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Ex-presidente da escola A Grande Família se prepara para servir só a igreja evangélica

O principal motivo, conta o ex-sambista, foi a falta de tempo para a família e os problemas de saúde que ele e outros familiares sofreram recentemente 25/01/2016 às 11:55
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Luiz Gilberto faz planos de entoar, brevemente, um louvor em plena quadra da A Grande Família
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Uma das pessoas mais identificadas do Carnaval amazonense, particularmente com a escola de samba A Grande Família, trocou, desde agosto do ano passado, o ritmo frenético do samba pelos louvores e cânticos cristãos. Luiz Gilberto Ferreira Lima, 58, está gradativamente deixando o mundo do samba para se dedicar somente ao Evangelho.

O principal motivo, conta o ex-sambista, foi a falta de tempo para a família e as atribulações e problemas de saúde que ele e outros familiares, viviam sofrendo nos últimos anos. 

Ele só não deixou a agremiação por completo devido parte dos familiares integrarem a diretoria da vermelho e branco do bairro São José: um dos filhos, Luiz Gilberto, é o presidente da A Grande Família, enquanto que outro, Luiz Eduardo, é mestre de bateria. A esposa, Ermozinda Andrade Lima, foi durante 12 anos porta-bandeira e hoje é cozinheira (ele também é pai do filho adotivo Luiz Fabiano). 

Outra rotina

Diferente dos anos anteriores, quando sua rotina era viver quase 100% entre a quadra e o barracão de alegorias da escola de samba, hoje ele vai raramente à sede da agremiação e mais para dar suporte ao filho presidente.

Na vermelha e branca ele esteve presente em todos os seis títulos de grupo Especial, e neste ano mais uma vez sua opinião foi de “peso” para a escola definir, como enredo, o didático tema “Paz no Trânsito” (reeditando o samba homônimo de 2006 quando foi campeã).

Atualmente, são as terças e domingos os principal focos dele, nos cultos da Assembléia de Deus, Área 71, localizada na Cidade Nova, Zona Norte. “Eu ainda estou de corpo na A Grande Família porque preciso ajudar meu filho. Mas espiritualmente a minha cabeça e o meu coração estão na igreja. Foram 30 anos sem ter tempo como deveria para a minha família”, comenta ele. A promessa dos familiares é de que todos deixem a escola após o fim do mandato de Luizinho, como é conhecido o filho de Luiz Gilberto.

“O Luizinho me fez uma promessa. Depois do desfile da escola, no dia 6, virá a eleição em maio e ele não vai concorrer à reeleição. Vai cuidar da vida dele. Tomara que ele me siga. Ninguém arrasta ninguém. É Deus que toca no seu coração e há de tocar no coração dos meus filhos. Um dia hei de vê-los aqui comigo na Igreja. Eu acredito muito que meus filhos vão me seguir. Há cinco meses ninguém imaginava que eu iria entrar para a igreja evangélica”, pontua o ex-sambista.

Visão

Luiz Gilberto conta que, do dia 6 para 7 de agosto do ano passado, teve uma visão que foi fundamental para a mudança de estilo de vida. Ele garante que, ao andar pela avenida Grande Circular, uma mata se fechou ao seu redor e, em meio à confusão de não encontrar um caminho, foi ajudado por um motorista dirigindo um antigo modelo Corcel 2.

“E ele perguntou se eu estava perdido e eu disse: ‘Estou’. E ele falou: ‘Então vamos encontrar esse caminho juntos’. E eu entrei no carro e as árvores começaram a aparecer e ao longe eu vi uma cidadezinha. E eu despertei”, lembra o evangélico, que a partir dali decidiu mudar totalmente de vida.

Ele crê fervorosamente que a recuperação de sua mãe, Leonília Ferreira Lima, hoje com 89 anos, que estava desenganada pela medicina tradicional, é fruto da sua entrada para a igreja.

“Hoje minha mãe anda, sem inflamações, come de tudo, é sã, também está na igreja. Já viajou para o Ceará e até foi à praia. Ela é um milagre vivo de que Deus existe após todo esse sofrimento grande pelo qual passamos”, relata Luiz Gilberto, dizendo estar tranquilo quanto à transição do samba para a igreja. “O que eu quero é a Igreja de Deus e conviver para a minha família, coisa que eu não vivia há mais de 30 anos”, ressalta.

Cânticos

Luiz Gilberto faz planos de entoar, brevemente, um louvor em plena quadra da A Grande Família. Mas não para sambistas, e sim para evangélicos, afirma ele. Cânticos como “Raridade”, do artista gospel Anderson Freire, um dos que Luiz Gilberto já começa a cantar nas pregações.

Ele faz questão de citar, emocionado, um trecho dele para a equipe de A CRÍTICA: “Você é um espelho que reflete a imagem do Senhor / Não chore se o mundo ainda não notou. Já é o bastante Deus reconhecer o seu valor / Você é precioso, mais raro que o ouro puro de ofir. Se você desistiu, Deus não vai desistir / Ele está aqui pra te levantar. Se o mundo te fizer cair....”.

Altamente identificado com o folclore amazonense, de onde fez parte de grupos como na Praça 14 de Janeiro, Luiz Gilberto lembra que ícones do boi-bumbá como David Assayag, levantador de toadas do Caprichoso, há alguns meses também se converteram ao Evangelho. “Olha aonde Deus foi usar o David”, ressalta o ex-sambista.

Já evangélico, recentemente, a pedido do filho presidente, Gilberto apresentou um dos eventos de feijoada da escola de samba, mas fez questão de explicar ao povo sambista presente na quadra da A Grande Família que continuava fiel à sua igreja, que não havia se desvirtuado e que as pessoas deveriam se preocupar mais com as suas vidas pois a dele estava resolvida. “Deus me guiou, meu parceiro”, conta ele, que ainda guarda, consigo, o vocabulário do samba, que ficará mais raro a cada dia.

“Muitos dizem pra mim: Glória a Deus, Gilberto, que bom. Feliz por você ter encontrado um caminho de paz e sossego na sua vida. Já os irônicos dizem: ‘Isso é fogo de rabo de palha. Quando passar o primeiro balde de cerveja ele toma uma latinha’. E eu digo: já passaram mais de 100 e a tentação não me bate. Quando alguém me oferece uma cerveja eu só faço rir. Se quiserem me pagar um refrigerante eu aceito”, brinca ele, sorridente, uma das suas marcas registradas.