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Petróleo e gás na Amazônia: entre o trauma e a esperança

Moradores, autoridades locais e cientistas são unânimes: história está se repetindo 19/03/2012 às 21:37
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Moradores, autoridades locais e cientistas são unânimes: história está se repetindo
A crítica Manaus

O novo “boom” do petróleo não despertou apenas esperanças no povo de Carauari, mas fez ressuscitar lembranças amargas que caminhavam para o esquecimento. Após a partida da Petrobras, que na década de 80 mudou o foco de atuação para a região do rio Urucu, a cidade entrou em uma profunda crise econômica. Para trás, ficaram equipamentos velhos, filhos sem pai, um caos social profundo e um trauma difícil de esquecer.

As recordações dos tempos turbulentos estão por toda parte, mas sobretudo na memória dos mais velhos. A professora aposentada Maria Inês Correia Pereira Nascimento, 62, lembra que a chegada da companhia se deu gradualmente, mas que em pouco tempo a notícia de que havia petróleo se espalhou pela região. Os soldados da borracha, que atenderam ao chamado da Guerra na década de 40, agora cediam seus filhos para o chamado do petróleo, em um fluxo migratório sem precedentes no Vale do Juruá.

“O interior ficou esvaziado. Todo mundo queria um macacão alaranjado, como os que davam para os funcionários das empresas. Aquilo dava status na cidade. Muitos homens saíram das comunidades e vieram procurar emprego na cidade, que ficou inchada. A produção local acabou e tudo ficou caro”, conta.

A professora lembra que entre 1978, quando as atividades da Petrobras começaram em Carauari, até meados da década de 80, basicamente toda a economia do município girava em torno não apenas da Petrobras, mas das empreiteiras contratadas por ela. Em 1986, porém, a estatal descobriu as reservas de gás e petroleo na região do rio Urucu e suspendeu as atividades de pesquisa em Carauari. A base foi desmontada e milhares de pessoas perderam seus empregos.

“Foi o caos total. Era uma situação para a qual ninguém estava preparado. Todo mundo tinha certeza de que a Petrobras ia achar petróleo, mas não foi assim. Aí veio o maior custo social de todos: o desemprego. Criou-se um vício com a prefeitura, que acabou tendo que absorver muita gente sem ter condições para isso. Dezenas de crianças, filhas de funcionários dessas companhias, ficaram sem pais.

A prostituição cresceu muito”, lembra a professora. Ela diz que tem medo de que o filme se repita. “O sentimento de esperança hoje é o mesmo que a gente sentia nos anos 70 e 80. As mesmas coisas estão acontecendo e não estamos fazendo nada para impedir”, diz.

Frustração foi prevista

O padre João Derickx, que atuou junto ao movimento seringueiro de Carauari, descreveu a depressão vivida pelo município em seu livro “Juruá: o rio que chora”. “É triste ver que, depois da borracha, o ouro negro, outra riqueza econômica do País, venha a marginalizar o homem juraense”, escreveu Derickx.

Um dos efeitos mais visíveis dessa “marginalização” é a expansão desordenada da cidade. Entre 1985 e 1988, a população de Carauari saltou de 2 para 8 mil habitantes. O aeroporto, que antes ficava afastado, foi praticamente engolido por casas construídas sem qualquer tipo de planejamento.

João dos Deus Coelho, ex-chefe do Ibama em Carauari, morava há pouco tempo no município quando a euforia deu lugar à tristeza. “Eu acho que frustração é a melhor palavra para descrever o que aconteceu. Todo mundo acreditava que o petróleo viria à tona. Acharam gás, mas o petróleo mesmo, ainda não veio. A população ficou muito decepcionada”, recorda-se.

Um dos relatos mais consistentes sobre o drama vivido em Carauari foi feito por Samuel Benchimol, cientista jurídico e econômico e uma das maiores referências sobre a Amazônia. Em 1979, ele viajou à região e voltou com o livro “O Petróleo na Selva do Juruá: o Rio dos Índios Macacos”. Em suas observações, o pesquisador dividiu os impactos causados na localidade em sete categorias. Benchimol “previu” que a prosperidade repentina e a melhoria na qualificação dos moradores poderia acabar em frustração se a Petrobras abandonasse a região, o que acabou acontecendo de fato, anos depois.

Gasolina é artigo de luxo

A proximidade de Carauari com os campos de petróleo e gás tão procurados pela Petrobras e pela HRT O&G contrasta com a realidade dos moradores do município. Na cidade que um dia já foi a “capital do gás”, o preço da gasolina é praticamente proibitivo para a maior parte da população e obriga os ribeirinhos a realizarem um improviso: em vez de gasolina, eles usam gás de cozinha nos motores tipo rabeta que utilizam em suas canoas.

Em Carauari, o litro da gasolina custa R$ 3,90, um terço a mais do que custaria em Manaus, onde o mesmo litro sai por R$ 2,90, em média. Gerente do Auto Posto Carauari, Adelson Viana, 56, explica a discrepância. “Essa gasolina a gente compra lá em Manaus e vem de balsa. A gente está muito longe da capital e muitas vezes esse combustível demora até 20 dias para chegar aqui”, diz Viana.

O preço da gasolina em Carauari tende a ficar ainda mais caro durante o período de vazante, quando o sinuoso rio Juruá - único meio de acesso ao município - seca e a navegação fica praticamente impossível. Em linha reta, Carauari fica a 788 quilômetros de Manaus, mas por via fluvial, a distância quase dobra, chegando a 1.411 quilômetros. Como a única refinaria de petróleo do Estado fica em Manaus, não há outra alternativa a não ser esperar.

Eliandro de França Ferreira, 24, mora em uma comunidade a pouco mais de duas horas de viagem em um motor rabeta. Desempregado, trocou a gasolina pelo gás de cozinha para abastecer sua canoa. Ele coloca um botijão de gás na popa da embarcação e usa uma mangueira de borracha fina para levar o gás até o bico injetor do motor. A troca é 50% mais econômica em relação à gasolina e oferece mais potência ao motor, mas também traz um risco.

Qualquer rachadura na mangueira, sempre exposta ao sol, pode ocasionar uma explosão. Mesmo assim, Eliandro não se preocupa. “A gente faz isso há muito tempo. Gasolina aqui é muito caro, não tem como comprar. O jeito é apelar para o botijão”, diz Eliandro.