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Em entrevista,Sandro Viana critica atletismo amazonense

Atleta reclama da falta de competições de ponta para o País, ressalta a falta de torneios internacionais e diz que o Brasil precisa mudar em relação à categoria 21/08/2012 às 10:09
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Sandro Viana 3
Nathália Silveira ---

A vida de Sandro Viana não para nunca. Como numa pista de corrida, tudo passa muito rápido. Se numa hora está em Londres representando o Brasil no maior evento esportivo do mundo, em outra já está em São Paulo.... em Manaus! Ele se dedica e vive no extremo dos segundos, onde cada centésimo é capaz de mudar a rota de seu destino.  Talvez por isso, esse “senhor da velocidade” tenha preferido não ir a London Eye, uma  roda-gigante de 135 metros considerada ponto turístico do Reino<br/> Unido.

“Ela é muita alta! A gente passa 35 minutos para completar o percurso, demora muito. Mas é linda”, contou o atleta que, desembarcando no Brasil, tem um novo desafio pela frente: desacelerar, depois de anos. Depois de retornar da capital britânica, Sandro foi direto para São Paulo resolver pendências profissionais e até o final desta semana promete: “Estarei em Manaus para descansar. Quero andar descalço e nem ver sapatilhas”, sorri.

Mas, antes mesmo de chegar à terra natal, Sandro concedeu uma entrevista ao CRAQUE  onde falou sobre sua participação nos Jogos. “Em Pequim não tive a chance de estar na abertura e no encerramento. Era uma mágoa minha, que descontei esse ano. Fui e consegui viver algo emocionante, que não tenho capacidade de explicar. Dias especiais, onde você é aplaudido e reconhecido. Lá, eu e o Bolt somos tratados com a mesma importância”.

Como você avalia a sua participação individual nos 200m (7ºlugar com21.05) e em grupo pelos 4x100m (10º lugar com 38.35) nas Olimpíadas de Londres? Era o esperado?

Os atletas deram o máximo de si. O nosso problema é apenas uma questão: nosso País está bitolado. A falta de rotina de competição internacionais está nos afetando. Devido essa falta de intercâmbio, chegamos sem ritmo as Olimpíadas, enquanto os outros atletas estão superconcentrados. Apesar da gente ter conseguido baixar nosso tempo (o melhor do ano nos 4x100m), não tínhamos como chegar com competitividade. Nosso maior erro, pois não conhecemos nossos adversários. Como vamos avaliar nossos oponentes dentro da própria Olimpíada?!  Não dá! Não temos condições de reproduzir num treino uma competição, não há como comparar. O Brasil tem que mudar isso. Vamos pegar um exemplo:  o futebol. O que adianta fazer amistosos com times fracos e ganhar, se nas competições importantes, as equipes tem um nível muito mais alto e passam por cima do Brasil?!!!

Quantas competições internacionais você participou neste ano?

Internacional participei somente de duas, uma na Venezuela e outra na Holanda.  Já nacional foram mais de 30. Se desse número metade fosse internacional, estava bom. Mas não... Os Jogos Pan-Americanos do ano passado, por exemplo. Os grandes atletas, de alto nível, não estavam lá. Por que? Pois para eles o Pan-Americano é pequeno frente as outras competições. Em novembro, enquanto a gente disputava em Guadalajara, os nossos adversários estavam treinando para ir a Olimpíada. Tem atleta que até consegue ir para uma competição internacional grande, como a de Monique, mas fica com medo de ir, de ser julgado, de perder; de se expor. O que adianta?! .... Esses, na verdade, estão criando uma falsa sensação. Estão ganhando competições, mas não dos melhores.  E se isso não mudar, continuaremos nessa maré.

O que podemos esperar do Sandro Viana agora?

Então, eu nunca tirei férias desde que comecei no atletismo (há dez anos). Do jeito que entrei, continuei até hoje, com muito esforço e dedicação. Faz tempo que não tenho para assistir uma TV, não sei nem o que  está passando no mundo hoje (risos). Assim, eu quero esvaziar a minha mente, descansar um pouco. Desde 2011, o máximo de dias que tirei foram 20. Estou precisando realmente desse tempo, para eu poder renovar e buscar coisas grandes, diferentes,  pensar no futuro e em alguns projetos.

Buscar coisas diferentes, pensar no futuro e em alguns projetos.  ... Isso dá a entender que você quer mudar algumas coisas em sua carreira. O que seria?

Eu estou com um nível muito bom nos  100m, 200m, 4x100, e 4x400. Mas percebo que tenho que mudar alguma coisa para aumentar minha energia e conquistar melhores resultados. Treino muito sozinho e sempre foi assim. E uma das coisas que quero mudar é isso. Vou implementar sparrings  nos meus treinos com atletas mais fortes que eu. Assim, terei como avaliar melhor meu desempenho e me ajustar. Preciso fazer isso!

Você disse que vai tirar férias. Quanto tempo está programando e o que deseja fazer nesse período?

Minha meta é de ficar sem fazer nada por dois meses. Ter tempo para mim, sabe?  Quero poder ficar em Manaus e andar com os pés descalços. Não quero nem ver a cor das sapatilhas (risos). Quero aproveitar e ficar com a minha família  (Sandro é pai de Milena, de quatorze anos e Lara, de 5). Fazer coisas comuns, do dia-a-dia. O meu  mundo “normal”, é repleto de barulho, gente, vaidade, quero  frear isso um pouquinho.

Em 2016 as Olimpíadas serão no Rio de Janeiro e você terá 39 anos. Nesses jogos, vamos ver você “apenas” como espectador?

Ano que vem tem o Mundial da Rússia e desejo participar. O ano de 2014 vai ser um divisor para mim, se treino, ou não treino. Se fico a descansar... Vamos vera te lá, quero focar mais no presente.

Perfil

Sandro Ricardo Rodrigues Viana  

Idade: 35 anos

Peso: 77 kg

Altura: 1,88 m

Clube:  Esporte Clube Pinheiros

Conquistas:  Ouro no revezamento 4x100 no Pan do Rio. Bicampeão no Pan de Guadalajara. Recorde pessoal nos 200 m: 20.32 - 22/05/2008, São Paulo-SP, quando venceu o  GP São Paulo Caixa. Tem 10.11 nos 100 m, feito em Bogotá em 2009.

 Frase

“Alemanha, Cuba e Estados Unidos já me convidaram para correr. É algo a se pensar, quero expandir meus horizontes e quem sabe isso não faz parte dos meus projetos?

Sandro Viana