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A inesquecível história do 'time de camisas 10' que fez o Brasil sonhar em 1982

Há exatos 30 anos, uma das mais dolorosas eliminações da Seleção de uma Copa do Mundo, que entrou para a história como “A Tragédia do Sarriá” 05/07/2012 às 09:41
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Ficou no quase... Sócrates Brasileiro deixou o dele
André Viana Manaus

 A palavra tragédia é definida no dicionário como acontecimento funesto, sinônimo de catástrofe e desastre. Uma definição simplória demais para os brasileiros amantes de futebol com idade que beira ou ultrapassa os 40 anos e assistiu, há exatos 30 anos, uma das mais dolorosas eliminações do Brasil de uma Copa do Mundo, que entrou para a história como “A Tragédia do Sarriá”.

Em 5 de julho de 1982, o País do futebol chorou por causa de uma derrota inesperada para a Itália, por 3 a 2, no estádio do Sarriá, em Barcelona. A partida valia a passagem para a semifinal da Copa da Espanha. Bastava um empate, contra uma cambaleante Azzurra, que havia passado da primeira fase com três empates num grupo com Peru, Camarões e Polônia (seleção que eliminou na semifinal).

Dono de uma campanha brilhante, com quatro vitórias convincentes, três na primeira fase (contra a União Soviética, Escócia e Nova Zelândia) e outra sobre o maior rival e campeão da Copa anterior: a Argentina, que também foi derrotada pela Itália por 2 a 1, a Seleção Brasileira de Zico, Sócrates, Falcão e Cia, nem precisava vencer (pois havia vencido a Argentina por um gol a mais de diferença em relação a Itália). Era uma barbada, acreditava torcida e imprensa, não só do Brasil, como do mundo - incluindo a italiana.

Para perplexidade de todos, deu Itália: 3 a 2. A derrota inesperada rivaliza com o Maracanazo (derrota do Brasil na final da Copa de 1950 para o Uruguai, e virada, quando também jogávamos pelo empate, no recém inaugurado Maracanã) e supera a perda de outro título, mais recente, para a França de Zidane, em 1998, por 3 a 0. Se não valia um título, não foi em casa, então porque a derrota para a Itália em 1982 entrou para a história como uma tragédia? As respostas para esta definição são muitas.

A existência de um carrasco (Paolo Rossi, autor dos três gols), a propagada superioridade sobre as demais seleções do mundo, a paixão que o brasileiro tem por futebol e a confiança que todos depositavam naquela seleção, são apenas algumas delas.

“Não tem como esquecer aquele jogo. Nem quando fomos tetra em cima da Itália a alegria foi suficiente para esquecer ou ‘vingar’ a derrota de 82. Talvez, os italianos tenham o mesmo sentimento em relação a nossa Seleção de 70, quando fomos tri em cima deles. Não é o resultado que nos marca, mas sim, a forma como foi conquistado”, diz o economista corintiano Marcelo Fábio Valente, que em 1982 era uma criança de 10 anos. Para a psicóloga Lígia Maria Duque,

“as respostas a estas perguntas envolvem aspectos psíquicos, somados à influência da cultura”. Segundo a doutora, que também se decepcionou com a derrota, “os fatores acima favorecem ainda mais o sofrimento e o fato de ser sentido por várias pessoas, contribui para que o sofrimento seja compartilhado e com isto, mais marcante”. O estádio do Sarriá não existe mais, a tristeza faz aniversário a cada 5 de julho.

O vilão que virou herói
 Para muitos brasileiros o nome Paolo Rossi é sinônimo de carrasco. O autor dos três gols italianos sobre o Brasil no dia 5 de junho fazia uma Copa do Mundo medíocre até entrar em campo naquela tarde no Sarriá. Criticado pela imprensa, Rossi tinha a confiança incondicional de apenas um italiano: Enzo Bearzot, justamente o técnico da Azzurra.

Não fosse Enzo o treinador, as chances de Rossi ser o centroavante da Itália eram mínimas. Não pela sua qualidade, que o “Bambino de Ouro” sempre demonstrou em sua vitoriosa carreira com a camisa do Juventus, mas por ter passado dois anos longe dos gramados por se envolver com os totoneros (grupo de atletas italianos que apostava dinheiro em resultados de jogos). 

Para azar do Brasil e sorte da Itália, a punição a Rossi acabou em 2 de maio e Enzo não abriu mão dele. E estava certo. Rossi terminou a Copa com o título e artilheiro da competição, com seis gols (os três primeiros contra o Brasil).

Lígia Maria Duque - Psicóloga

1 Futebol é movido pela paixão, então podemos afirmar que uma derrota inesperada pode ser comparada a traição amorosa?
Ao perceber o futebol como paixão nacional, a tendência é colocar os resultados positivos como compensação de sofrimentos gerados por outros eventos da vida e com isto, responsabilizá-lo pelos maiores sofrimentos vividos e sentir-se traído pelo jogadores, pelo time, pois o Brasil é o “País do Futebol”, o melhor, e só perde por uma traição e alguém.

2  É correto afirmar que o povo brasileiro só dará atenção aos gastos do governo para as obras da Copa se o Brasil perdê-la? Se vencer, tudo valerá à pena?
Em se falando de paixão, o funcionamento não muda, se você está apaixonado por alguém, mesmo que lhe digam que é um “barco furado”, você embarca. Vale tudo para que se realize a expectativa, o senso crítico não é ativado. A crítica só ocorre com a chegada do sofrimento.