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Confira a entrevista exclusiva com o campeão olímpico, Esquiva Falcão

O boxeador de 22 anos é prova viva do “poder de mudança” que o esporte possui. Vice campeão dos pesos-médios (até 75 kg), o capixaba possui uma história de vida marcada pela superação 28/10/2012 às 15:18
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Esquiva Falcão conquistou a medalha de prata nos Jogos de Londres
Adan Garantizado Manaus

Ele chegou aos Jogos Olímpicos de Londres como um ilustre desconhecido. Mas voltou da capital inglesa com uma medalha de prata na bagagem e com o status de herói nacional. O boxeador Esquiva Falcão Florentino, 22 é prova viva do “poder de mudança” que o esporte possui. Vice campeão dos pesos-médios (até 75 kg), o capixaba possui uma história de vida marcada pela superação. Quando garoto, ele conheceu o boxe pelas mãos do pai, o ex-lutador Adegard Câmara Florentino, conhecido como “Touro Moreno”.

Esquiva viveu uma infância sofrida, junto com os outros oito irmãos. Ele chegou a morar nas ruas de Vitória. Aos 13 anos, o atleta começou a lutar oficialmente e ganhar destaque no boxe. Foi inclusive, convidado a treinar em São Paulo. Mas, por não ter se adaptado, acabou voltando para Vitória seis meses depois e viveu o momento mais “nebuloso” de sua vida: abandonou o esporte e chegou a se envolver com drogas.

Quando tudo parecia perdido, Esquiva recebe o convite do treinador Raff Giglio e vai morar em uma academia no Morro do Vidigal-RJ, onde reencontrou o “bom caminho”. As conquistas em competições regionais e nacionais começaram a aparecer e em 2010, surgiu o convite para integrar a Seleção brasileira de boxe e morar no modesto centro de treinamento da equipe, no bairro de Santo Amaro, em São Paulo. O CRAQUE chegou a visitar as instalações do CT de Santo Amaro e conversou com Esquiva em fevereiro, quando ele ainda se preparava para as Olimpíadas e era quase um “anônimo” para boa parte dos brasileiros. Em Londres, porém, Esquiva se apresentou seu “cartão de visita” aos torcedores da melhor maneira possível, e foi vencendo luta a luta, até chegar à final olímpica dos meio-médios, onde foi derrotado, em uma decisão polêmica, pelo japonês Ryota Murata. Diante de frustrações no atletismo, natação e futebol, a prata de Esquiva foi bastante comemorada e abriu portas na vida do lutador. Tentando conciliar as férias no Espírito Santo com a corrida agenda de medalhista olímpico, Esquiva conversou com o CRAQUE nesta semana e contou sobre as mudanças em sua vida. Ele também deixou bem claro seu novo objetivo: uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

Quais foram as principais mudanças na sua vida após a medalha olímpica, Esquiva?
Mudou muita coisa, cara. Eu fiquei mais conhecido, principalmente pelas crianças. Gosto quando elas pedem pra tirar foto comigo. Agora estou precisando até de assessor de imprensa para organizar minhas entrevistas (risos). As medalhas de prata e de bronze que eu e o meu irmão Yamaguchi ganhamos em Londres também abriram várias portas. Ganhamos até casa nova para minha família no Caldeirão do Huck. É muita felicidade. Houve alguns contatos de patrocínio, que estamos negociando. Não tem nada de certo ainda.

Antes das Olimpíadas, você acreditava que poderia chegar tão longe nos Jogos e conquistar uma medalha?
Eu acreditava muito nisso. Não fui ao Pan Americano de Guadalajara, mas no mundial de Baku, no Arjeibaijão, consegui a medalha de bronze e a confiança subiu. Saí do Brasil com a certeza que ganharia uma medalha. Ninguém acreditava que eu pudesse chegar tão longe assim e conseguir uma medalha. E eu voltei como herói. Precisamos de mais apoio, principalmente nos esportes individuais. O COB foca muito nos esportes com resultados. Só esses atletas são falados antes das Olimpíadas.

