Publicidade
Especiais
Especiais

Fenômeno Terras Caídas, pós-cheia, causa apreensão a ribeirinhos do Amazonas

Em alguns municípios, a descida das águas causa medo aos residentes nas margens do rio Solimoes. Enchentes podem estimular êxodo rural 05/06/2012 às 09:57
Show 1
A rua Renato Souza Pinto, em Boca do Acre, foi praticamente “engolida” ao longo dos últimos anos pela erosão do rio Acre
Jornal A Crítica Manaus (AM)

Todos os dias, quando o sol se põe numa das curvas do rio Solimões em São Paulo de Olivença (a 988 quilômetros de Manaus), Selma Maria Gomes, 60, faz o mesmo ritual. Ela caminha lentamente em direção ao pequeno ofertório branco e azul à beira de um barranco, acende duas velas e reza. “Desde que parte da cidade desmoronou eu fiz uma promessa. Acendo duas velas e rezo para Nossa Senhora de Fátima e São Francisco de Assis e não corto mais o cabelo. Até agora, tem dado certo”, diz.

O medo de Selma tem fundamento geológico. Em outubro de 2010, parte da orla da cidade desmoronou deixando 183 famílias desabrigadas. A Defesa Civil condenou as construções do pequeno centro comercial do município, mas, sem ter para onde ire, a população desafia a natureza todos os dias.

De acordo com o geólogo José Luiz Marmos, São Paulo de Olivença é um dos municípios com a orla mais instável do Amazonas e o período pós-cheia é justamente aquele em que novos desmoronamentos podem ocorrer.

Trata-se do fenômeno popularmente conhecido como “Terras Caídas”. “Enquanto o rio está alto, os barrancos estão seguros, mas quando o rio começar a descer, a terra ficará mais leve e poderá se soltar”, explica Marmos.

Entretanto, não são apenas as terras-caídas que preocupam os moradores e autoridades do Município de São Paulo de Olivença. Boa parte da produção rural do município foi, literalmente, por água abaixo e, além de fonte de renda, é essa produção que alimenta as mais de 73 comunidades ribeirinhas de São Paulo de Olivença.

Sem roça, agora a população corre o sério perigo de passar por situação de risco alimentar. “Os R$ 400 que o Governo do Estado distribuiu não vão ser suficientes. As famílias vão demorar pelo menos uns cinco ou seis meses para recuperarem parte da produção e a maioria delas planta para subsistência. Já verificamos o início do processo de desnutrição em algumas crianças das nossas comunidades”, diz Jucerlei Ventura da Cruz, funcionário da prefeitura que lida diretamente com as comunidades ribeirinhas do município.

Na comunidade Santa Clara, a pouco mais de 30 minutos de lancha da sede do município, as roças e as casas de farinha ficaram submersas. Dessa forma, os moradores não têm como processar a massa da mandioca e transformá-la em farinha, base da alimentação ribeirinha. “A gente pede ajuda dum (sic) vizinho, do outro. Ainda tenho um pouco de farinha guardada, mas não sei quanto tempo ela vai durar”, afirma.

Êxodo rural

Em Boca do Acre (a 1.280 quilômetros de Manaus), Núbia Monteiro da Cunha, 42, ainda se recupera do susto. Ela mora à beira do rio Purus e viu parte de sua casa ser tragada durante o desmoronamento de parte da orla da cidade, há um mês e meio. Agora, convive com a incerteza sobre o futuro. “Meu filho menor fica aflito toda vez que chove. A gente tem medo de a casa cair sempre que relampeja”, diz Núbia.

Apesar de os estragos causados pelas terras-caídas serem mais “famosos” em São Paulo de Olivença, em Boca do Acre os estragos causados ao longo dos últimos 20 anos são assustadores. Ruas inteiras desapareceram e boa parte do que era a sede do município encontra-se ameaçada de cair no leito dos rios Acre e Purus. A situação é tão grave que um bairro inteiro hoje é conhecido como o bairro do “Desvio”. O nome veio do “desvio” feito em uma estrada construída para contornar os efeitos da erosão.


