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Lesão por Esforço Repetitivo atinge muitos empregados do PIM

Entre os cerca de 116 mil postos de trabalho gerados pelo PIM, encontra-se uma “legião” cada vez maior de doentes ocupacionais, que vêm abandonando o posto de trabalho e se tornando um grave problema social 28/02/2013 às 11:22
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Movimentos repetitivos feitas na linha de montagem dos produtos levam quase sempre à lesões no punho e nos ombros dos trabalhadores dos PIM
acritica.com ---

Eletroeletrônicos, telefones celulares, tablets, motocicletas, componentes, brinquedos, medicamentos... A gama de produtos fabricados pelo Polo Industrial de Manaus é variada. Todos os dias, milhares deles são montados nas linhas de produção do Distrito Industrial.

Mas estas mesmas linhas também estão produzindo um outro material bem “incômodo”, que não rende lucro algum e que empresa nenhuma gosta de assumir ou divulgar: vítimas de doenças ocupacionais.

Entre os cerca de 116 mil postos de trabalho gerados pelo PIM, encontra-se uma “legião” cada vez maior de doentes ocupacionais, que vêm deixando o “chão de fábrica” e se tornando um grave e silencioso problema social.

Os números, apesar de apresentarem variações, são altos. De acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Entre 2007 e 2009, o Amazonas apresentou a pior média proporcional do Brasil na incidência em doenças ocupacionais. O Estado chegou a registrar o triplo de outros estados altamente industrializados como São Paulo e Paraná. Apesar de ter perdido o topo da lista em 2010 para Roraima, o Amazonas ainda figura entre as médias mais altas do país.

O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) diz que concedeu 2.920 indenizações por afastamento trabalhista em 2012. Como ainda existem processos de acidentes ocorridos no ano passado em curso, o número tende a crescer. Em 2011, foram registrados 3.441.

Vilão

As lesões por esforço repetitivo (LER) são campeãs de incidência em quase todas as indústrias do DI. Um mesmo movimento chega a ser repetido 1.200 vezes durante uma jornada de trabalho de 8 horas (quando não são computadas as horas extras). A repetição leva a uma série de lesões de cunho irreversível, principalmente nos ombros. As condições de trabalho que as empresas proporcionam são um agravante. Para se ter uma ideia, algumas linhas de produção seguem o padrão ergonômico da Ásia, onde a população tem estatura menor.

Assim, casos como de Rozilene Travassos, 36 tornam-se cada vez mais comuns. Após trabalhar 10 anos em uma das “gigantes” do setor de duas rodas, ela lesionou o braço direito e hoje, além de ter perdido parte do movimento, não consegue ter força no membro. “Tabalhava aplicando adesivos nas motos e comecei a sentir dores após alguns anos. Aí fui transferida para um setor onde trabalhava com uma parafusadeira de ar comprimido nas mãos. O impacto na hora de encaixar as peças piorou minha situação. Às vezes fazia um ‘viradão’ na fábrica nas horas extras, chegávamos a produzir 7 mil peças em um dia”, revelou Rozilene.

Após ser alertada por um médico, ela pediu afastamento da função há seis anos atrás e aproveitou o tempo para concluir o curso superior. O posicionamento da empresa revoltou Rozilene, que agora luta na justiça por uma indenização. “Eles disseram que era fingimento e que eu havia me lesionado trabalhando em casa ou em outros locais. Lá, foi meu primeiro e único emprego e trabalhava o dia inteiro que não tinha tempo para mexer na casa. Como eu iria me lesionar se não fosse na empresa? Entrei com uma ação na justiça, ganhei em primeira instância, mas a empresa recorreu. Conheço muita gente que também está afastada por problemas nos braços, nos ombros, na coluna”, contou Rozilene.

Indenizações estão caindo


A briga pelo pagamento de indenizações referentes à acidentes e doenças de trabalho tem causado um acúmulo de processos na justiça trabalhista. A pendenga entre empregados e patrões nos tribunais também é grande. Segundo o presidente da associação dos advogados trabalhistas do Amazonas, Mário Souza, as questões envolvendo acidentes de trabalho são o “carro forte” dos especialistas.

O alto número de incidências fez inclusive com que a Justiça do Trabalho mudasse um pouco a forma de calcular as indenizações. “Conseguir uma boa indenização é difícil hoje. Os números são cada vez menores. Antes, uma indenização por perda de um membro como pé ou mão rendia R$ 100 mil. Hoje, o valor não chega à R$ 30 mil. A Justiça alega que o empregado não pode enriquecer às custas da empresa. Só esquecem que em alguns casos, a força de trabalho deste empregado nunca mais será a mesma”, criticou.

Outro dado revelado por Mário é a dupla função exercida por médicos do trabalho “A perícia médica é sempre complicada. Tem perito que trabalha ou trabalhou para o INSS e também presta serviços às empresas. Não há um controle”, contou Mário. O recebimento de uma indenização também demora. Hoje, a primeira audiência leva de 2 a 3 meses para acontecer. Como o lado perdedor sempre recorre, o processo só termina de ser julgado em todas as instâncias em cerca de três anos.

Auditores da SRT dizem que questão é grave


Envolvidos diariamente em fiscalizações à empresas do Distrito Industrial, os auditores fiscais da Superintendência Regional do Trabalho (SRTE) conhecem profundamente o problema dos doentes do DI.

A Crítica conversou com fiscais do setor de saúde e segurança da SRTE, que preferiram não se identificar e pode constatar a gravidade da questão. Com vários autos de infração lavrados, algumas vitórias já foram obtidas, como a melhoria na segurança das máquinas em empresas “Muitas indústrias tinham máquinas sem nenhuma proteção. Volta e meia havia o caso de acidente grave ou morte”, declarou um fiscal.

Em relação ao tratamento dado às lesões por esforço repetitivo, o conflito é bem maior. “As empresas não admitem o acidente de trabalho. Algumas adoram colocar a culpa no próprio trabalhador. Os funcionários são submetidos à uma rotina quase desumana nas linhas de produção. E na hora que algum órgão aperta as fiscalizações, as empresas apresentam ferramentas ergonômicas fraudadas, como a tal da ginástica laboral, que não tem eficácia alguma do jeito que é feita. Os médicos do trabalho nas empresas são outro problema. Muitas vezes ele faz uma campanha de alcoolismo aqui, uma sobre DST ali ou vira um repetidor de exames, mas não compra briga com a empresa por conta do alto índice de LER. Não apresentam relatórios e a gente não vê nenhuma evolução”, comentou outro auditor.

A Superintendência pretende começar a enviar relatórios para o Governo do Estado ainda neste ano para expor a situação. A intenção é instigar o Governo a pressionar as indústrias a cumprir as normas trabalhistas, sob pena de corte de incentivos fiscais oferecidos (o item é previsto no decreto 12.814-A). “O Estado tem esse instrumento legal. Sabemos da importância do Distrito para a economia local, mas o trabalhador não pode continuar sendo prejudicado como está. Algumas destas doenças são irreversíveis. É preciso também que haja uma união de forças entre Ministério Público do Trabalho (MPT), INSS, Suframa e  Seplan. Se não isso continuará sendo uma guerra de uma força só”, disse um auditor.