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Confira entrevista com o diretor médico da Fifa, no Brasil

André Pedrinelli, ortopedista, falou sobre os preparativos para o Mundial, em Manaus  19/10/2012 às 11:57
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"Ainda temos tempo até a Copa de 2014", disse André Pedrinelli - diretor médico da Fifa, no Brasil
Adan Garantizado Manaus

Despertar uma nova visão sobre a Copa do Mundo de 2014 e organizar principalmente a estrutura médica em Manaus para o evento. Com estas duas “missões”, o médico André Pedrinelli desembarcou em Manaus anteontem. Na condição de diretor médico do centro de excelência da Fifa no Brasil, o ortopedista é palestrante do 1º Congresso Integrado de Ortopedia, que acontece desde a quinta-feira, no centro de convenções do Manaus Plaza Shopping.

Durante o evento, Pedrinelli vai ajudar na montagem de uma equipe médica local, que dará suporte durante a competição e ficará “de prontidão” para qualquer emergência na Copa. O médico, porém, insiste em lembrar que o mais importante não é dar apenas este suporte durante a Copa, mas sim, manter toda estrutura funcionando para a população após a competição. O legado médico e outros pontos em que “precisamos evoluir” foram discutidos por André nesta entrevista.

Quantos médicos o senhor estima que são necessários para dar suporte durante a Copa do Mundo?
O número de médicos tem que ser proporcional ao número de pessoas que estão no estádio. Se o estádio tem 80 mil pessoas, você precisa de pelo menos 120 pessoas da área médica para fazer o atendimento no dia de jogo. A estrutura médica de uma cidade sede da Copa do Mundo é maior em dia de jogos. É preciso ter atenção com com o público, o pessoal que trabalha para a Fifa, a imprensa. Você tem que prover atenção médica para tudo isso. Num dia de jogo, você precisaria aqui, de no mínimo 60 pessoas para trabalhar nesta área.

A estrutura de Manaus é satisfatória para a Copa?
Não visitei nenhum hospital daqui ainda. Sei que já houve algumas visitas do COL aqui, mas da área médica ainda não. A formação da equipe médica local é o primeiro passo. Como Manaus não é sede da Copa das Confederações, temos tempo o suficiente para trabalhar. No dia do jogo, o que acontecer no estádio será de responsabilidade do oficial médico aqui de Manaus.

O Brasil ainda deve muito a outros países em relação a organização de eventos?
A Copa do Mundo é interessante porque ela traz alguns outros conceitos de como fazer uma boa medicina em grandes eventos esportivos. O Brasil, infelizmente, tem tradição em fazer grandes eventos esportivos, mas não os acompanha de maneira adequada do ponto de vista médico. Nós somos carentes de uma legislação federal, muitas cidades não tem sequer uma legislação municipal. A forma como os SAMUs agem, por exemplo, variam a cada localidade do país. Somos um país continental e existem muitas diferenças regionais.

Com tantos problemas de saúde pública no Brasil, não é um exagero investir tanto apenas para a Copa do Mundo?
Uma das grandes ideias de fazer um evento como uma Copa do Mundo é a questão do legado. A nossa sociedade se beneficia desses eventos depois. Se nós treinarmos melhor os nossos profissionais e organizarmos melhor os nossos equipamentos, estaremos criando uma cultura para outros futuros eventos. Se precisarmos, por exemplo, comprar mais ambulâncias para o atendimento de urgência durante a Copa, elas ficarão à disposição das cidades sedes após o evento. Se uma cidade não tem um plano de contingência para uma grande catástrofe, para ser sede da Copa, ela vai precisar montar este plano. A cultura do legado é muito mais importante do que aquele simples mês em que a Copa do Mundo acontece.

Qual o principal empecilho, em termos médicos, para ser resolvido até a Copa ?
Hoje praticamente nós somos muito escassos em relação à qual lei seguir. Nós temos o estatuto do torcedor. São Paulo e Rio de Janeiro possuem leis municipais para grandes eventos, mas, não temos uma Resolução do Ministério da Saúde que normatize o atendimento médico em grandes eventos esportivos. Hoje, um médico só pode ter registro em dois estados do Brasil. Isso quer dizer que se o mundial acontecese hoje, a equipe médica da Seleção Brasileira, que vai jogar em diversos estados, ficaria irregular já no segundo jogo.  Estas coisas terão que ser equacionadas durante este processo de montagem. A hora das discussões é essa. E o que vai ficar depois é que tudo isso vai ficar definido e montado. Vai facilitar a vida de todo mundo. Nenhum estádio hoje do Brasil possui uma sala de crise. Neste espaço deveriam ficar o responsável pela segurança, o de infra-estrutura, o médico prontos para administrar qualquer crise que aconteça no estádio.

Muito se fala sobre a evolução e a interferência da medicina esportiva na performance dos atletas. O senhor acredita que existe um limite para esta influência?
Não há um limite. O limite para desenvolvimento da medicina é o limite tecnológico que temos no momento. Vamos pegar o Oscar Pistorius como exemplo. Ele é biamputado e corre abaixo de 11 segundos. Há 20 anos atrás, se não tivesse o desenvolvimento tecnológico da prótese que ele usa, ficaria muito difícil atingir essa marca. Ele é o que é porque é um baita de um atleta. Não é campeão paralímpico apenas por uma prótese. Mas ele jamais conseguiria protelar uma vaga em uma Olimpíada se não fosse por causa da prótese. O céu é o limite para a medicina esportiva. Mas hoje, a medicina está saindo um pouco deste campo e se voltando para usar o futebol como bem de saúde pública. Quem não é sedentário, reduz em 30% os riscos de ter alguma doença cardiovascular.

Perfil
Nome: André Pedrinelli, ortopedista
Naturalidade:  São Paulo
Formação:  Doutor em ortopedia e traumatologia pela faculdade de medicina na Universidade Federal de São Paulo (USP). Especializado em educação física do desporto. Graduado em Fisioterapia pela Faculdade Zona Leste (SP)
Funções:  Diretor médico do Centro de Excelência da Fifa e coordenador do Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas