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Símbolos de amor

Eles têm jeito peculiar de retratar devoção à tríade religião-família-bois. Mostram jeito simples dos parintinenses 01/07/2012 às 15:59
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Raimunda Castro Filho segura réplica do Caprichoso tendo, ao fundo, uma pintura da face de Jesus Cristo
Paulo André Nunes Parintins (AM)

Não precisa ser época de Festival Folclórico para que os parparintinenses demonstrem, de forma bem peculiar, sua devoção e admiração por uma tríade bastante peculiar: a religião, família e, claro, os bois-bumbás Garantido e Caprichoso. E as paredes são o local especial que os ilhéus, do mais modesto ao mais abastado, escolheram para expor esse sentimento.

Na parede da casa da torcedora do Caprichoso, Raimunda Castro, 82, seu filho, o artista do Boi Garantido, Elizeu Lopes, retratou uma bela imagem de Jesus Cristo sob um aspecto Renascentista. Ao lado da imagem, uma cortina vermelha dá o toque do contrário à casa. “Essa imagem de Cristo me faz sentir protegida”, explica Raimunda Castro, com uma réplica do Boi Caprichoso, seu Diamante Negro, nas mãos. Sua neta, Carol Castro Lopes, ressalta esse sentimento de proteção da imagem: “Essa pintura demonstra a nossa fé, temos proteção. Nossa família é muito religiosa”.

Uma “flor” de pessoa é o que podemos dizer sobre  Rosa Xavier Brasil, 71. Receptiva, assim como a maioria dos parintinenses, ela contou à reportagem que os símbolos que traz nas paredes de casa, na rua Senador José Esteves, no bairro Zumbi dos Palmares, refletem “amor ao Boi Garantido, religião e família”. Lá estão o Salmo 22, da Bíblia Sagrada (“O Senhor é o meu pastor e nada me faltará”). E as fotos de quadros de família como ao lado do marido Francisco de Assis - que é deficiente visual e diabético, de filhas e netas. 

No vermelho e branco, ela colaborou durante 11 anos sendo costureira. “Em uma época eu morei no bairro do São José. Foi aí que eu trabalhei no Garantido”, contou a “Rosa do Garantido”, exibindo a moldura do Boi do Povão nas mãos.

 

Dentro e fora

Na avenida Nações Unidas, a devoção da tríade também está presente. Na casa da auxiliar de serviços gerais Luzardina Pena de Souza, 44,  essa demonstração está dentro e fora. No muro de sua casa, a paixão pelo Garantido é verificada pela parede da residência, que traz a pintura de vários corações. Na sala, há corações e bibelôs do boi vermelho, além de quadros de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade. Na parede que dá acesso ao quintal, há, por exemplo, dois quadros da Santa Ceia, um chapéu vermelho e, na geladeira, adesivos do Vasco da Gama, time de coração da família.

Uma declaração da filha dela, Lucinara, demonstra o quanto a simpatia é um símbolo de amor dos parintinenses. “Não vou ao Bumbódromo. Prefiro dar prioridade a quem vem de fora, de outras cidades. Os de fora gastam aqui em Parintins. Eu já vi o boi. Muitos, ainda não”, ensina ela.

Sentimento até além da morte

O mundo não foi mais o mesmo para a dona de casa Lande Nogueira dos Santos e seu marido Silvio Nogueira, quando, há sete anos ambos tiveram o filho assassinado a facadas por membros de galeras do bairro Zumbi dos Palmares. Então jogador de futebol profissional ,Tubarão, como era conhecido, estava dormindo em sua casa, localizada entre as ruas Padre Victor esquina com Nhamundá (a mesma da sua mãe) quando foi acordado por uma confusão gerada pelos galerosos. Ao sair de casa para pedir silêncio, foi abordado por um dos criminosos que o feriu com uma facada na jugular.

Até hoje Lande Nogueira guarda, com carinho, a foto do filho que  jogou no Sul América de Manaus. Sem comparações, claro, mas a imagem faz parte de símbolos como a camisa do amado Boi Caprichoso, do qual Luís Carlos era tuxaua, e dos quadros do Menino Jesus e da Santa Ceia.

“Ficou essa lacuna até hoje. A lembrança do meu filho é muito forte”, destaca Lande Nogueira dos Santos, observando atentamente a fotografia.

Na sua mente, a religiosidade e o Caprichoso ajudam a pelo menos atenuar a sensação de perda que ela guarda atualmente.