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Ex-presidente da CBAt, Roberto Gesta, fala sobre o legado que deixa depois de 26 anos

Do seu ilustre museu olímpico, situado em sua residência, na zona oeste de Manaus, Gesta lembrou os principais desafios que enfrentou em mais de duas décadas a frente da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) 23/03/2013 às 18:06
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Roberto Gesta guarda com carinho recordações de várias Olimpíadas
Bruno Tadeu Manaus (AM)

A entrevista nem precisou começar para Roberto Gesta antecipar a sensação de ter deixado uma das mais influentes entidades do esporte brasileiro após 26 anos como o principal gestor: alívio. Do seu ilustre museu olímpico, situado em sua residência, na zona oeste de Manaus, ele lembrou os principais desafios que enfrentou em mais de duas décadas a frente da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt).

Ao longo da carreira, Gesta foi presidente das federações amazonenses universitária de desportos, de voleibol, tênis de mesa e atletismo, da Confederação Sul Americana de Atletismo e da Associação Ibero-Americana de Atletismo, além de vice-presidente da Confederação Brasileira de Voleibol, antes de assumir a CBAt. Com essa vasta experiência, ele também apontou o que deve ser feito para que o atletismo atinja um patamar ainda maior no gosto da população brasileira. E, claro, da amazonense.

Como você tentou tornar o atletismo um esporte mais atrativo e com mais credibilidade no Brasil?

Primeiros nós procuramos criar uma série de eventos importantes no País. O Troféu Brasil vem sendo realizado desde 1945, mas nós tornamos atrativo, significativo. Ele passou a ser seletiva para torneios internacionais, como campeonatos mundiais, jogos olímpicos, e definir seleções. Buscamos aprimorá-lo para procurar o público. Nós precisávamos muito da imprensa, principalmente da televisão. E logo no primeiro ano conseguimos uma parceria com uma TV, que permanece até hoje. Ela segura essa visibilidade, que é fundamental para o atletismo. Nós passamos a criar programas de jovens talentos, para corredores de rua, treinadores, federações. Criamos os heróis olímpicos; convidamos todos os medalhistas olímpicos a participar de um projeto em que eles visitariam áreas de risco, escolas, centros comunitários, mostrando o exemplo de vida deles para resgatar jovens em situação de risco para a cidadania plena. A história de cada um dos nossos heróis é extremamente impactante porque eles partiram de camadas mais desfavorecidas da população para o apogeu e mantiveram o mesmo senso de humildade, de companheirismo. No estatuto da confederação – ela é a única que faz isso – os atletas olímpicos votam em igualdade de condições, inclusive os principais clubes, as associações de treinadores e árbitros. Então, o colégio eleitoral estendeu-se por todos esses campos.


Qual a sua perspectiva dessa nova era do atletismo, sob novo comando e provavelmente com novos atletas?

Os nossos mandatários da confederação têm uma competência muito grande. O dirigente máximo da federação paulista, que é o carro chefe não só do atletismo, mas do Brasil em todos os aspectos. O vice-presidente foi presidente até há pouco da entidade pernambucana. Eles sabem conduzir muito bem o destino na confederação. É um esporte muito complexo, o atletismo. É a reunião de centenas de modalidades diferentes. Cada um exige um profissional especializado, implementos, locais adequados para treinamento e competição. Uma pista de atletismo é muito cara, as sapatilhas são caras. Os suportes, os sarrafos, as barreiras, os obstáculos. O dardo, por exemplo, tem que ter um de cada distância, que custam US$ 1 mil, US$ 2 mil, US$ 3 mil, os melhores. Cada atleta de salto com vara tem de 10 a 15 varas, para cada altura é uma vara diferente e às vezes o material quebra e tem que ter vários tipos.

Como a CBAt trabalhou para proporcionar materiais adequados aos atletas de talento no Brasil?

Com muito sacrifício. Às vezes passo a lembrar o passado e não sei como chegou aqui. Tanto esforço, tanto sacrifício... A minha família foi muito relegada a isso, envolveu-se a isso sem receber qualquer remuneração. Houve momento em que meu pai e eu tivemos que colocar recursos substanciais porque, de outra forma, não conseguiríamos. E ai nós tivemos a sorte a competência também de conseguir pessoas que nos apoiassem. Uma pessoa fundamental nesse processo foi o ex-governador Amazonino Mendes e o prefeito Artur Virgílio. Em determinados momentos, eles ajudaram muito na obtenção de patrocínios e na concessão de recursos locais para que o atletismo progredisse. Houve momento em que não havia nenhuma pista do Brasil em que se pudesse realizar uma competição. Houve apoio de outros políticos, mas o Amazonino praticamente fez a Vila Olímpica, que se tornou o maior centro de treinamento do mundo.

