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Nem dores no joelho vão impedir a primeira baiana da Aparecida a desfilar na avenida

Antiga brincante recupera-se das dores após cair dentro de ônibus, mas confirma sua presença mais uma vez no desfile da Mocidade Independente de Aparecida, no Carnaval de Manaus 27/01/2016 às 09:32 - Atualizado em 01/11/2016 às 10:06
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Maria de Nazaré Spencer, a tia Nazinha ou Nêga Naza, mostra seu gingado de sambista
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Aos 80 anos de idade, Maria de Nazaré Spencer, a Tia Nazinha, a primeira baiana da Mocidade Independente de Aparecida, escola pela qual sempre desfilou nos 35 anos da agremiação, está novamente confirmada na avenida neste ano. Nem mesmo as dores no joelho direito - decorrentes de uma queda sofrida ao descer de um ônibus coletivo, em 2014 - fizeram ela desistir de representar a escola do coração. Ano passado ela desceu vestida com uma camisa da diretoria da Aparecida.

“Neste ano ainda não consegui ir a nenhum ensaio da Aparecida devido às dores no meu joelho. Mas estou confirmada para desfilar novamente”, disse ela, cujos pais nasceram em Barbados, país da América Central, sendo o país mais oriental do Caribe.

Tia Nazinha é casada com Francisco Marques de Carvalho, de 78 anos, e teve 18 filhos (8 estão vivos), 50 netos e 58 bisnetos. Moradora da rua Frei José dos Inocentes, no Centro Histórico, na infância e adolescência ela conta ter sofrido maus tratos da matriarca da família a qual havia sido entregue para criação. “A mulher que me criava me forçava a trabalhar como escrava, e chegou a me marcar com ferro quente na altura do peito”, garante ela, mostrando as marcas físicas que, hoje, são imperceptíveis.

De grande coração, ela reforça o sentimento de carinho que tem pela sua agremiação: “Sou Aparecida e amo meu bairro e minha escola de samba até a morte. No dia do desfile eu fico boa e me apresento como em todos os anos. Nem que seja em cadeira de rodas ou aonde for. E depois vou pro hospital, se precisar”. Em 2013, ela passou mal e desmaiou na avenida, foi encaminhada para um hospital e recuperou-se bem.

Carnaval das antigas

Ela brincou de Carnaval pela primeira vez aos 15 anos de idade na avenida Eduardo Ribeiro - em blocos de sujo. “Fazíamos instrumentos como o tambor e o tan-tan. Queimávamos jornais para esquentar os tambores e o xeque-xeque, e as pessoas saíam cantando. Era Carnaval. Quantas saudades desse tempo. Manaus e Manaus, né, maninho? Uma história abençoada por Deus”, lembra Nêga Naza.

Ela desceu também nas extintas Unidos da Selva e Em Cima da Hora. O Carnaval, diz ela, hoje é dinheiro e política. “Não é mais aquele Carnaval. Hoje só se vê político que joga dinheiro fora, coloca as fantasias luxuosas, etc. Pobre desce no chão com as fantasias compradas com o seu salário mínimo”.

 Guerra do passado

Nega Naza conta que ficou marcado, para ela, a rivalidade existente no passado entre as escolas de samba: “O Carnaval do passado era lindo e maravilhoso, mas era também uma guerra entre as escolas de samba Aparecida e Vitória Régia, que não se uniam. As pessoas brigavam e tinham amor e garra pela escola. E não se falava em dinheiro”.

Puxão de orelha

No alto da sua experiência de 80 anos de idade, Tia Nazinha - que já foi lavadeira e cozinheira - deu um puxão de orelha nas escolas de samba que não valorizam as baianas. “Sem elas as agremiações não são nada. Tem que dar água para elas na hora do desfile”, conta, “rodando a baiana” nas críticas.

Neste ano ela confirmou presença no Sambódromo para a alegria do Carnaval

Tia Nazinha disse que sua força de vontade tem inspiração divina: “Vem de Nossa Senhora Aparecida, Virgem Mãe, da qual tenho muita fé. Todos os dias às 3h eu rezo, e tiro um terço ao deitar também. Rezo por todos, da imprensa, autoridades, pelo meu presidente da escola Luiz Pacheco. Que Deus nos proteja. Desejo um bom Carnaval a todos e que Jesus nos abençoe. Esse é o voto da Nega Naza, baiana da Aparecida”, diz ela, dando um banho de consciência e simpatia.