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Confira a entrevista com o Bicampeão Mundial de F1, Emerson Fittipaldi

Primeiro campeão brasileiro de F-1  mostra preocupação com a categoria: ‘É preciso baratear a base para o futuro’ 17/09/2012 às 10:06
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Emerson Fittipaldi
Lorenna Serrão São Paulo

São Paulo - No dia 10 de setembro de 1972, Emerson Fittipaldi, na época com 25 anos,entrou para a história do automobilismo ao vencer o Grande Prêmio da Itália e se tornar o primeiro brasileiro a conquistar um título Mundial de Formula 1. O ex-piloto, que na semana passada comemorou os 40 anos do feito inédito, conversou com o CRAQUE, em Interlagos, na capital paulista.

Simpático, Fittipaldi, que estava no local para falar das “Seis Horas de São Paulo”, evento de corrida de longa duração organizado por ele, não se incomodou com a abordagem no meio do salão da área de imprensa e falou sobre muitos assuntos. O bicampeão mundial fez elogios a Felipe Massa, falou da emoção de ver o Neto correr e disse que o Brasil precisa urgentemente baratear a base do automobilismo, pois só assim será possível descobrir novos talentos.

No último dia 10, o Brasil relembrou, junto com você, os 40 anos do seu primeiro título mundial. Incomoda pensar que vivemos uma “seca” no automobilismo nacional, que não temos uma base consolidada, como você vê o futuro?
O preço da base do automobilismo no Brasil está muito elevado, inclusive o Kart. É preciso diminuir os custos para que mais meninos possam participar. Se a base for barateada teremos a chance de descobrir novos talentos, pois existem talentos a ser descobertos. E eles estão por aí, de repente um motorista de taxi experimenta e gosta do kart ele pode se tornar um campeão mundial. Mas para isso precisa ter a oportunidade e isso hoje custa muito no Brasil. Se desenvolvermos uma categoria de base barata teremos um futuro com bons pilotos. Mas para isso precisamos criar oportunidades.

Você acredita que a paixão do brasileiro pelo automobilismo acabou?
Falta motivação no automobilismo, a paixão não acabou, mas o sentimento esfriou, pois falta um brasileiro vencendo, aquele entusiasmo.  Eu assisti às Olimpíadas, uma cobertura completa, espetacular, mas só parava em frente à TV mesmo quando via uma bandeirinha do Brasil é o subconsciente,  ver o brasileiro com chance é um máximo.

Ainda falando sobre o sentimento dos brasileiros, em sua opinião, trazer para o País essas corridas de longa duração, que já fazem muito sucesso lá fora, é uma maneira de diversificar, é um novo caminho para resgatar os fãs do automobilismo? Ir para o Endurance talvez seja mais interessante que ir para a Fórmula 1?
Os brasileiros sempre acreditaram no automobilismo. As “Seis Horas de São Paulo” é uma atração a mais, uma atração diferente para o apaixonado pela modalidade ou para aquele que não gosta muito. É uma categoria nova no País, que eu tenho certeza de que quanto mais pessoas conhecerem, mais sucesso ela vai fazer, mas não é uma questão de substituição, como disse é uma atração a mais para o público.

Com tanta tecnologia envolvida no Endurance, você não tem vontade de dar uma voltinha, de experimentar este novo momento do automobilismo?
Não tenho vontade de dar uma voltinha, tenho vontade de dar muitas voltinhas... (risos)

Da sua época para cá muita coisa mudou. Qual a principal diferença do carro que você pilotava para os atuais?
É muito diferente, uma evolução eletrônica, hoje o piloto tem muita ajuda. Todo sistema eletrônico controla o carro, a tração. A dificuldade é organizar tudo isso na cabeça e regular um volante com vários botões. Vale lembrar que, apesar de todo esse apoio, na hora de largar em um Grande Prêmio o piloto ainda é o mais importante.

Você chegou a pegar uma época de transição, quando estava começando a mudar. Consegue se imaginar num contexto como este, com 30 botões no volante para regular?
Eu acho muito melhor você chamar o meu filho de seis anos, ele vai ser muito mais rápido do que eu, ele mexe tudo no computador, é outra geração...

Na sua época o “trabalho” era maior?
Não é diferente, são dificuldades diferentes, na minha época era mais o que o piloto sentia, nós falávamos com o carro, mas também éramos os responsáveis por tudo, assim como hoje.

Falando em Fórmula 1, os brasileiros ainda devem ter esperanças em relação ao Felipe Massa?
O Felipe melhorou muito nas últimas corridas e vai correr ainda mais este ano. O problema é que ele é agressivo, precisa desacelerar, pois consome muito pneu e a partir da metade da corrida perde a velocidade, mas ele já está se adaptando a regular o carro de forma diferente. Por isso todos nós devemos, sim, continuar apostando nele.

Você acredita que ainda existe uma pressão por conta do acidente de 2009?
O acidente nunca afetou a cabeça dele, tenho certeza disso. Ele está 100%, perfeito...

E em relação ao fato do Fernando Alonso ser um dos melhores pilotos, acredita que isso de alguma forma mexa com o psicológico do Massa

Fernando Alonso não é um dos melhores: ele é o melhor piloto do mundo. O mais completo, em todos os sentidos, de guiar e de acertar o carro... Sim, o psicológico afeta.

E o GP da Alemanha, quando não o deixaram vencer, ainda é um fantasma na vida de Massa?
Não, aquilo na minha época aconteceu varias vezes e não me abalou. Por isso acredito que também não abalou o Felipe.

E sobre as punições na F-1? Você não acha que a categoria está se preocupando demais em punir e esquecendo-se do espetáculo? Isso não atrapalha?
Eu não posso falar sobre isso, assinei um documento que impede que eu me manifeste sobre esse assunto. Mas eu tenho um julgamento. Primeiro as pessoas precisam entender que o automobilismo é um esporte de risco. Segundo, o público quer ver ultrapassagens arrojadas, se não, não tem emoção. Mas dentro da ultrapassagem arrojada e do esporte de risco você tem que respeitar o espaço físico do outro carro e quando isso não acontece cria-se um problema, pois a vida dos pilotos fica em risco. E outra coisa: nem sempre a TV mostra de fato o que está acontecendo na corrida e aí o julgamento acaba injusto.

Nenhum dos seus filhos quis saber de automobilismo, mas você tem um neto, o Pietro Fittipaldi, que foi campeão da Nascar. Como é para você acompanhar as primeiras conquistas dele?
É uma experiência fantástica, no início foi difícil, eu como avô sofri, ficava com o coração na mão mesmo, mas agora sou um analítico dele e da equipe. Vejo as corridas de uma forma mais técnica, aconselho, ouço as reclamações, isso me ajudou a separar a emoção da razão e agora consigo acompanha-lo com mais tranquilidade.

O que o piloto Pietro tem do Emerson?
Paixão. O Pietro fica 24 horas com o automobilismo na cabeça, é obcecado, tem uma preocupação em acertar sempre, é perfeccionista, quer saber de tudo, conversa com o mecânico, com outros pilotos... E eu não ensinei isso, ele faz porque quer, porque gosta, ninguém manda. E é claro, que tem também muito talento e dedicação, duas coisas fundamentais no automobilismo.

*A repórter viajou a convite da organização do evento