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Homens de várias idades e profissões juntos para defender os bumbás

Os vaqueiros são exemplos de um povo formado por pessoas de diferentes profissões e classes sociais que juntos brincam e formam um dos itens mais importantes do festival 01/07/2012 às 15:47
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Vaqueirada Azul ensaiou firme para manter uma apresentação perfeita no Festival de Parintins
Mariana Lima Parintins (AM)

Um grupo de homens de distintas idades e profissões mantém a tradição de proteger o boi bumbá de Parintins durante as festas folclóricas da ilha. Seja ele Garantido ou Caprichoso, os vaqueiros são exemplos de um povo formado por pessoas de diferentes profissões e classes sociais que juntos brincam e formam um dos itens mais importantes do festival.

Ao todo são mais de 80 brincantes nos dois bois. O item, formado por pescadores, feirantes, professores, diretores, estudantes, trabalhadores da construção civil, dentre outras profissões, entram em harmonia e sintonia quando colocam seus cavalos ornamentados e suas lanças que pesam, em média, 20 Kg.

Os brincantes alegam que o item é um dos mais apaixonantes, e que quem brinca na vaqueirada, dificilmente troca de grupo. Este é o caso de Roberto Silva, o “Coronel”, que comemora 44 anos só de vaqueirada do boi vermelho e branco este ano. Ele conta que entrou no grupo pela indicação do próprio Lindolfo Monteverde, criador do boi Garantido: “Eu não tinha idade para brincar, pois à época os bois brigavam na rua e as crianças eram proibidas de participar. Mas eu queria muito sair na rua brincando de boi então minha mãe pediu autorização de Lindolfo que me deixou sair de vaqueiro. Desde então não tenho mais largado a vaqueirada”, conta o tricicleiro.

A amizade é outro fator marcante visto na vaqueirada. Apesar das diferenças, os dois grupos de vaqueiros são unânimes em falar sobre afinidade entre o bando, que meses antes do festival chega a passar mais de três horas treinando por dia. O pintor Jackson Jesus fala sobre a amizade dentro da vaqueirada: “Aqui cada um dá força para os novatos, ninguém deixa de se ajudar. Gostamos de esperar o ano inteiro para nos reunir e brincar de vaqueiro”, explica.

Devido ao emprego dos brincantes, os ensaios das duas vaqueiradas acontecem em horários alternativos. A medida também foi adotada, pois os membros deste item não recebem verbas durante o festival, brincando gratuitamente apenas para ajudar o seu boi favorito.

No lado do boi Caprichoso, por exemplo, os ensaios começam por volta das 23h e passam da meia-noite. Os vaqueiros encarnados, por sua vez, começam a ensaiar no fim da tarde e início da noite, horário intermediário para atender tanto os profissionais que trabalham de dia quanto os brincantes que estudam à noite.

Mas quem pensa que animar a arena sem receber verbas e ensaiar exaustivamente após um longo dia de trabalho é desestimulante para os vaqueiros está bem enganado. Os brincantes são unânimes em falar que vale totalmente à pena buscar o título por amor ao boi. O monitor Rodrigo de Barbosa, que cursa o quarto período de Geografia na Universidade do Estado do Amazonas – Campus Parintins - explica que é preciso ter um pouco de sorte e jogo de cintura para conciliar o trabalho e os estudos na época dos ensaios boi: “Eu tenho um pouco de sorte, pois os ensaios começam junto com as minhas férias da faculdade. Agora, por exemplo, estou fazendo apenas uma matéria de curso de férias na UEA. Já na sala de aula, meus alunos  me questionam se este ano vou sair na vaqueirada”.

A paixão de brincar na vaqueirada conquista estudantes e professores universitários. Uma tradição, que normalmente é passada de pai para filho ou entre membros da mesma família também é vista dentro da Academia e das escolas, e cada vez mais é encontrada dentro dos galpões.

O professor e ex-diretor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Jefferson da Cruz, é do Paraná, mas mora há cinco anos em Parintins. “Eu conheço Parintins desde a década de 90, quando cheguei a Manaus. Vim pela primeira vez à cidade para brincar de boi ainda no fim daquela década. Comecei a morar aqui para implantar e ser diretor da Ufam na cidade, mas conheci a vaqueirada e não  larguei mais”, explica.

O Jefferson conta ainda que as diferenças das classes é algo que torna o item um dos mais curiosos. “Brincar na vaqueirada é um exemplo muito forte do povo daqui, das tradições das  pessoas. Além de ser muito bonito, pois formamos uma família formada por diferentes membros. O carinho é tanto que em outros meses do ano nos encontramos pelas ruas e marcamos de nos encontrar e brincar ou conversar sobre a brincadeira”, conta.

O ex-diretor da Ufam explica ainda sobre a importância da vaqueirada para os brincantes: “Sair neste item é viver uma energia maravilhosa. Este é um item coletivo, mas hoje em dia as pessoas começam a pensar quem é o vaqueiro. Hoje temos estudantes universitários, pedreiros, pescadores, pessoas com diferentes atividades com o mesmo objetivo, pessoas de diferentes classes e níveis de estudo que entram em harmonia para defender o boi”, conclui.

A relação do boi com a Universidade também tem crescido, segundo Jefferson: “ Vemos que o tema ‘boi’ está começando a entrar na Universidade,  por meio de eventos, festas e até em discussões nas salas de aula, e a Academia está entrando no boi, com brincantes ingressando cada vez mais na Universidade em diferentes cursos. No fim das contas, todo mundo ganha com isso” conclui.