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Entrevista com o técnico do Princesa do Solimões (AM)

Aderbal lana fala sobre o desafio de levar o time à final do primeiro turno do Campeonato Amazonense 06/03/2012 às 09:59
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Técnico Aderbal Lana durante jogo entre Princesa e Penarol
André Viana Manaus

Aconteça o que acontecer, daqui a duas semanas, na final da Taça Amazonas, primeiro turno do Campeonato Amazonense, o mais vitorioso dos treinadores em atividade no futebol estadual já garantiu mais um capítulo dourado na sua história. Ao conseguir classificar o modesto Princesa do Solimões, de Manacapuru, para a decisão contra o Nacional (posição que o time da Terra da Ciranda não alcança há 15 anos), Aderbal Lana calou a boca dos críticos e da fanática torcida do Penarol, em pleno Floro de Mendoça, que dava como certa mais um confronto com o Leão da Capital numa final de do primeiro turno.

Nascido na cidade de Uberlândia (MG), há 65 anos, Aderbal Lana já passou por vários times pelo Brasil, mas é conhecido nacionalmente pelo trabalho que exerce no futebol amazonense, onde teve o apogeu à frente do São Raimundo, na segunda metade da década de 1990. No Tufão da Colina, Lana conseguiu se sagrar tricampeão da Copa Norte e conduziu o time azul-celeste à Série B do Brasileirão.

Sua coleção de títulos estaduais é grande. Só de Campeonatos amazonenses, Aderbal Lana tem sete. A entrada do Século XXI não trouxe sorte ao treinador. Seu último e único título conquistado no terceiro milênio foi o tri da Copa Norte. Mas a escassez de títulos pode estar prestes a terminar. Para que isso ocorra, ele terá que manter a hegemonia do futebol baré no interior do Amazonas. Se isso acontecer, o município de Manacapuru será mais um a adotá-lo como filho.

Apesar da fama de ranzinza, Lana sempre foi solícito com a imprensa e com os torcedores (que o tratam com educação, claro). Seja nas vitórias ou nas derrotas, ele atende o telefone com o mesmo tom de voz. No princípio, um pouco desconfiado, depois o papo flui com naturalidade. Ao contrário do que é comum no futebol, Lana não faz tipo. Ele é o que é, e ponto final. Ao contrário da maioria dos mineiros não fica em cima do muro e fala sobre qualquer assunto, sempre acendendo um cigarro atrás do outro.

Para quem trabalha na imprensa esportiva baré Lana é um personagem enriquecedor. Como se diz na linguagem jornalística: “Uma pauta e tanto”. Por tudo que representa para o futebol amazonense, e por conhecê-lo bem, a torcida nacionalina sabe que o time não terá moleza pela frente na final do primeiro turno, pois o Velho Lobo está de volta, agora vestido de Tubarão. “Olha lá o que você vai escrever aí, André. Vou comprar o jornal para conferir”, disse Lana ao melhor estilo Lana, ao final da entrevista exclusiva para o

CRAQUE.

Quando você assumiu o Princesa achava que o time tinha condições de chegar à final do primeiro turno?
Toda vez que assumi uma função, quis chegar longe. Tivemos alguns problemas no início do trabalho. Cometemos alguns erros na contratação de jogadores, admito. Tanto que tivemos que reformular o elenco, que ficou enxuto, mas com um bom nível técnico.

Em qual partida você percebeu que o time tinha condições de ir longe?
Quando nós perdemos de 2 a 1 para o Penarol (na quarta rodada, em Manacapuru). Pois perdemos jogando bem, desperdiçando pênalti e tudo. Neste jogo vi que nosso elenco não devia em nada para os outros, que não somos inferiores a ninguém. Trabalhamos o tempo todo para terminar a primeira fase entre os quatro primeiros, que era o que interessava. Depois eu sabia que seria outro campeonato. Outra história.

Qual o segredo do Princesa?
A união e o trabalho. Passamos as nove rodadas da fase de grupo com pouco espaço na mídia, que só dá valor para quem está na frente. Focamos o trabalho priorizando a parte técnica, os fundamentos. Deixamos a parte física para depois. Invertendo o que é de costume. Nós sabíamos que com o desenrolar da competição o condicionamento físico viria, como de fato aconteceu.

Estar na final do primeiro turno já pode ser considerado um título para o Princesa?
Não, de forma alguma. Nosso objetivo sempre foi conquistar uma vaga na Copa do Brasil do próximo ano. Agora, só falta dois jogos para que isso aconteça.

O Princesa já foi vice-campeão amazonense em duas oportunidades, chegou a vez do Tubarão?
Espero que sim. Estamos trabalhando para isso. Pena que a torcida do Princesa não esteja nos apoiando. Os jogos realizados em Manacapuru não tem tido a presença de público que gostaríamos. Sofro muita pressão lá. Eles pensam que sou Deus, que vou ganhar todos os jogos, e não é assim. A pressão é tanta que até pensei em sair do Princesa, só não saí por causa do Rafael (Mady, diretor de futebol do Tubarão). Não fosse ele, eu não estaria mais em Manacapuru

O Luis Augusto Mitoso (presidente do Nacional) disse, após a vitória sobre o Fast, na outra semifinal, que aquele jogo foi a final antecipada. O que você acha dessa declaração?
Acho que o Mitoso está certo. Com o dinheiro que ele tem, ele tinha que ser campeão todo ano. Nosso gasto mensal com o futebol é de R$ 50 mil. Esse valor só dá para pagar o salário de uns três ou quatro jogadores do time do Nacional. O Mitoso está corretíssimo.

