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Jogos Olímpicos: quem tem boca vai a Roma...

A maior tristeza da 14ª edição dos jogos, porém, não teve relação alguma com o conflito velado entre os dois blocos que separavam o planeta, mas pelo Apartheid. 05/06/2012 às 18:12
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Coliseu de Roma
André Viana Manaus (AM)

A capital italiana esperou uma “eternidade” para receber os Jogos Olímpicos da era moderna. Confirmada como sede da terceira edição, pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), realizada em 1908, Roma teve que abrir mão de seu desejo por culpa da erupção do vulcão Vesúvio, ocorrida três anos antes.

Os jogos foram parar em Londres, que era a segunda opção do COI. Para muitos, foi um castigo aplicado pelos deuses do esporte à cidade que extinguiu os jogos da antiguidade, através do imperador Teodósio, 393 anos depois de Cristo.

Somado o tempo do decreto proibitivo do mandatário romano na antiguidade ao que esperou para voltar a receber os jogos, a Cidade Eterna aguardou 1.567 anos.

Mas, quem espera sempre alcança, prega um dito popular brasileiro. E em 1960, enfim, chegou à vez da Olimpíada retornar aos braços de que a vetou no passado. Roma caprichou.

O governo italiano investiu U$$ 30 milhões em infra-estrutura. Uma fortuna para época. Até um novo aeroporto internacional foi construído para receber os turistas, os atletas e a imprensa. Visando o aumento do turismo, após os jogos, os italianos aproveitaram os vários pontos históricos da cidade utilizando-os como locais das provas.

Tochas no caminho A competição de luta livre aconteceu na Basílica de Constantino, localizada nas ruínas do antigo Fórum Romano. As provas de ginástica foram levadas para a bela Termas de Caracala.

O Fórum Itálico abrigou o atletismo, a natação e o hóquei. Mas a imagem mais impressionante aconteceu durante a maratona, quando os competidores, liderados pelo lendário etíope Abebe Bikila (que terá sua história contada na próxima edição dos Heróis Olímpicos, na próxima sexta-feira), cruzaram o percurso iniciado no Capitólio, passando pelo Obelisco Axum, e terminando no Arco de Constantino.

O trajeto já bastava para encantar o público, mas o comitê organizador agendou a prova para a noite, não só para fugir do calor provocado pelo verão italiano, mas também para iluminar o percurso com tochas. Transmissão ao vivo A estratégia de marketing do comitê italiano tinha sentido.

A Olimpíada de Roma foi a primeira com transmissão mundial pela televisão. A rede inglesa Eurovision disponibilizou mais de 93 horas de sua grade de programação durante os 17 dias dos jogos. Aproximadamente 100 canais de TVs europeias mostraram, para 18 países do continente, várias competições ao vivo.

A rede norte-americana ABC, pela primeira vez na história olímpica, pagou pelo direito exclusivo de obter as imagens dos jogos nos Estados Unidos. Ao custo de, hoje irrisórios, 400 mil dólares. As imagens chegavam em território norte-americano em fitas de vídeo, enviadas de Roma para Nova York de avião. A ABC lucrou bastante, pois revendia as imagens para o Canadá e o Japão.

 

No plano político, a separação entre as nações capitalistas e socialistas continuava a crescer no mundo. No esportivo, a União Soviética, líder do bloco socialista, pela segunda vez consecutiva terminou em primeiro lugar no quadro de medalhas, seguida pelos Estados Unidos e do país anfitrião.

A maior tristeza da 14ª edição dos jogos, porém, não teve relação alguma com o conflito velado entre os dois blocos que separavam o planeta, mas pelo abominável regime de segregação adotado na África do Sul: o Apartheid.

Por culpa do domínio, através da força e do poder econômico, da minoria branca sobre a maioria negra, a África do Sul, do líder negro Nelson Mandela, saiu de Roma para só retornar à Olimpíada 32 anos depois, nos jogos de Barcelona. Encerrada as competições, Roma tinha certeza de ter saldado sua conta adquirida na antiguidade. Lamentavelmente, outras nações fariam isso anos depois, e muitas continuam se “endividando”.