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CRAQUE entrevista a medalhista olímpica Adriana Araújo Vida

Medalha de bronze em Londres, a baiana Adriana Araújo Vida revela que a ralação continua ‘Até agora eu não recebi nada’. 09/09/2012 às 17:54
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Medalhista olímpica afirma que sua vida continua dura após olimpíadas
Paulo Ricardo Oliveira Manaus (AM)

O bronze conquistado em Londres pela boxeadora Adriana Araújo, 30, é carregado de simbolismo: foi a centésima medalha brasileira em Olimpíadas e a primeira feminina da modalidade, depois de um jejum de 44 anos sem pódio no boxe.

Contudo, a baiana ainda não conseguiu capitalizar o feito inédito de modo a lhe dar mais qualidade de vida e segurança financeira para seu plano de disputar o Mundial de 2014 em país ainda a ser definido pela Associação Internacional de Boxe Amador (AIBA), e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro dois anos depois.

Adriana continua a ganhar o que ganhava antes, não tem patrocinador novo, utiliza ônibus para se deslocar aos treinos e almoça diariamente onde o bolso lhe permite. Na prática, ela somente recebe elogios, tapinhas das costas e promessas de bonificação econômica. Nada além disso.

A medalhista é o principal orçamento na casa da família localizada no bairro de Brotas, em Salvador, onde ela vive. As irmãs Claudia Abigail e Lígia Maria são diaristas e o irmão João Paulo é cobrador de ônibus. “Eu sou o esteio da minha família”, afirma a boxeadora, que já não tem mais nem pai nem mãe e ganha R$ 2,5 mil da Petrobras, R$ 1,8 de bolsa-atleta federal e mais R$ 2 mil de bolsa-esporte do governo da Bahia.

Não é um salda mensal tão ruim assim, mas esses patrocínios são renováveis anualmente e dependem de questões burocráticas, desempenho atlético e, principalmente, de previsão orçamentária.

À espera de um bônus mais duradouro por parte do governo federal, estadual ou do próprio Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Adriana concedeu a seguinte entrevista exclusiva ao CRAQUE:

O que está faltando para as autoridades, de fato, reconhecerem o seu feito olímpico inédito com um aporte financeiro mais volumoso e seguro?

Sinceramente, eu não sei. Estou aguardando ansiosa por essa bonificação. Ainda não aconteceu nada de gratificação nem por parte do governo federal, nem do governo da Bahia e muito menos do COB. O governador Jaques Wagner (PT) me prometeu uma ajuda melhor, mas até agora nada. Eu gostaria de ter uma segurança financeira para ficar tranquila e focar meus objetivos para o Mundial e para as Olimpíadas do Rio. Não estou dizendo que está ruim. Mas eu sou o esteio da minha família. Sustento meus familiares com o que ganho, vivo só do boxe.

Na Olimpíada de 2016, no Rio, você terá 34 anos. Não seria uma idade avançada para o padrão olímpico?

Não. Minha genética é muito boa, sou bastante focada nos treinos e é muito difícil aparecer qualquer tipo de lesão. Me sinto muito bem fisicamente e psicologicamente. Eu nem aparento ter a idade que tenho. Até o Rio, vou passar por um belo teste, que é o Mundial de 2014. Vou estar mais experiente e preparada para cobrança de lutar em casa. Será uma oportunidade única para o ouro. Eu me dedico a esse esporte há 12 anos. Isso conta bastante.

Você realmente pensa em migrar para o MMA como foi noticiado pela imprensa? Quais são seus planos para o futuro?

Nada a ver migrar para o MMA. Não faz parte dos meus planos. Eu até gosto de assistir esses eventos, mas não lutar. Isso é coisa da imprensa mal informada. Eu vou continuar minha história no boxe olímpico, que acaba de me dar um bom resultado e projeção como atleta. Eu penso, sim, em investir no boxe profissional. Mas é um projeto futuro paralelo ao boxe olímpico.

Como é seu dia a dia de atleta em Salvador?

Acordo em geral às 8h a manhã, tomo meu café básico e gasto em torno de 50 minutos até chegar ao bairro Cidade Nova, onde fica a academia Champions, onde eu treino com o Luiz Carlos Dórea, quem me levou ao Dórea foi o cara que me iniciou do boxe, o Rangel Almeida. Faço duas horas de treino técnico e depois dou uma pausa. Eu almoço sempre em uma padaria próxima à academia. Lá a comida é boa e barata. Descanso um pouco e, à tarde, faço a parte física com o professor Leonardo Chamusca. Eu somente folgo no domingo.

O que você gosta de fazer para se divertir nas folgas?

Eu sou caseira. Não sou de sair muito. Gosto de fazer umas comidas em casa e chamar os amigos. Meu negócio é comida pesada, mesmo. Gosto de fazer feijoada, rabada, sarapatéu de miúdo de porco, moqueca. O negócio é pancada (risos), bem apimentado, mas é bom, tem sabor. Ninguém reclama. Sirvo acompanhado de um vinho, de leve. Quando tenho mais tempo vou ao cinema, a shows de MPB ou então ao humorístico de um cara chamado Renato Piaba. Ele é muito engraçado. Nota 10.

Você é comprometida com alguém? Depois da medalha rolou muita cantada?

Eu sou solteira. Meu foco realmente é o boxe, dar mais conforto aos meus familiares, terminar a reforma da minha casa. Mas ninguém é de ferro e, de vez em quando, eu dou uma “ficada” (risos). Mas nada sério. Eu recebo algumas cantadas, mas levo numa boa. Faz parte. Dizem que você é uma exímia cantora.

Que tipo de música que você gosta?

Gosto bastante de ouvir música. Às vezes eu me pego cantarolando umas músicas da MPB. Gosto do gênero. As pessoas chamam de Maria Gadú e também dizem que sou parecida com a Cássia Eller. Gosto da música das duas. Me acho parecida com a Cássia Eller. Hoje muitos atletas são patrocinados por clubes da elite do futebol brasileiro.

Você aceitaria um convite?

Sim. Gostaria. Se eu recebesse algum convite de clube seria ótimo, pois isso dá mais visibilidade ao atleta. Mas ainda não fui procurada. Às vezes eu participo como convidada do clube de São José dos Campos (SP) para os Jogos Abertos. Mas não é remunerado.

Você me pareceu insatisfeita com a derrota para a russa Sofya Ochigava e a perda da chance de brigar pelo ouro em Londres...

Aquele resultado de 17 a 11 a favor da russa foi equivocado. Vi e revi várias vezes a gravação do combate. Foi clara a arbitragem parcial em prol da minha adversária. É falta de experiência da arbitragem do boxe olímpico. Isso causa uma grande frustração no atleta, que leva quatro anos se preparando e, quando chega na hora da luta, é prejudicado pelos árbitros. Dá até depressão em alguns casos. Eu estou bem. Já assimilei isso tudo. Mas confesso que fiquei chateada.

Você já veio a Manaus?

Conhece algum boxeador daqui? Nunca fui a Manaus. Espero um dia conhecer a cidade. Conheci o Cássio Humberto (peso-pesado) que viajou comigo para a mundial 2005/2006 na República Dominicana.