Núbia Monteiro da Cunha, seus filhos e a mãe têm medo de que novos desmoronamentos afetem sua casa em Boca do Acre

Mas assim como em São Paulo de Olivença, alguns dos impactos mais graves da cheia de 2012 não estão na sede do Município de Boca do Acre, mas no interior. E em Boca do Acre, esses impactos têm um ingrediente explosivo: a expansão da fronteira agrícola.  Antônio Sena, analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Bioversidade (ICMBio) e chefe da Floresta Nacional do Iquiri, acredita que o aumento de cheias extremas como a de 2012 pode aumentar o êxodo rural ou abandono das áreas tradicionalmente ocupadas pelos ribeirinhos. O problema é que, diferente do que ocorria no passado, agora a disponibilidade de terras é limitada. “A gente percebe que esses ribeirinhos podem migrar e na hora de procurar uma terra, acabar esbarrando em uma fazenda de gado. Outra coisa que pode acontecer é eles irem para uma outra área menos fértil. Os impactos dessa cheia foram muito intensos e eles vão demorar bastante para se recuperarem”, afirma.

Antônio Sena diz que boa parte das famílias que vivem na Flona Iquiri tem noção de que fenômenos climáticos extremos podem estar relacionados com as mudanças climáticas, sobretudo diante de uma cheia tão severa quanto a deste ano. Sena afirma, ainda, que nos últimos dois anos e meio observou um fluxo de ribeirinhos saindo de suas comunidades em direção à sede do município. Entretanto, ele ponderou que esse fenômeno está, por enquanto, mais relacionado ao assédio dos agricultores e pecuaristas do que às chamadas mudanças climáticas.

Falhas na ajuda

A operação de guerra montada para atender mais de 70 mil famílias atingidas pela cheia de 2012 gerou distorções que, para  muitos amazonenses, são cruéis. Diante do desafio de recuperar lavouras inteiras, os agricultores reclamam que as sementes ainda não chegaram. São elas que irão ajudar milhares de ribeirinhos a recuperar suas lavouras e, quem sabe, no ano que vem, “tirar” o prejuízo causado pelas águas.

Outro ponto que gerou descontentamento foi a distribuição da ajuda financeira. Em Boca do Acre, o Governo do Estado enviou cartões magnéticos com créditos de R$ 400 a serem distribuídos para as vítimas da cheia. O problema é que a maioria dos beneficiários dos cartões vive em comunidades ribeirinhas distantes várias horas, algumas vezes até dias, da sede do município. Os cartões foram enviados a Boca do Acre, mas o período para e entrega foi curto demais para centenas de agricultores que moram longe da sede. Os cartões foram recolhidos e centenas de agricultores ficaram sem o recurso.

Solange Maria Gonçalves, moradora da Reserva Extrativista do Arapixi, diz que vários agricultores da sua região não conseguiram chegar a tempo de receber os cartões. “A única comunicação que a gente tem com a cidade é a radiofonia. Não avisaram a gente. Quando a gente ficou sabendo, já era tarde e o pessoal já tinha ido embora”, conta.

Afetados

De acordo com Sub-comando da Defesa Civil do Estado do Amazonas, 80.635 famílias foram atingidas pela cheia deste ano.

Segundo dados do Governo do Estado, mais de 10 mil cartões com créditos no valor de R$ 400 foram distribuídos às vítimas da cheia em todo o Estado.

Ao todo, 53 dos 62 municípios do Estado do Amazonas decretaram situação de emergência.

Três municípios (Anamã, Careiro da Várzea e Barreirinha) decretaram estado de calamidade pública.

Em São Paulo de Olivença, 3.897 famílias foram atingidas. Apenas 1.923 foram beneficiadas.