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Esportes
MUDANÇA RADICAL

Ex-chefe do tráfico sonha em brilhar como lutador de MMA no Rio de Janeiro

O amazonense Taffarel Brasil trocou o “dinheiro fácil’ do crime pela dura vida de um lutador iniciante. Ele quer ser conhecido mundialmente 25/01/2017 às 08:43 - Atualizado em 25/01/2017 às 09:59
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Em novembro do ano passado, Taffarel conquistou o cinturão dos leves no evento ‘Victory in War’ e defenderá seu título no mês de abril (Foto: Acervo pessoal)
Wal Lima Manaus (AM)

O amazonense Taffarel Brasil Ribeiro, 21, sonha em se tornar um dos maiores lutadores de MMA do país. Treinando no Rio de Janeiro há 11 meses, ele já acumula duas vitórias e uma derrota em seu cartel, mora na academia onde treina e dá aulas em um projeto social. Parece até que você já leu ou ouviu esta mesma história com outros lutadores, não é verdade? Mas Taffarel é especial e tem algo que o faz um personagem raro, quase que exclusivo no país.

Há dois anos, o esporte estava longe de ser sua principal ocupação. Taffarel era chefe do tráfico no bairro Nossa Senhora das Graças, na zona Centro-Sul de Manaus e levava uma perigosa vida entre ostentação, crimes, ameaças de morte e prisão. O lutador fala abertamente sobre seu passado. Além de vencer honestamente na vida, ele deseja servir de exemplo para que outras pessoas que estão na criminalidade reflitam sobre seu destino e possam evitar um final trágico.

Taffarel cresceu no Beco do Macedo, dentro do bairro Nossa Senhora das Graças. Ele teve seu primeiro contato com as artes marciais aos 12 anos. Aprendeu karatê, jiu-jítsu, boxe e muay thai. Suas habilidades se destacavam entre os demais. E acabaram despertando a atenção do mundo do crime. Quando completou 15 anos, o jovem recebeu e aceitou um convite dos traficantes do bairro para se tornar o cobrador oficial de dívidas da boca de fumo. “Eu era ‘batedor’ e meu trabalho era ameaçar e dar um jeito nas pessoas que não pagavam as dívidas de droga. Foi assim que comecei a ganhar dinheiro”, relembra.

Ascensão e queda

Devido ao sucesso nas ruas e nas cobranças, não demorou muito para lhe surgir uma nova proposta tentadora: vender drogas. De início, foram cinco quilos. Quando viu que podia ganhar muito dinheiro, ele se jogou de corpo e alma no tráfico e mesmo muito jovem, conseguiu chegar à liderança de uma das “bocas” mais concorridas do Beco do Macedo, tornando-se um dos cabeças do narcotráfico do bairro. “Cheguei a ganhar muito dinheiro dos meus 15 aos 20 anos de idade. Faturava em torno de R$ 5 mil por semana com o tráfico. Vivia em festas, rodeado de mulheres,  em muitas curtições e orgias. Posso dizer que meu passado se resume em sexo, drogas e rock and roll”, declarou o lutador.

Entretanto, os benefícios do tráfico um dia cobram uma conta altíssima. Taffarel passou a criar rivalidade com outros criminosos. Seu ponto de drogas virou alvo de disputa. Em outubro de 2014, o lutador foi alvo de uma emboscada que quase tirou a sua vida. Ele resolveu se refugiar em Presidente Figueiredo até as coisas se acalmarem. A “Terra das cachoeiras” acabou virando seu novo ponto de tráfico. A nova aventura, porém, durou pouco tempo. No dia 19 de outubro de 2014, Taffarel foi denunciado, preso e passou alguns meses trancado na cadeia do município. 

Uma nova vida

Os dias difíceis atrás das grades  fizeram Taffarel pensar. Ele finalmente percebeu que o dinheiro fácil que ganhava no tráfico era pura ilusão. “Quando vi centenas de pessoas presas assim como eu, entendi que toda aquela grana era suja. Por mais que eu tivesse mulheres, festas e outras coisas, meu fim sempre seria aquele: preso em uma cela superlotada, em um local onde a violência imperava. Fiquei transtornado e entendi que aquilo não era o que eu queria para minha vida”, destaca Taffarel.

Ele ganhou a liberdade no fim de 2014, poucos dias antes do Natal. E foi na virada do ano que tudo mudou na vida dele. “Quando começou o ano novo de 2015, eu vi que queria algo novo pra minha vida. Cheguei a sofrer ameaças, assim como meus filhos, minha esposa e outros parentes meus. E temi pela vida deles. Saí de vez do mundo que deixou muitas cicatrizes na minha alma”, desabafa.

Mesmo com o envolvimento criminal, Taffarel nunca deixou de lado a paixão pelas artes marciais. Inspirado pelo seu grande ídolo, o campeão dos penas do UFC, José Aldo, ele foi para o Rio de Janeiro em busca de um recomeço. “O Rio é um dos maiores polos do MMA do mundo e forma grandes campeões. Assim como o Aldo, quero um dia chegar até o UFC, e me tornar um campeão dos octógonos”, disse o lutador regenerado pelo esporte.

Resgatando vidas

Taffarel desembarcou no Rio de Janeiro no ano passado, na companhia da esposa Desirée Mel. De início, ele foi morar na favela Vila Catiri, em Bangu. Lá, no entanto, o mundo do crime cruzou novamente o seu caminho. Mas, ele soube optar por um novo destino. “Os traficantes que comandam a área perguntaram o que eu ia fazer lá. Eu disse a verdade, que queria treinar e me tornar um campeão de MMA. Eles entenderam a situação. Acabei sendo indicado ao mestre Nael Pedra, que atualmente é meu técnico e empresário”, conta o amazonense.

Taffarel e Desirée se mudaram para a academia Team Nael Pedra, que também fica em uma comunidade na região de Bangu. Em troca da moradia e dos treinos, ele cuida da limpeza da academia e dá aulas de muay thai e kickboxing sem cobrar nada.

Taffarel também virou professor do projeto “Resgatando Vidas” na Vila Kennedy, que trabalha com crianças da comunidade carente. No MMA, ele ganhou um apelido sugestivo e virou Taffarel “Índio” Brasil.

Lutador da categoria peso leve (até 70 kg), ele é tratado como uma das maiores promessas da academia. No mês de abril, ele será uma das principais atrações do evento “Victory in War”, considerado um dos maiores campeonatos da Zona Oeste do Rio. Taffarel defenderá o cinturão dos leves da franquia, conquistado em novembro do ano passado. “Quero honrar meus familiares com mais uma conquista. É neles que penso todas as vezes que subo no octógono”.