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'Filhos do petróleo' nascem no interior da Amazônia

Fruto do envolvimento de “forasteiros”, eles são assunto proibido 19/03/2012 às 21:36
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Lauriane: "minha mãe teve sorte"
Jornal A Crítica ---

Até hoje, eles são assunto proibido na pequena cidade de Carauari. Os “filhos do petróleo”, meninos e meninas que nasceram da união de mulheres da região com funcionários da Petrobras, são o exemplo da desestruturação social causada pela companhia no final da década de 80. Em Carauari, todos conhecem um ou mais casos, mas o preconceito os relega a uma invisibilidade quase tão grande quanto a saudade que sentem de pais que, algumas vezes, jamais conheceram.

Não há estimativas oficiais sobre a quantidade de filhos que nasceram sem o apoio dos pais em Carauari. O que se sabe é que eles foram muitos. Bruno Lira Alves, 22, é um “filho do petróleo” que nunca viu o pai, um piloto que trabalhava para a Petrobras até o início dos anos 90. Seus pais se conheceram no final dos anos 80, quando a estatal já preparava sua partida rumo a Urucu. Foi nesse contexto que Bruno nasceu. “Minha mãe namorou com o meu pai, mas ele era casado. Quando eu nasci, ele teve que ir embora. Mesmo assim, ele ainda me deu ajuda. Sempre mandava dinheiro. Não tenho mágoas dele”, diz.

Bruno mora na casa de alvenaria da sogra. Ele trabalha como ajudante-geral em uma empreiteira que presta serviço à Petrobras em Urucu. De uma forma ou de outra, ele é parte da segunda geração de petroleiros da família. O pai ainda trabalha como piloto, mas na costa do Rio de Janeiro. Desde que as atividades em Carauari cessaram, nunca mais voltou.

O sol de fim de tarde brilha quente e entra pela janela da apertada sala-de-estar onde Bruno fica com os dois filhos, um de quatro anos e outro de quatro meses de idade. Quando está com eles, mais parece um irmão mais velho que um pai, tão jovem sua expressão. Mesmo assim, os “curumins” o obedecem e Bruno fica orgulhoso. Quando fala do pai que nunca viu, ele tenta disfarçar o constrangimento, ressalta qualidades que ele jamais constatou de verdade, e se emociona quando diz o que gostaria de fazer quando o encontrasse. “Eu queria dar um abraço no meu pai. De verdade... e dizer que eu o amo muito e que eu sou um bom pai”, diz, soluçando, sem conter o choro.

Segunda família

Lauriane Martin do Nascimento, 25, teve mais “sorte” que Bruno. Ela também é filha de um piloto que prestava serviços à Petrobras no final da década de 80. Ao contrário do pai de Bruno, que não criou vínculos na cidade, o pai de Lauriane não escondeu a nova filha da primeira família. “Ele era casado, mas sempre vinha aqui. Nós somos família dele. A  mulher dele não gostava, mas teve que aceitar. Agora ele vive no interior de São Paulo, mas ele sempre liga pra gente”, conta Lauriane, que ao contrário de Bruno, conhece e tem convívio com seu pai.

Da sacada de madeira de sua casa, Lauriane observa o movimento dos macacões alaranjados voltarem para Carauari e se preocupa. “Todo mundo na cidade sabe o que aconteceu quando eles foram embora da outra vez. Ninguém quer ficar sozinha. Minha mãe teve sorte porque meu pai sempre me ajudou, mas teve muita gente aí que ficou desamparada”, diz.

Bruno, que tem uma irmã adolescente, também teme que o que aconteceu com sua mãe se repita agora, duas décadas depois. “Eu falo para ela não dar papo para esse pessoal de macacão. Não é por maldade. Todo mundo quer se divertir, mas depois que o trabalho acaba, eles vão embora e a gente fica”, afirma.