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Heróis Olímpicos: Relembre a história de Adhemar Ferreira da Silva, do Salto Triplo

Ele foi o único brasileiro a ter o nome eternizado no hall da fama da Federação Internacional de Atletismo (IAAF), em 2011, dez anos após sua morte por parada cardíaca 01/06/2012 às 09:30
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Adhemar Ferreira da Silva, do Salto Triplo foi bicampeão olímpico
André Viana Manaus

 Espetacular é uma definição simplória e óbvia demais para definir quem foi o brasileiro Adhemar Ferreira da Silva. Basta citar o fato de ser o único atleta do País a ter o nome eternizado no hall da fama da Federação Internacional de Atletismo (IAAF), em 2011, dez anos após sua morte por parada cardíaca, em decorrência de complicações da diabetes, para dimensionar a incrível trajetória de vida desde paulista, nascido em 29 de setembro de 1927.

Filho único de um operário e de uma cozinheira, negro e pobre, Adhemar tinha tudo para engrossar a lista de brasileiros sem escolaridade e expectativa de vida, que se dá por satisfeito em sobreviver acima da linha da pobreza. Mas não foi assim.

Numa época em que o sistema de cotas raciais não era sequer cogitado, Adhemar foi à luta e escreveu uma incomparável história de vida.

Ainda criança, o futuro bicampeão olímpico, deixou as brincadeiras de lado para se dedicar aos estudos e ao sustento da família. Aluno exemplar, Adhemar só foi aprender a “brincar” de fato, aos 18 anos, em 1945. Quando, por insistência de um amigo, foi assistir a um treino de atletismo no São Paulo Futebol Clube. Lá, se encantou por, uma modalidade de esporte que jamais ouvira falar: o salto triplo.

A convite do amigo e do técnico Dietrich Gerner - que o treinou durante toda carreira -, decidiu experimentar a combinação dos três movimentos da modalidade: uma corrida, um passo e um salto. Logo na primeira tentativa, o jovem conseguiu um salto espetacular para um principiante: 12,90m (apenas 3,10m inferior ao recorde da modalidade, e 2m10 do índice olímpico).

Mas, aos 21 anos, e com apenas três de treinamentos - e um de experiência em competições oficiais, sempre dividido entre os estudos e o trabalho -, o brasileiro não conseguiu passar da etapa classificatória, em Londres. Porém, ele se impôs um desafio: estar na final olímpica seguinte. Os quatro anos que teve para se preparar melhor fez com que fosse muito além desta meta. Muito além do que qualquer outro atleta da história tivesse alcançado.

Foi na pequena capital da Finlândia, que Adhemar começou a escrever um dos mais lindos capítulos da história olímpica do Brasil. No Estádio Olímpico de Helsinque, Adhemar Ferreira da Silva conquistou sua primeira medalha de ouro, depois de quebrar - no mesmo dia -, por duas vezes, o recorde mundial e olímpico da prova, estabelecendo inacreditáveis 16m22.

Quatro anos depois, na Austrália, na Olimpíada de Melbourne, veio o inédito bi olímpico, depois de um duelo particular com o islandês Vilhjálmur Einarsson, com direito a novo recorde olímpico: 16,36m. Uma vitória na base da superação, pois dois dias antes da final, o brasileiro não conseguia treinar por culpa de uma terrível dor de dente. Para conseguir ir para a pista, Adhemar teve que fazer uma unção no local. O “canguru brasileiro”, como ficou conhecido no mundo, ainda disputou a Olimpíada de Roma, em 1960. Mas a limitação física imposta por uma tuberculose, que desconhecia sofrer, o impediu de chegar ao pódio.

Com o fim da carreira de esportista, chegava a hora de Adhemar iniciar outras, mas no terreno acadêmico. Foi escultor, formado pela Escola Técnica Federal de São Paulo, em 1948; professor de Educação Física, graduado pela Escola do Exército e advogado, bacharelado pela Universidade do Brasil, em São Paulo.

Em 1956, o maior orgulho do atletismo brasileiro, mostrou seu talento como ator ao interpretar “Orfeu da Conceição”, de autoria de Vinícius de Morais. Sua atuação foi tão elogiada, que lhe rendeu convite para repeti-la na produção cinematográfica franco-brasileira, “Orfeu Negro”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1962.

Disposto a seguir a carreira diplomática, Adhemar - que era fluente em inglês e francês - foi adido cultural da embaixada brasileira em Lagos, na Nigéria, entre 1964 e 1967. Bem preparado, Adhemar teve uma vida financeira estável, foi comentarista esportivo, e exerceu suas outras profissões com a mesma competência demonstrada nas pistas.

É impossível negar que a sorte de ser apresentado ao esporte que tinha aptidão nata foi fundamental para a vida de Adhemar, mas não há como admitir que o maior salto da sua vida, encerrada em 12 de janeiro de 2001, foi jamais abdicar do direito de estudar para que sua projeção não dependesse de esmola do governo, ou sistema de cota. Pena que a cota de exemplo dada por Adhemar seja desconhecida para a maioria dos brasileiros, que nascem e morrem sem a ambição de saltar socialmente, esperando um empurrão do governo. Definitivamente, o termo espetacular é pouco para definir quem foi Adhemar.

Curiosidades
1950: Dois anos antes de conquistar o primeiro ouro olímpico, Adhemar entrou para a história do salo triplo ao igualar o recorde mundial de 16m, do japonês Naoto Tajima.

Cidade do México: A melhor marca estabelecida por Adhemar foi no Pan-americano de 1955 (16,56m). Seu último, dos cinco recordes mundiais, que conquistou.

Estrelas douradas: As duas estrelas amarelas sobre o escudo do São Paulo se referem aos ouros olímpicos de Adhemar, atleta do clube.

Quase meio século: Demorou 48 anos para que outros brasileiros se consagrassem bicampeões olímpicos (Rorbert Scheidt, Torben Grael, Marcelo Ferreira, Giovanni e Maurício).

Sobremesa: Antes de saltar para o ouro, em Helsinque, Adhemar fez um pedido a cozinheira da Vila Olímpica: Queria jantar bife com salada. Na volta, encontrou seu pedido e um bolo com a marca de seu recorde desenhado sobre ele.

 Perfil
Nome:
Adhemar Ferreira da Silva

Nascimento:  29/09/1927

Falecimento:  12/01/2001

Naturalidade:  São Paulo (SP)

Altura:  1,88m

Peso:  84Kg

Modalidade:  Salto triplo

Olimpíadas:  Londres (1948), Helsinque (1952), Melbourne (1956) e Roma (1960).

Títulos:  bicampeão olímpico (Helsinque e Melbourne) e triPan-americano (Buenos Aires, Cidade do México e Chicago).