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Almanaque Olímpico: Humilhado pelos humanos

Hitler consegue sediar os jogos, mas vê de perto o que não queria: somos todos iguais 22/05/2012 às 09:48
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Adolf Hitler estende a mão para o povo alemão durante a Olimpíada
André Viana Manaus

O Comitê Olímpico Internacional (COI) optou pela capital alemã, em detrimento a Barcelona, cuja escolha ocorreu em 1931. Neste ano, a nefasta figura de Adolf Hitler era primeiro-ministro do país que acolheria a décima edição dos Jogos Olímpicos. Mas, três anos antes da realização do evento, Hitler chegou ao poder, levando junto os ideais nazistas. Ao perceber que o homem que mandava na Alemanha usaria sua poderosa - e competente - máquina propagandistas para promover a tese da superioridade da raça ariana nos jogos, o COI tentou - pela primeira vez na história - retroceder na escolha.

Era tarde demais. Até uma tentativa idealizada pelos Estados Unidos de realizar, junto com os outros países que anteviam o risco que Hitler significava para o mundo, em fazer uma edição alternativa dos jogos em Barcelona, foi pensada. Mas a Guerra Civil espanhola pôs fim a estratégia. Não tinha mais jeito, Berlim, o centro do poder alemão, receberia a elite dos atletas mundiais.

O Terceiro Reich - como era chamado o “reinado” de Hitler - investiu pesado para mostrar ao mundo a supremacia da Alemanha perante outras nações. Um imponente - e belíssimo - estádio olímpico foi erguido, ao custo de U$$ 30 milhões - uma fortuna para época. O regime nazista encomendou ao idolatrado cineasta oficial do Reich, Leni Riefenstahl, um documentário, chamado “Deuses do Estádio”. Só não imaginava que muitos destes “deuses” não seriam alemães, nem tinham a pele branca e, muitos eram judeus. Todos iguais, mas diferentes, pertencentes a verdadeira raça superior que governa o mundo, com suas qualidades e defeitos: a raça humana.

Foi assim no atletismo, onde os negros norte-americanos conquistaram todas as medalhas de ouro possíveis nas provas dos 100 aos 800m (as mais notórias delas, por intermédio do velocista Jesse Owens - cuja história será publicada no CRAQUE na sexta-feira, na série Heróis Olímpicos). Também foi assim que o deficiente físico húngaro, Olivier Halassy, que teve a perna amputada por um bonde na infância, levou seu terceiro ouro seguido com a fantástica equipe de polo aquático.

Hitler foi um facínora, mas não era burro. Sabia que corria o risco de ver seus planos caírem por terra, bem debaixo do seu bigode. Antes da realização dos Jogos Olímpicos, ele ainda tentou uma manobra política, ao solicitar ao COI a troca de um membro alemão do órgão por outro. O motivo: Theodore Lewald (o membro que Hitler queria afastar) era alemão, mas judeu. Ao contrário de Hans Von Taschmmer und Osten, um alemão “puro-sangue”. O COI não aceitou o pedido, impondo a Hitler a escolha: a saída do judeu ou os jogos.

Apesar de tudo, a Olimpíada de Berlim foi um sucesso. Mais de 3 milhões de pessoas prestigiaram o evento. Os Jogos Olímpicos de 1936 também foram os primeiros a ser transmitidos por um novo veículo de comunicação: a televisão. Para poucos, mas foi.

Uma importante inovação foi introduzida nos rituais olímpicos, idealizada pela máquina propagandista alemã: o revezamento da tocha olímpica. Acesa na cidade grega de Olímpia e transportada por mais de mil atletas até a Pira, localizada no Estádio Olímpico.

O grego Spyridon Louis, primeiro campeão olímpico da maratona (em 1896, em Atenas), em plena cerimônia de abertura, entregou um ramo de oliveira (símbolo dos jogos da antiguidade) a Hitler pedindo que respeitasse a paz entre os povos. Infelizmente, de nada adiantou. Três anos depois, a Alemanha invadiu a Polônia, dando início a Segunda Guerra Mundial, cancelando as duas próximas edições dos Jogos Olímpicos (em Tóquio, 1940, e em Londres, 1944).

Brasil segue roteiro
 A delegação brasileira só soube que embarcaria para Berlim pouco antes do início da competição. Desta vez, a “culpa” era a briga entre a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e o recém-criado Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Ambos se julgavam no direito de escolher a delegação, mas o COB venceu e levou para a capital alemã a maior delegação já enviada até então: 95 atletas (89 homens e seis mulheres).

Entre os homens, um rosto que seria conhecido no mundo inteiro anos depois: João Havelange. Um belga naturalizado brasileiro, que competiu na prova dos 1.500m livres na natação. Havelange ainda dirigiria a CBD e a Fifa. Esta por 24 anos.

Apesar da quantidade, nenhum brasileiro subiu ao pódio em Berlim. Feito que nunca mais se repetiu, para o bem do povo e felicidade geral de muitos atletas. Mas foi por pouco. A nadadora Piedade Coutinho, por exemplo, só não trouxe uma medalha, por falta de sorte. Não tivesse sido contemporânea da holandesa Hendrika Mastenbroeck e da dinamarquesa Ragnhild Hveger, ouro e prata, respectivamente, consideradas, etá hoje, uma das melhores da história da natação.