Quais foram as principais dificuldades que você teve durante esses 26 anos a frente da CBAt?

Primeiro a financeira. Depois, no País do futebol, é conseguir impor uma modalidade que era praticamente desconhecida. O atletismo é o carro chefe dos jogos. Qualquer outra modalidade pode entrar e sair das Olimpíadas. O atletismo não. É uma modalidade extremamente nobre e cabia a nós fazer dela também assim considerada no Brasil. Felizmente, eu creio que em grande parte nós conseguimos realizar nossos objetivos.

Qual o momento mais marcante nesses 26 anos de gestão?

A luta diária. Era enfrentar um leão a cada dia. Nós íamos adicionando com uma coisa a mais desse arcabouço que vinha sendo construído. Houve retrocessos, perdemos patrocínios, mudança políticas, os novos mandatários não entendiam o valor do esporte... Até que com o governo Lula as estatais passaram a patrocinar as diferentes modalidades de uma forma realmente com continuidade.


A que ponto a falta de uma política para o esporte no Brasil atrapalhou e atrapalha a confederação?

O Brasil não tem política para o esporte. Esse é um grande problema. Há desperdícios. Não se sabe quem promove a iniciação, o alto nível. O ministério, agora, sob a direção do ministro Aldo Rebelo está procurando encontrar uma solução para isso. São problemas de décadas, então não é de um momento para o outro que teremos uma mudança dessas. E há um líder desportivo tentando mudar esse cenário, que é o doutor Carlos Artur Nuzman. Ele, sem dúvida, é o grande responsável por ter atingido esse patamar atual. Mas, temos dificuldades inerentes a um país que, além do esporte, nas atividades humanas, também não tem muito definidas as suas metas.

O que poderia explicar o fracasso do Brasil nas Olimpíadas de Londres, em 2012, onde não conseguiu medalhas no atletismo?

O Brasil sempre obteve uma medalha de ouro em grandes eventos, com a exceção de Londres. Teve aquele problema da Fabiana (Murer), que deu aquele temporal lá. Durante a prova, eu estive ao lado de Serguei Bubka, 35 vezes recordista do salto com vara, maior atleta em termos de recordes na história do atletismo, que me dizia que aquilo era um pesadelo. Por determinados fatores, ela acabou não fazendo o último salto, mas não se pode ir para uma competição dependendo só de uma atleta para conquistar uma medalha. Em Pequim, quando terminaram os jogos, eu e alguns presidentes de federações fomos a um congresso para prestar contas sobre o fracasso do Brasil. Na minha vez, eu perguntei qual país foi melhor sucedido. Eu mesmo respondi: a China, que realizou o maior evento de todos os tempos e superou os Estados Unidos em número de medalhas de ouro, mas não conquistou nenhuma no atletismo. O Brasil conseguiu seis medalhas no atletismo. Fomos a muitas finais. O eixo do atletismo mudou.

Você tem algum arrependimento ou lamenta algum tropeço na sua gestão?

Não. Houve muitas vicissitudes, muitas inquietações. Para superar os problemas foi muito complicado em determinados momentos, mas sempre conseguimos ir um passo adiante. E o importante é sair bem. Entrar, todos entram bem, mas manter durante 26 anos um trabalho não é fácil. Saí com o apoio maciço da comunidade. Uma ou outra voz isolada, frustrada, alguém que não concorda... Tem que ser respeitada a voz divergente, quando bem fundamentada. Durante 26 anos, com a exceção da primeira eleição, que foi muito complicada, em todas as demais eu fui unanimidade.


E o Amazonas? Temos a estrutura da Vila Olímpica de Manaus, mas não nos tornamos o grande centro esportivo que era esperado. Como você valia isso?

Tivemos vários momentos de apogeu no Amazonas. Eu fui superintendente de esportes pela primeira vez em 1975. Nós fizemos um trabalho escolar com professores abnegados e trouxemos treinadores de outros estados para cá. Resultado: em 1976, em Porto Alegre, nos Jogos Escolares Brasileiros, o Amazonas foi campeão no handebol feminino, fomos segundos colocados em ginástica rítmica esportiva e terceiros colocados no voleibol masculino. Isso é uma prova de que o Amazonas é igual aos outros e pode chegar lá.