Araújo - Isso é a opinião do Romário.

AC - O senhor não concorda com ele?

Artur Araújo - Eu? Não!!!

AC - O governo criou um dispositivo específico para compras destinadas à Copa de 2014, que é o Regime Diferenciado de Compras, entretanto, há quase 20 anos, o Brasil criou a lei das licitações, a  lei 8.666. O governo descobriu só agora que a 8.666 não funciona?

Artur Araújo - Não descobriram só agora. O regime especial de compras da Petrobras é um exemplo. Agora, eu posso te dar minha opinião. Eu acho que a 8.666 é uma lei com um objetivo de cercear o desvio, entretanto, ela é tão cheia de mecanismos e minúcias, que se transformou no melhor mecanismo para fazê-lo. As matérias do Fantástico mostraram como esse procedimento licitatório pode ser um jogo de cartas marcadas.

AC - Mas se a 8.666, que é considerada restritiva, não consegue impedir desvios, o regime diferenciado para a Copa não abre ainda mais brechas?

Artur Araújo - Não. Esse regime é muito mais transparente. É nas minucias da 8.666 que mora o perigo. No processo de pregão, que é a principal modalidade do Regime Diferenciado, é bem mais transparente. Todos podem participar. Agora, não conheço nenhum regime legal que impeça a corrupção. Não acho que  o regime vai gerar mais ou menos problema. Acho que vai gerar rapidez.

AC - Desde o início do projeto Copa, têm se dito que os governos deixarão as obras atrasarem o mais possível para que eles possam contratar em regime de urgência, quando o controle é mais frágil. Isso vem acontecendo?

Artur Araújo - A informação que eu tenho hoje é que os processos licitatórios estão sendo cumpridos. Não conheço de nenhuma obra que esteja atrasada de propósito. A única que estava mais ou menos atrasada era a da arena de Porto Alegre. Duvido que alguém vá contratar obras mobilidade como emergência. Eu duvido. Tem que ter muito peito...chama atenção demais.


AC - Diversos segmentos da sociedade têm afirmado que a forma como a Fifa tem negociado com o Brasil está ferindo nossa soberania. Qual sua avaliação sobre a postura da Fifa?

Artur Araújo - É importante que se diga uma coisa: a Fifa é uma máquina para ganhar dinheiro. Não é uma operação de interesse público. Ela tem uma marca fortíssima que é a Copa do Mundo e quer conseguir o maior lucro possível. Ela vai tentar sempre empurrar para os países-sede todo tipo de problema, custo ou risco. E vai ter sucesso na medida da resistência do lado de cá. A solução ideal para a Fifa é a seguinte: tudo o que ela quer ser concedido. Mas cada país tem as suas regras. Geralmente as grandes brigas são: uso de marca, venda de equipamento e brindes. A discussão sobre bebidas foi tipicamente brasileira porque, mundialmente, se vende bebidas em estádios.

AC - Como o brasil tem se comportado? Endureceu ou amoleceu demais nas negociações?

Artur Araújo - O Brasil está fazendo o mesmo jogo da Fifa. Cedendo aqui, endureço ali. Nós extraímos algo inusitado que foram os ingressos com desconto. A lógica da Fifa é: eu faço o preço. Outro ponto foi o de que o Brasil não aceitou se responsabilizado por tempestade, furacão, terremoto, chuvas. E vai ser assim até o último momento.

AC - Qual sua opinião sobre o assunto?

Artur Araújo - Nao faz sentido que haja bebida em show de axé e rock e não tenha bebida em estádios.

AC - Nesse cenário que se desenha, é possível dizer que o Brasil estará preparado para as Olimpíadas?

Artur Araújo - Tranquilamente.

AC - Seu otimismo contrasta com a história recente do Brasil e com os absurdos que ocorreram durante o Pan de 2007. A experiência que tivemos com o Pan não deveria nos deixar preocupados?

Artur Araújo -  Ué, o Pan não aconteceu? Teve alguma modalidade que não houve competição?

AC - Não, mas várias obras apresentaram superfaturamento. Então, para realizar um evento desse porte, há que se pagar o preço que for?

Artur Araújo -  Acho que quanto mais planejarmos, menos vamos pagar. Acho que se criou uma imagem distorcida sobre a realidade da preparação do Brasil para a Copa. Agora, é perfeitamente possível roubar descaradamente em uma obra com 10 anos de planejamento. Assim como é possível fazer obras urgentes sem picaretagem.

AC - Que nota o senhor daria para a preparação do Brasil para a Copa de 2014? 

Artur Araújo -  De oito a nove.