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Confira a entrevista exclusiva com Pauê

Jovem que superou uma tragédia e se tornou um campeão: ‘A deficiência não foi o fim, foi o início’ 03/10/2012 às 08:42
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Pauê é o primeiro e único surfista bi-amputado do mundo, em 2000
Nathália Silveira Manaus

Aos 18 anos, Paulo Eduardo Chieffi Aagaard, o Pauê, viu a história de sua vida tomar outro rumo. No dia 8 de junho do ano de 2000, ao ir à academia, o jovem sofreu um grave acidente:  foi atropelado por um trem quando atravessava uma linha férrea desativada em São Vicente, litoral paulista, e perdeu parte das pernas.

A tragédia transformou de forma significativa a vida de Pauê. Mas o que era para ser um drama se tornou o ponto de partida para uma vida nova.

Após dois meses internado e mais 30 dias em processo de reabilitação, ele estava pronto para começar a escrever um novo capítulo em sua história, que começaria em cima de uma prancha. 

“O trem foi uma alavanca para o mundo novo”, afirma Pauê.

Surfista desde criança, o jovem recorreu à fisioterapia,  natação e à musculação  e, após três meses de muita persistência,  não só voltou a andar com auxílio das próteses, como também a surfar, tornando-se o primeiro e único surfista biamputado do mundo.  Algum tempo depois, Pauê iniciou no triatlo (natação, ciclismo e corrida) e em 2002 tornou-se campeão mundial, categoria biamputado, numa disputa realizada em Cancún, no México. Em 2007, ele já era tetracampeão do Internacional de triatlo (2002, 2003, 2006, 2007).

 “O lado ruim do acidente foi eu perder as pernas. O lado bom é que eu estava vivo e encontrei no esporte uma forma de tratamento lúdico”, disse o atleta, que em 2009, também começou a praticar canoagem oceânica.

Atualmente, o paulista que reside em Santos e tem a oportunidade de admirar todos os dias o nascer do sol, se prepara para encarar em novembro o Superágua, projeto que realiza uma expedição do Rio de Janeiro a São Paulo, via mar através de caiaque (400 km), com duração de dez dias.  “O fato de eu poder acordar na praia é sensacional. Sinto a presença de Deus, posso refrescar a mente e praticar a canoagem e o surf que são duas coisas que adoro”, comentou o multiatleta da Baixada Santista, que em entrevista exclusiva ao CRAQUE afirmou que não segue uma religião, mas acredita em Deus. “O que importa mesmo é praticar o bem. É o fato de ser otimista e construir coisas boas. Depois de tanta tempestade na minha vida, acredito que tudo tem um sentido”, disse que o atleta que participará da feira Amazon Live Fair e ainda quer dar um mergulho no rio Negro.


O que sentiu quando conseguiu ficar pela primeira vez sobre a prancha, após o acidente?
Sensação de liberdade e ousadia. Uma aventura em cima das águas. Todo mundo deveria sentir essa sensação, indescritível.

 Quando você começou a surfar, o que foi mais difícil para  na questão de adaptação?
Bem, o equilíbrio sem dúvida, mas também a interação com o mar, saber se posicionar, olhar pra onda e identificar aonde ela irá quebrar, existem uma série de fatores que juntos, possibilitam a prática. No entanto, voltar a surfar após o acidente, foi vital. Tive que entender de que forma seria a prática, com ou sem as próteses. Mas no começo demorou bastante, pois eu à vezes afundava. Precisei lidar muito com os desafios, que apareciam a cada dia.

Como foi retornar ao local onde sofreu o acidente?
Não senti trauma nem nenhum sentimento ruim, olho para o local e lembro do fato, mas a minha aceitação de vida, fez com que o acidente ficasse somente como uma lembrança de um divisor de águas na minha vida.

Se não fosse o acidente, acha que teria enveredado por outro caminho sem ser do esporte?
Prefiro não encarar assim e não vejo dessa forma. Lidar com acidente foi extremamente  trágico, mas que gerou muitas mudanças na minha vida e me fez ter outro olhar sobre as coisas e as pessoas. O esporte foi e é essencial na minha vida, principalmente na forma em que encaro o mundo.

Você vai lançar um filme que retrata sua vida:  “O Passo de um Vencedor” . Quando podemos conferir o filme e o que o público pode esperar?
Ele vai ser lançado no final do ano (2012). Na verdade, eu não atuo, pois a história é real. Vivo apenas naturalmente e transmito no vídeo o dia a dia de uma forma bem natural. O filme retrata meu histórico de vida e, é contado por várias vozes de pessoas que são e foram importantes na minha vida. Dentre elas: Gabriel O Pensador, Carlos Burle, Picuruta Salazar, meus pais, meu irmão, amigos, maestro João Carlos Martins, Morongo ( proprietário da Mormaii) , enfim... O vídeo começou a ser gravado há 4 anos  e é do cineasta Fábio Cappellini.


