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‘Estamos na estaca zero para a Copa’, diz Carlos Alberto Torres

Transparente, capitão do tri mundial em 1970 solta o verbo sobre vários assuntos 08/07/2012 às 18:01
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Ex-lateral direito teve a honra de levantar a taça Jules Rimet na conquista do tri mundial no México, em 1970
André Viana Manaus (AM)

Carlos Alberto Torres dispensa apresentação em qualquer parte do mundo onde se aprecia futebol. Nome certo em qualquer seleção entre os melhores jogadores de todos os tempos, o ex-lateral direito, que teve a honra de levantar a taça Jules Rimet na conquista do tri mundial no México, em 1970, e marcar o último gol da maior goleada em uma final de Copa do Mundo - 4 a 1, sobre a Itália -, concedeu uma entrevista exclusiva para o CRAQUE na tarde de quinta-feira. Com sua costumeira transparência, não fugiu de nenhuma pergunta. Falou sobre a mística do Fla-Flu com o conhecimento de ter vestido as duas camisas, sobre o trabalho do técnico Mano Menezes - ao qual não poupou críticas -, sobre a Copa do Mundo no Brasil e deu uma declaração de amor a Manaus.

Você considera o Fla-Flu o maior clássico o Brasil?

Não digo que é o maior porque o futebol brasileiro é cheio de outros grandes clássicos. Mas é um jogo especial, quanto a isso não há dúvida. O Fla-Flu é um clássico charmoso.

 Você atuou pelos dois clubes, tem preferência por um?

(Risos) Não, não tenho, mesmo porque sou torcedor do Botafogo, mas tenho um grande carinho pelas duas camisas. Comecei minha carreira no Fluminense, mas não joguei muito tempo lá. Sai logo e voltei já veterano. Pelo Flamengo também joguei por pouco tempo, menos até do que pelo Fluminense.

Qual foi seu Fla-Flu inesquecível, como jogador e como técnico?

Como jogador foi a final do Carioca de 1963. Estava começando minha carreira ao lado de jogadores consagrados como Castilho, Pindaro, Pinheiro, entre outros. Apesar de termos perdido o título, pois o jogo terminou empatado em 0 a 0, e o Flamengo jogava pelo empate, foi a coisa mais linda ver aquela multidão de quase 200 mil pessoas no Maracanã (a partida detém o recorde de público envolvendo clubes brasileiros, com 194.603 presentes, e aconteceu no dia 15 de dezembro). Já se passaram 49 anos e eu me lembro de tudo naquele dia. Como treinador, o meu Fla-Flu inesquecível foi o do bicampeonato carioca de 1984, com aquele gol de Assis de cabeça sobre o Fillol.

Aponta favorito para o Fla-Flu de hoje? Arrisca um placar?

É inegável que o Fluminense é melhor. O Flamengo não tem jogado bem, mas está numa boa posição na tabela. E favoritismo em clássico não existe. Mas, não sou de ficar em cima do muro, anota aí: Flu 2 a 0.

Como analisa o trabalho do técnico Mano Menezes?

Eu tenho minhas restrições ao trabalho do Mano Menezes. Acho ele um bom treinador, um sujeito bacana, já estive com ele em algumas oportunidades, mas não sou amigo dele. Mas, não há dúvida que o trabalho dele à frente da Seleção poderia estar num estágio mais avançado. A torcida brasileira não conhece o time, e quando isso acontece é porque as coisas não estão caminhando bem. O pior é que já se passaram dois anos de Mano na Seleção e não vemos evolução. Agora, ele vem dizer que o trabalho está focado na Olimpíada, ora, se é assim então porque ele convocou tantos jogadores de idade avançadas e outros sem condições de vestir a camisa do Brasil? Seleção não é lugar de prestar homenagem a jogadores e nem de testar, Seleção é momento. Argumentar que um jogador merece vestir uma vez a camisa da Seleção por serviços prestados a um clube para mim é favor. Uma vez o Mano deu uma entrevista se orgulhando de ter testado mais de 70 jogadores? Aí eu pergunto: o Brasil tem 70 jogadores com condições de vestir a amarelinha? Claro que não. Não é que temos problemas nessa ou naquela posição: nós não temos time. É Neymar e mais 10.

Acha preocupante o fato do Brasil estar na 11ª posição no ranking da Fifa a dois anos da Copa do Mundo no País?

Acho vergonhoso e inadmissível. O Brasil tem a obrigação de figurar sempre entre os três primeiros colocados. Isso mostra o total desprestígio em que nos encontramos.

Pelo que vimos na Eurocopa, e pelo momento dos nossos maiores rivais sul-americano (Argentina e Uruguai), o Brasil precisa subir quantos degraus para se aproximar das principais seleções?

Precisamos subir um prédio inteiro (risos), e um prédio alto. Não conseguimos mais vencer seleções de ponta. Falta só um ano e meio para a Copa, digo isso porque os últimos seis meses servem apenas para ajustes e não temos nada. Estamos na estaca zero. As melhores seleções europeias estão prontas, terão pequenas mudanças para 2014. O mesmo acontece com o Uruguai e a Argentina.

Gostou da convocação do Mano para a Olimpíada?

É um bom time, mas tinha que estar jogando junto há mais tempo.

Qual jogador brasileiro merece usar a braçadeira de capitão da Seleção?

Essa resposta é fácil, é o Thiago Silva. Não tem outro.

Acha que corremos o risco de ver outro Maracanazo?

Não haverá Maracanazo porque o Brasil não é favorito à conquista, ao contrário da Copa de 1950, quando tínhamos um time bem melhor do que o Uruguai. Em 2014, no panorama que temos agora, chegar à final já será um feito. A imprensa e o povo tem que parar com essa história de que o Brasil tem que ganhar todas as Copas, não é assim que funciona. Existem vários times na nossa frente e o tempo é curto. Claro que pode acontecer mudanças e o panorama mudar. Mas eu acho muito difícil. O título é a consequência de um trabalho de longo prazo.

O último jogo do Brasil antes do embarque para o México em 70 foi em Manaus, e você ainda atuou aqui pelo Cosmos, foi até expulso de campo. Que lembranças tem da cidade e como enxerga o péssimo momento do futebol do Norte do País?

Além destes jogos, eu estive em Manaus outras vezes. Adoro Manaus e creio que a cidade será uma das mais beneficiadas com a Copa. Ela será descoberta pelos estrangeiros e brasileiros também, e seu destino vai mudar após a Copa. Muitos criticaram a escolha dela em lugar de Belém. Concordo que o Pará tem mais tradição no futebol, mas Manaus é muito desenvolvida e tem um potencial turístico que precisa ser conhecido por mais gente e explorado. Se as autoridades souberem aproveitar, Manaus vai crescer muito. Quanto ao futebol, fico na torcida para que o Norte volte ao cenário. Mas isso só vai acontecer com a ajuda da iniciativa privada. Quem sabe a Copa não impulsione isso também?

Perfil

Carlos Alberto Torres

Idade:  68 anos

Naturalidade:  Rio de janeiro

Altura:  1,82m

Peso:  76Kg

Posição: Lateral-direito

Títulos (jogador): Copa do Mundo de 1970, Carioca (64, 75 e 76), Recopa (68), Brasileiro (65 e 68), Paulista (65, 67, 68, 69, 73), Rio-SP (66).