Eliminar o Penarol em Itacoatiara, teoricamente é mais difícil do que vencer o Nacional?
Acho que sim. Pelo retrospecto do Penarol em Itacoatiara é muito complicado vencê-lo lá. Mas isso não significa que vamos derrotar o Nacional. A teoria fica de lado quando a bola rola.

 No primeiro jogo contra o Penarol, você bateu boca com o zagueiro Juninho, que acabou deixando o clube. Temeu que este episódio atrapalha-se o ambiente do elenco?

Sinceramente, não. O Juninho é um jogador que eu tenho um grande respeito. Mas é um jovem que perdeu a cabeça e agiu de maneira intempestiva quando eu o saquei do time vinte e poucos minutos após ele ter entrado em campo. Quando ele saiu, eu vi que ele estava descontente e fui conversar com ele, explicar a razão de eu tê-lo sacado, mas ele não quis ouvir. Iria contar que a presença dele em campo não tinha mais necessidade por conta das alterações feitas pelo Penarol. Ele não tinha mais função tática no jogo. Mas ele não entendeu e quis partir pra cima de mim. Teve até que ser contido pelo Máximo (goleiro reserva). Eu não tenho medo não. Não tenho medo de ninguém. Não é porque tenho idade que vou ficar com medo de marmanjo. Depois, quando ele (Juninho) esfriou a cabeça, veio me pedir desculpa, mas aí já era tarde. Ele usou como justificativa um problema pessoal que está atravessando, me disse que a mulher dele está grávida. Bom, agora ele tem dois, pois a mulher está grávida e ele desempregado.

 O Lana de hoje está mais calmo do que o Lana de 15 anos atrás?
Sem dúvida. Com o passar dos anos você vê que não vai mudar o mundo. Um dos meus maiores erros foi colocar o idealismo na frente de tudo. Eu queria mudar o rumo do futebol amazonense, queria fazer ele evoluir, mas só encontrei um aliado nessa jornada, que foi o Ivan Guimarães (ex-presidente do São Raimundo e hoje diretor de competições da Federação Amazonense de Futebol). Hoje, não quero mais me estressar com isso. Penso apenas em seguir fazendo minha parte. Como costumo dizer: a Internet foi feita para pesquisar, os livros pra consultar e a cabeça para pensar. E a minha pensa muito.

  Trabalharia com um dirigente que o proibisse de fumar?
Não, de jeito nenhum. Porque o mesmo direito que ele tem de não fumar, eu tenho de fumar. Eu respeito as Leis, não fumo em locais proibidos, mas no meu cantinho, na beira do campo, eu fumo. É um direito que eu tenho. Não preciso de autorização de ninguém para fumar, ora. Não forço ninguém a fumar, então não quero que ninguém venha me aporrinhar para eu parar de fumar.

  O mundo politicamente correto te deixa entediado?
Sim, e muito. Penso que cada um deve viver sua vida, pensar de sua maneira, sem intervir na vida dos outros. Cada pessoa tem seus poderes, respeitando sempre o direito dos outros.

Você assiste quantos jogos de futebol por semana?
Da Seleção Brasileira nenhum. Porque se você assiste um jogo desta Seleção você desaprende tudo que aprendeu sobre futebol na vida. Também não gosto de assistir o futebol carioca. Vejo alguns do Botafogo porque um dos meus filhos, o Yorran, torce pelo clube. Eu gosto mesmo é de ver os jogos da Série A-2 do Campeonato Paulista, lá tem jogadores com vontade de vencer no futebol.

Qual foi sua maior alegria no futebol?
É saber que estive presente nas maiores alegrias do futebol amazonense. É saber que mesmo quem não gosta de mim um dia bateu palma para o Aderbal Lana num estádio de futebol aqui no Amazonas.

 E a maior decepção?
Foi a derrota do Nacional para o Cristal (AP) na Série D de 2009. Até hoje não entendo o que aconteceu naquela partida. Sinceramente, eu não sei explicar como perdemos aquela partida, por 4 a 2, de virada, no segundo tempo, após estarmos vencendo por 2 a 0, no intervalo. Ainda penso naquele jogo. Vez por outra tenho pesadelos com ele. Foi inexplicável.

 Qual o jogador mais inteligente com quem já trabalhou?
Vou citar dois: o Marcelo Araxá (ex-centroavante do São Raimundo) e o Edu (ex-ponta esquerda do Santos, que atuou com Pelé, e foi jogador de Aderbal Lana no Nacional). Os dois eram acima da média.

 Quem você pode citar como exemplo de talento desperdiçado?
Também vou citar dois. O Bazinho, que é um jogador que tinha tudo para brilhar, mas que hoje está desempregado. Ele (o Bazinho) tinha velocidade, habilidade e sabia fazer gols. Uma pena. O outro é o Delmo, que teve uma carreira brilhante no São Raimundo, mas que poderia ter jogado em qualquer time grande do Brasil. O Delmo teve vários convites, mas preferiu ficar em Manaus.

 Como você se auto-define?
Sou um cara simples. Honesto, trabalhador, transparente... Procuro transmitir segurança para a família e para meus jogadores. Não me preocupo com aparência, mas com valores. Nunca fui e nem serei um cara vaidoso. Já plantei uma árvore que foi minha família. Sou feliz.