Você ainda tem tempo para participar das competições em “alto mar”...
Sim, atualmente me divido entre o triatlo, surf e a canoagem oceânica. Faço diversas expedições em mar aberto. Adoro desafios. A próxima será uma vinda em dez dias do RJ até Santos via caiaque.

 Atualmente você treina, compete, faz palestra em empresas, escreve suas publicações e produz vídeos. Sendo assim, o que gosta de fazer em seu tempo livre?
Produzir vídeos e textos, conversar com minha equipe sobre ideias novas (projetos), namorar, viajar, fotografar... enfim... Como o esporte está no meu dia a dia, quando estou de folga, estou mais quieto... (sorri).

 Oscar Pistorius foi o primeiro atleta amputado a participar de Jogos Olímpicos (nas provas de 400 metros e na estafeta de 4x400). Você conhece este atleta ou acompanha o trabalho dele?
Conheço sim, exímio atleta, de performance em provas curtas de velocidade. Mas não podemos esquecer do paraense Alan Fonteles, nosso brasileiro que bateu o Oscar Pistorius nos 200 m, e vive bem perto de vocês (Belém). O Alan faz suas próteses no Centro Marian Weiss, mesmo lugar que confecciono meus encaixes de perfomance.

 Aproveitando o gancho, você conferiu as Paralimpíadas?
Sim, conferi, não todas as modalidades, mas a grande maioria. Vi a performance dos atletas e acredito que o nosso Brasil possa estar entre os quatro melhores na próxima Paralimpíada no Brasil. Para isso, é preciso que existam investimentos na classe. Hoje o para-atleta depende de condições para treinar, suas próprias adaptações, ou seja, investimentos muitas vezes maiores do que um atleta sem deficiência. Por isso, o Ministério dos Esportes, deveria investir em corpos técnicos, estruturas de treinamento e fomento ao universo paralímpico. O retorno com certeza virá, pois já é nítido o potencial que existe com a estrutura que hoje é desfrutada.

  Já passou por sua cabeça ser um para-atleta  olímpico? Que modalidade disputaria?
 Sim, cheguei a competir no ciclismo no Circuito Brasileiro Paralímpico e também na natação. No entanto, meu tipo de prova sempre foi endurance, já que venho do triatlo. Ou seja, melhor explicando, todas as modalidades isoladas são de distâncias curtas e meu forte sempre foi às provas de resistência. O triatlo é isso: natação, ciclismo e corrida, uma prova de 2:30 / 3:00 hs. O treinamento é totalmente diferente. Atualmente, venho me dedicando na canoagem. E caso, ela venha integrar nas próximas paralimpíadas, vou participar das seletivas para estar lá representando o nosso país.

 Qual foi a maior ‘onda’ da sua vida?
Encontrar meu caminho. Afinal, depois de tanta tempestade, percebi que tudo tem um sentido e as atividades que exerço vão além de profissionais. Quero fazer algo pelo meu próximo e principalmente fazer com que as pessoas acreditem em seu potencial. Se disso, através das minhas experiências, pois a minha deficiência não foi o fim de tudo, mas um novo começo.

 Você vem para uma palestra em Manaus... O que prepara para o público e será que vai dar tempo de pegar “uma onda” no rio Negro?
(Risos) Ah, vontade eu tenho. Mas dará pra remar também, e talvez até arriscar umas corridinhas e bike indoor. Vamos ver. Quanto a palestra, preparei um conteúdo em cima de “Superando Desafios”, já que todas as pessoas precisam ter um olhar global sobre os desafios. O evento  será na feira de esportes da Amazonia, o Amazon Live Fair (Manaus Plaza Shopping), no dia 5, às 9h. Compareçam.


PERFIL

Nome: Paulo Eduardo Chieffi Aagaard

 Idade: 30 anos

Naturalidade: Nasceu em Santos (SP), em 06/02/1982.

Modalidade: Multiatleta

Títulos: Primeiro e único surfista bi-amputado do mundo, em 2000 / Campeão Mundial de Triathlon em 2002/ Bronze no Pan-Americano em 2003/ Pentacampeão brasileiro de triathlon de 2002 a 2006 /Tetracampeão Internacional de Triatlo em 2002, 2003, 2006, 2007.