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Almanaque Olímpico: Tiro de paz e de ouro

Antuérpia acolhe Olimpíada após a Primeira Guerra e Brasil participa pela primeira vez 08/05/2012 às 10:17
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André Viana Manaus

O sucesso dos Jogos Olímpicos de Estocolmo deixou o Barão de Coubertin satisfeito, mas o clima hostil entre as nações europeias não lhe agradava. Sabendo do risco iminente de uma guerra de proporções jamais vista no mundo - o que de fato aconteceu -, o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) escolheu Berlim, capital da Alemanha, o epicentro do provável confronto bélico como sede de 1916. Coubertin imaginava que o esporte seria capaz de impedir o confronto. Não foi. A Primeira Guerra Mundial explodiu dois anos antes da realização da sexta edição dos Jogos, em 28 de julho de 1914, arrastando o Velho Continente para uma sangrenta batalha, sem direito a pódio cujo único metal recebido no peito pelos “competidores” era o chumbo dos projéteis das armas.

Ao constatar a impossibilidade de ver o continente “pai” das Olimpíadas impossibilitado de acolher o já considerado maior evento esportivo do mundo, o Barão de Coubertin tentou de todas as formas evitar o cancelamento dos Jogos indicando os Estados Unidos - então fora da Guerra - para ser sede. Não deu certo. Temendo por um retrocesso e pela ausência de quase todos os países europeus da disputa, o COI rechaçou a hipótese levantada por Coubertin. E em 1915, o Barão não teve escolha: anunciou oficialmente que a sexta edição da Olimpíada estava cancelada, e com o cenário de devastação em grande parte da Europa, sem um ano específico para voltar a ser realizada.

Para alívio mundial, a insanidade da Primeira Grande Guerra acabou em 11 de novembro de 1918, e a “batalha” limpa do esporte voltaria a ser realizada dois anos depois, respeitando assim o ciclo quadrienal. A Antuérpia foi a cidade escolhida. Mas, a Bélgica fez uma exigência política (a primeira da história dos Jogos): a exclusão dos países responsáveis pelo início da Guerra, que foram derrotados no front (Alemanha - que invadiu e devastou seu território, Áustria, Bulgária, Hungria e Turquia). O COI aceitou.

Pequena, pacata e histórica, a Antuérpia fez o que pode. Infelizmente, em 1920, passado pouco mais de um ano do término da Guerra, podia muito pouco. Principalmente no quesito estrutura. Os locais de competições eram precários. A pista de atletismo conseguia ser pior do que as das primeiras edições, e as provas eram canceladas em dias de chuvas. Mas a vontade do povo belga em receber a Olimpíada foi primordial.

A população fez sua parte acolhendo os atletas em suas casas, e os ricos armadores navais da cidade doaram recursos financeiros para os organizadores. Se o dinheiro foi escasso, a Antuérpia deu uma contribuição barata e definitiva para os Jogos: a Bandeira Olímpica.

Com cinco aros (nas cores preta, azul, vermelha, verde e amarela), representando todas as nações do mundo, e não os cinco continentes como muitos acreditam até hoje, entrelaçados sobre um fundo branco representando a paz, a bela bandeira é uma tradução perfeita do espírito Olímpico. Também foi na Antuérpia que o Juramento dos atletas foi introduzido na Olimpíada.

 Paraense é campeão Olímpico
  O Brasil já havia decido participar da sexta edição dos Jogos, em 1912. Mas a Guerra adiou sua estreia. O desempenho da delegação brasileira superou as expectativas, ainda mais se for levado em conta que o País não contava nem com um Comitê Olímpico. O Brasil terminou sua participação na 15ª posição, conquistando uma medalha dourada, outra de prata e uma de bronze. Por ironia, o gigantesco país da América do Sul que não tinha participado da Primeira Guerra Mundial, brilhou no tiro.

O maior destaque foi o tenente do Exército Guilherme Paraense, que entrou para a história do esporte nacional como o primeiro brasileiro - e sul-americano - a se consagrar campeão Olímpico. Natural de Belém, mas lotado no Rio de Janeiro - então capital federal -, Guilherme venceu a prova de pistola de velocidade. A prata veio com Afrânio da Costa, na pistola livre, que também foi responsável pelo bronze, na categoria por equipe, que tinha Sebastião Wolf, Dario Barbosa e Fernando Soledade, além de Guilherme Paraense e Afrânio da Costa.

O Brasil deve o bom desempenho de sua primeira jornada Olímpica nos Estados Unidos, que emprestaram suas armas aos atletas, pois o equipamento brasileiro foi furtado durante a longa viagem até a Antuérpia.

Pela força de vontade da cidade-sede em organizar os Jogos, o legado histórico deixado por ela e o surpreendente desempenho do Brasil, não é exagero afirmar que a sexta Olimpíada foi um tiro na mosca.