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Heróis olímpicos: Abebe Bikila

A decisão de se alistar ao exército, de fato mudou para sempre, o futuro de Bikila. Mas ao contrário do que imaginava, não para pegar em armas e seguir a carreira militar 08/06/2012 às 11:58
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Abebe Bikila, herói olímpico
André Viana Manaus (AM)

Filho de uma família de camponeses pobres, ainda era uma criança quando seu país foi invadido pelo exército fascista do general italiano Benito Mussolini, que partiram do histórico arco de Constantino - um dos pontos turísticos mais famosos de Roma - para tomar o poder do miserável país africano, governado pelo Imperador Hailé Selassié, de quem o pai de Bikila integrava a guarda real, com a patente de capitão.

Vinte e cinco anos depois, com apenas quatro anos de treinamento, o maior maratonista da história faria o percurso inverso, correndo descalço, muito à frente dos concorrentes para conquistar a medalha de ouro próximo ao ponto de partida da jornada de Mussolini.

Talento inato Antes de se tornar um “Exército de um homem só”, Bikila, aos 17 anos, se alistou na Guarda Imperial. Essa era a forma mais garantida de conseguir o mínimo para se sustentar. Até esse momento, o futuro bicampeão olímpico não tinha noção do potencial inato de correr longas distâncias com mais facilidade do que qualquer outra pessoa no mundo.

A decisão de se alistar ao exército, de fato mudou para sempre, o futuro de Bikila. Mas ao contrário do que imaginava, não para pegar em armas e seguir a carreira militar. Sete aos depois, o treinador sueco, Onni Niskanen, justificou a razão do alto salário em seu emprego, pago pelo governo etíope: descobrir um talento olímpico.

Diamante bruto O hábito de correr longas distâncias para os jovens na Etiópia é tão natural quanto jogar bola no Brasil. Mas, achar um “diamante bruto”, esperando a lapidação, é como conseguir revelar um Pelé.

E foi assim que Onni se sentiu quando viu o magricela Bikila correr pela primeira vez, quando ele tinha 24 anos de idade. Antes mesmo de desembarcar em um dos mais miseráveis países africano, o sueco Onni Niskanen - uma sumidade do atletismo - tinha exata noção do cenário que viria. Por isso, não se espantou ao ver que Bikila correr descalço.

À princípio, esse estranho detalhe não lhe incomodou, mas com a evolução espantosa de Bikila, no domínio absoluto das maratonas realizadas no país e com a vaga olímpica garantida para competir nos jogos de Roma, o sueco pediu para que Bikila calçasse tênis. Bikila argumentou que eles atrapalhariam seu desempenho.

O que de fato aconteceu. Seus tempos descalços eram muito melhores do que calçado. Bastou isso para o sueco se render. Recorde E foi descalço que ele conquistou o ouro em Roma, assombrando o mundo com seu tempo de dua horas, 15 minutos e 16 segundos.

Oito minutos a menos do que o recorde olímpico e mundial da prova. E, o mais assustador, quando subiu na balança, após a prova, Bikila havia perdido somente 350 gramas, enquanto seus concorrentes, que cruzaram a linha de chegada, muito tempo depois, perderam, em média, quatro quilos. Bikila foi recebido como herói nacional por seu povo, em seu retorno de Roma.

Chamado de “Reis dos Reis”, o maratonista ganhou do governo um anel de diamante e um slogam propagandista: “Enquanto Mussolini precisou de milhões de soldados para conquistar a Etiópia, nós só precisamos de um para conquistar Roma”. Calçado Quatro anos depois, Bikila desembarcou em Tóquio como favorito para o bi-olímpico na Olimpíada de 1964. Feito confirmado mesmo com a imposição feita pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) de que o herói etíope só competiria se calçasse tênis.

A proibição de correr como estava acostumado foi uma provação menor do que a enfrentada por Bikila para chegar a Tóquio. Meses antes dos jogos, o maratonista ficou impossibilitado de treinar após ter sido preso injustamente, acusado de fazer um complô militar para derrubar o governo.

Comprovada a inocência, Bikila foi solto, mas uma grave crise de apendicite o levou para a mesa de cirurgia há um mês do embarque. Nada disso, porém, foi capaz de deter Bikila, que não se conteve em conquistar o ouro.

Correndo numa velocidade média de 19,152 quilômetros por hora, o etíope cravou novo recorde mundial e olímpico da maratona: duas horas, 12 minutos e 11 segundos. Carro ainda na pista, Bikila fez alongamentos e concedeu uma entrevista afirmando que ainda tinha gás para correr mais 10 quilômetros.

Como prêmio por ser o primeiro maratonista a vencer duas provas olímpicas, Bikila ganhou um fusca do governo etíope - o primeiro e único carro próprio que teve na vida. Quatro anos depois, nos Jogos Olímpicos da Cidade do México, uma contusão no joelho o tirou da prova no quilômetro 17.

A julgar pelo ritmo que imprimia, todos tinham certeza de que o tri viria. Tragédia Um ano depois, Bikila sofreu um grave acidente automobilístico com o carro que havia ganho do governo, ao perder o controle do fusca e cair num barranco. Retirado das ferragens entre a vida e a morte, Bikila foi internado em estado grave num hospital da Etiópia. Ele sobreviveu, mas ficou paraplégico. Inconformado com o destino do maior herói da nação, o governo etíope enviou o atleta para o mais moderno hospital da Inglaterra com intenção de reverter o quadro. A tentativa foi em vão.

Quatro anos depois, em 23 de outubro de 1973, aos 41 anos, Bikila sofreu uma hemorragia cerebral, em decorrência de complicações neurológicas sofridas no acidente e não resistiu. Setenta e cinco mil pessoas acompanharam o sepultamento do africano que assombrou o mundo.

Depois de um período de orgulho e glória, a Etiópia voltava a não ter mais motivos para sorrir.