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Almanaque Olímpico: Apelo por união em um mundo dividido

A Olimpíada sai do circuito Europa-América do Norte, mas o “oceano” de divergências cresce 04/06/2012 às 10:23
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Almanaque Olímpico: Atleta que acendeu a tocha olímpica: Ron Clarke (atletismo)
André Viana Manaus

Em 1956, a tensão da guerra fria começava a esquentar. Mesmo assim, o Comitê Olímpico Internacional (COI) tinha oito opções para realizar a 13ª edição do evento. No entanto, seis foram imediatamente descartadas, por um simples motivo:@ eram cidades norte-americanas (Los Angeles, Detroit, Chicago, Minneapolis, Filadélfia e São Francisco).

A disputa ficou entre duas cidades localizadas em dois continentes estranhos para os jogos:@ Oceania e América do Sul.

A divisão do COI foi grande, e, por uma diferença de apenas um voto, a cidade de Melbourne, na Austrália, levou a melhor sobre Buenos Aires. Não se sabe com exatidão se esta foi a primeira vez que o povo hermano, “chorou pela Argentina”.

Anos após Hitler querer tomar a Europa de assalto, chegava a vez do expansionismo soviético. A apenas 18 dias do começo dos Jogos Olímpicos, a União Soviética invadiu a Hungria.

Com os “donos” da “cortina de ferro” no poder, os húngaros não tiveram como cancelar a presença em Melbourne. Sorte do pugilista Laszlo Papp, que pôde sagrar-se o primeiro tricampeão olímpico da história d do boxe. Já a ginasta Agnes Keleti, compatriota de Papp, alcançou sua décima medalha olímpica em Melbourne, ao conquistar quatro de ouro e duas de prata, mas nem chegou a comemorar o feito, pois dias antes, já em território australiano, soube que o pai havia sido assassinado por soldados soviéticos, na invasão a Budapeste, capital da Hungria.

Ao término dos jogos, Keleti, que tinha 35 anos, pediu asilo político à Austrália e nunca mais pisou na Hungria. Em protesto a ocupação soviética, três nações europeias cancelaram a viagem:@ Espanha, Holanda e a Suíça. A China também deixou de ir por não concordar com a presença de Taiwan, uma ilha que reivindicava como parte de seu território. Israel só mandou três atletas em sua delegação, o suficiente para provocar o boicote de Iraque, Egito e Líbano, todos envolvidos no conflito árabe-israelense.

Os jogos de Melbourne são até hoje, os únicos disputados entre os meses de novembro e dezembro, e também o único em que uma modalidade esportiva foi realizada em outro continente. Por culpa de uma severa lei que impunha uma quarentena para a entrada de cavalos na Austrália, as provas de hipismo aconteceram em Estocolmo, na Suécia.

Curiosamente, as duas Alemanhas (Ocidental, capitalista, e a Oriental, socialista) continuavam a disputar os jogos unidas. Fato que se repetiria nas duas próximas edições (Roma e Tóquio).

A preocupação com a divisão geo-política do mundo fez um carpinteiro inglês, de descendência chinesa, John Ian Wing, escrever uma carta ao COI, solicitando uma mudança no cerimonial de encerramento dos jogos. No lugar da organizada entrada das diversas delegações no estádio olímpico, como acontece na cerimônia de abertura, ele sugeriu a entrada de todos os representantes das nações juntos, mas de maneira desordenada. O COI gostou e adotou a medida, que vigora até hoje. Por essa alteração, os Jogos de Melbourne ficaram conhecidos como os “Jogos da Amizade”.

A realidade, no entanto, não poderia ser disfarçado por simbolismo:@ os atletas podiam estar misturados, mas as nações estavam cada vez mais separadas.

O ‘canguru’ salta para o bi
A longa distância entre Brasil e Austrália fez com que o número de integrantes da delegação verde e amarela caísse. Apenas 48 atletas cruzaram o mundo rumo ao oriente. Destes, apenas um retornaria com uma medalha; e dourada: Adhemar Ferreira da Silva, que com o feito, se sagrou bicampeão olímpico.

A medalha solitária de Adhemar no salto triplo valeu a 24ª posição no ranking de medalhas ao Brasil. Ranking que teve, pela primeira vez, desde os jogos da Antuérpia, a troca da primeira posição. Os “imbatíveis” norte-americanos deixaram a primeira posição para os soviéticos, por cinco medalhas de ouro de diferença.

Em Melbourne, surgiu uma importante evolução tecnológica: os marcadores digitais para controlar os tempos nas piscinas. Quem se aproveitou disso foi o nadador norte-americano Dawn Fraser, que estreava em Olimpíadas. Ele quebrou o recorde mundial e olímpico que vigorava há cerca de 20 anos nos 100m, estilo nado livre.