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Toadas esquentam rivalidade entre bois

Os temas das toadas são aqueles que mais deixam os bois chateados 29/06/2012 às 11:53
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Toadas esquentam rivalidade entre bois
Artur César Parintins (AM)

Com um linguajar tipicamente regional, as toadas de desafio deste ano servem para esquentar ainda mais a disputa entre os bumbás Garantido e Caprichoso, elevando os brios das duas torcidas dentro e fora da arena. Com ingredientes que fazem raiva dos dois lados, elas também trazem boas doses de humor em suas letras.

O autor da toada “Mas quando já!”, Mencius Melo, explica que a ideia foi reunir o máximo de informações que deixassem a torcida do contrário com raiva. Para isso, ele tratou de lembrar que o Boi Garantido é pentacampeão, título que o Touro Negro ainda não conquistou. Para apimentar, mexeu com a Nação Azulada ao destacar o fato de que “pelo lado de lá” o Boi Caprichoso tem dificuldade em entrar em um consenso sobre quem é o seu fundador.  “Ao mesmo tempo em que ironiza, a toada provoca o contrário, fazendo com que eles se batam todos pelo lado de lá”, brinca Mencius Melo.

No lado Azul, o compositor  Rozinaldo Carneiro explica que eles foram resgatar um antigo personagem conhecido em Parintins por  conta de seus causos, para “tirar onda” com o contrário. “Trata-se de um antigo bordão que circulava pela cidade. Todo mundo que contava  muita mentira era chamado de Petchê”, explica Rozinaldo, autor da toada “Aplica, Petchê!” ao lado de Alder Oliveira. O compositor  destaca que o trabalho também é recheado de provocações, como a polêmica envolvendo a idade do fundador do Boi Garantido, Lindolfo Monteverde. “Em 1913 o teu mestre era um garoto”, diz trecho da toada. Uma pequena mostra de que a briga pela festa do centenário, ano que vem, promete ser uma das mais disputadas do Festival Folclórico de Parintins.       

Resgate

Os compositores concordam com uma coisa: é preciso resgatar as toadas de desafio na festa dos Bois. “Todo ano deveriam ter muitas. Trata-se de um ingrediente que mexe com os brios das torcidas, instiga as galeras. Se não fosse isso, o festival já tinha acabado”, opina Rozinaldo.

Mencius Melo acredita que as toadas de desafio dão força ao espetáculo de arena dos bumbás. Além disso, ajuda a difundir o linguajar típico da região e aproximar  os amazonenses com a realidade do interior. “É preciso levar a nossa identidade para o resto do País”, afirma Mencius. “O importante é trazer o linguajar caboco para as toadas”, defende Rozinaldo.

O petchê original

O personagem que inspirou a toada “Aplica, Petchê!”, Carlos Marinho Farias, 44, vive hoje em Manaus. A história dessa verdadeira figura típica regional teve início ainda na adolescência. Ele conta que tinha vergonha de dizer que vinha de uma família humilde. Filho da lavadeira Maria Farias e do carvoeiro Carlos Ribeiro, o jovem Carlos começou a espalhar suas primeiras mentiras. “Eu tinha vergonha, os meu vizinhos eram de classe média e o único filho de pessoas humildes era eu. Como era bonitão na época, dizia que era filho de vereador, de prefeito e de outras autoridades”, lembra. Seus causos logo foram ganhando fama. Por onde passava as pessoas o reconheciam. “Aplica Petchê, gritavam quando me viam passar”, relembra. Ele afirma não se importar com as brincadeiras, só não gosta quando tentam transmitir para os outros a imagem de que ele é “maligno”. “As brincadeiras fazem parte, mas tem gente que não sabe o que diz”, destaca Carlos Marinho, que trabalha atualmente como artista plástico.