A punição que você levou na final contra o Ryota Murata (Esquiva perdeu 2 pontos) foi polêmica e você próprio tentou contestar o resultado sem sucesso. Você se considera injustiçado ou ficou frustrado com o resultado?
A prata não veio por um ponto e um erro de arbitragem. Mesmo assim, fico muito feliz pelo que consegui. Não estou triste. O futebol que recebe milhões e milhões de investimento, ganhou a mesma medalha que a minha. E isso me motiva a tentar a medalha de ouro em 2016. Não consegui ela em Londres por conta de um erro da arbitragem.

A prata olímpica em Londres não te deixa mais pressionado para os Jogos do Rio?
Sou um cara muito tranquilo. Não fico com medo da pressão. Sei que vai haver muita cobrança, mas vou treinar e me preparar como nunca. Preciso e vou fazer a minha parte e não deixarei de pensar na medalha de ouro em 2016.

Você tinha dimensão, lá de Londres da repercussão das suas lutas aqui no Brasil?
Me isolei um pouco durante as Olimpíadas. Deixei as redes sociais de lado para focar nos meus objetivos. Prefiro evitar a internet nesses momentos, pois qualquer comentário negativo pode me atrapalhar. Mas muita gente comentava comigo que o Brasil estava parando para acompanhar minhas lutas. E a ficha só veio cair depois, na hora em que eu passei a ser reconhecido e a receber vários convites para eventos importantes.

Como foram seus dias de “folga” nas Olimpíadas?
Você conheceu e tietou muitos atletas?Aproveitei os primeiros dias para tirar foto com todo mundo. Tietei Cielo, Daniele e Diego Hypólito, a turma do vôlei... Depois que eu ganhei a medalha, os outros atletas passaram a vir atrás de mim. Fiquei sem ação no dia em que o Robert Scheidt pediu para tirar uma foto comigo. Logo ele que já ganhou tanta coisa. A Maurren Maggi também fez isso, e ainda me deu dicas, dizendo que minha vida seria muito corrida após a medalha. E ela estava certa (risos).

A estrutura atual oferecida pela Confederação Brasileira de Boxe é suficiente para melhorar os resultados no Rio 2016?
A estrutura do nosso boxe não é boa. O boxe precisa de mais apoio. A Petrobras ajudou bastante nos últimos anos, mas precisamos de mais. Se tivéssemos uma estrutura de alto nível, poderíamos ter ter conquistado mais. Yamaguchi, Adriana e outros poderiam ter obtido melhores resultados 3 ou 4 medalhas de ouro. Desde as nossas conquistas, não ouvi ninguém da Confederação se pronunciar. Já recebi convites para lutar MMA ou migrar para o boxe profissional. Mas acho difícil que isso acontecer. Estou muito focado em conseguir uma medalha de ouro nos Jogos de 2016. É um sonho.


Você confessou que tinha o sonho de dar uma casa para a sua mãe, e a medalha de prata proporcionou isso indiretamente. Qual é o próximo sonho pessoal que você deseja realizar?
O Luciano Huck realizou o sonho de dar a casa para a minha mãe. Foi uma grande emoção para todos nós. E esta porta só foi aberta graças as medalhas de prata e bronze que eu e meu irmão conquistamos. Agora eu quero descobrir que mágica o ouro pode fazer. O sonho que tenho atualmente é fazer uma academia para o meu pai. Vou lutar para conseguir um galpão e montar um ringue para que ele ensine boxe às crianças carentes aqui em Serra-ES.

Você já tem alguma competição em mente para o ano que vem ?
Estou de férias mas em 1º janeiro começo a ralar de novo. No ano que vem, a principal competição de boxe será o Mundial no Arzebaijão, que acontece em junho. Vou treinar para fazer bonito nela.

Podemos dizer que o esporte mudou a sua vida?
Meu pai sempre colocou a gente no caminho do esporte. O esporte é um resumo e é tudo na minha vida. Ele é tudo para mim. As dificuldades passaram. Foram muitas coisas ruins que precisamos superar. Todos ficaram conhecendo nossa história. Acabou o sofrimento. Agora é só alegria.

E agora, como está sendo a vida de “famoso”? Dá para manter a antiga rotina?
Tá bem difícil manter uma vida normal (risos) Eu digo que não sou famoso, mas mesmo assim, as pessoas me param, tiram fotos. Muita gente diz que sou orgulho do Brasil. Sou simpático e faço questão de retribuir o carinho de todos. Estou fazendo muitos eventos em escola , a criançada sempre enlouquece. É bom ter esta sensação de se tornar um espelho para elas.