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Londres 2012: Confira a entrevista exclusiva com o triatleta Juraci Moreira

Fera do triatlo brasileiro fala sobre a luta por vaga em sua quarta Olimpíada  15/05/2012 às 09:25
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Triatleta Juraci Moreira
Nathália Silveira Manaus

Ele gosta de futebol, mas não é jogador. Não arrisca nem uma pelada, com medo de lesão. Ama e é doente pelo Atlético Paranaense, mas nunca vai ao estádio por falta de tempo e por estar sempre “sobrevoando” outros países.  Esse é Juraci Moreira, o simpático triatleta que desapega do dia-a-dia de um mortal comum, como sentar num lanche e saborear um hambúrguer com fritas, para conquistar um sonho: chegar a sua quarta Olimpíada, após ter participado das edições de Sydney 2000, Atenas 2004 e Beijing 2008 – está última onde conquistou o posto de melhor latino-americano, na 26ª colocação.

Recuperado das lesões que o afastaram de treinamentos e competições em duas oportunidades, no início e no fim de 2010, Moreira mantém a confiança em participar da competição na Terra da Rainha. A positividade é tanto, que Jura, como é conhecido pelos amigos, já reservou mais um lugar no braço para sua quarta tatuagem; onde coleciona os símbolos de Sidney e Atenas  no braço direito e no braço esquerdo o símbolo de Beijing.

Com uma das duas vagas destinadas ao triatlo brasileiro em Londres-2012 preenchida por Reinaldo Colucci, ouro nos Jogos Pan-americanos de Guadalajara-2011, quatro triatletas disputam a vaga restante. Além de Juraci, Bruno Matheus, seu companheiro de equipe, Fábio Carvalho e Diogo Sclebin buscam o direito de disputar os Jogos. “Minha próxima disputa para conseguir o índice será no dia 27 de maio, em  Madri, na Espanha”, disse o curitibano, que foi o atleta mais jovem a disputar o Triatlo nas Olimpíadas de Sidney, em 2000, com 21 anos de idade  e agora poderá ser o mais experiente com 33 anos. “Quero estar competindo entre os melhores do mundo, independente da minha idade ou dos jovens atletas que vou enfrentar, por muitos anos ainda”.

 Você já participou três  Olimpíadas. Qual a diferença de ir para a quarta?
A principal diferença pra mim é o desafio em saber que estou entre os melhores do mundo há mais de dez anos, e para poder classificar para Londres 2012 tenho que continuar entre os melhores, mesmo após mudanças grandes que o nível de competição no triatlo teve nesses últimos anos. Outra coisa é a diferença de idade que cada vez aumenta em relação a mim e outros atletas mais novos. No entanto, esse desafio me motiva e me faz querer  chegar aos quartos Jogos. Por eu ter participado de três Olimpíadas, sei exatamente o quanto é um evento único e prazeroso poder fazer parte, se depender de mim quero tentar quatro, cinco, seis Olimpíadas.

Como é ser considerado um dos um dos ícones do triatlo brasileiro e onde você acha que “acertou” para carregar este título?
É o reconhecimento de muito trabalho, treinos, abdicação de muitas coisas, compromissos e muita superação. Gosto de ser lembrando como um atleta que leva a bandeira do Brasil pelo mundo todo tentando mostrar o nosso talento. Não tem segredo e sim o quanto você vai treinar, se dedicar e se superar para alcançar o êxito na sua profissão.

Você tem tatuados os símbolos de Sydney e Atenas e de Pequim. Sua mãe também tem uma tatuagem homenageando sua ida às Olimpíadas. Neste caso, você já pensa em fazer uma para Londres?
Tenho sim a intenção de fazer a quarta tatuagem olímpica, seria o símbolo de Londres 2012. Assim como minha outras tatuagens Olímpicas, ficaria ao lado do símbolo de Pequim 2008, o espaço foi até programado quando fiz a tatoo de Pequim 2008, o tatuador colocou o decalque de Londres 2012 junto com o de Pequim 2008 para ficar o espaço certinho reservado! Agora falta pouco para poder concretizar aquele decalque. Sempre quis fazer alguma tatto quando era mais jovem, e quando classifiquei para Sidney 2000 veio à ideia, pois sei que é algo que nunca vou me enjoar de ter no corpo, não vai sair de moda nunca e é algo realmente que significa pra mim. E outra:  você  tem que conquistar o direito de por essas tattos no corpo, isso acho bem legal.

A Olimpíada é a competição mais cansativa fisicamente e psicologicamente para você - já que sua corrida pela vaga começou em 2010 através das provas do Circuito Mundial? Você se sente de alguma forma pressionado para ganhar uma medalha de em Londres?
 É uma pressão que eu mesmo criei, eu venho traçando como objetivo as quatro Olimpíadas há muito tempo e tudo que planejei em termos de carreira eu pensei para este ano de 2012, ao disputar essa vaga para quarta Olimpíada. Então, a pressão vem mais de mim do que de fora, pois as pessoas, torcedores, familiares já consideram eu ter ido pra três Olimpíadas o máximo. E que quero se ganhar uma medalha em Londres, seria um encerramento maravilhoso e acho que posso pensar nessa possibilidade. Mas, o  triatlo esta muito competitivo e todos os atletas que largarem na Olimpíada terão chances de medalha, basta estar no seu dia.

 Como estão seus treinos e preparação para as Olimpíadas?
Estou exclusivamente treinando e competindo pela classificação desde metade de 2010, a classificação dura 2 anos e nesses 2 anos acabo ficando boa parte do tempo fora do Brasil, viajando o mundo em competições e treinos. Mas venho conseguindo aguentar bem essa distância do Brasil, da família, dos amigos, e pelo fato de eu estar mais acostumado a essa rotina de viajante, acho que acaba por ser um ponto positivo que tenho em relação aos atletas mais novos. Temos que correr o Circuito Mundial e acumular pontos no ranking olímpico que se encerra agora final de maio. Então, a preparação para a Olimpíada é constante e não muda muito do que fazemos normalmente para as provas do Circuito, serão os mesmos atletas que podemos encontrar na prova Olímpica e estar sempre competindo com eles é ótimo, pois não temos muitas surpresas na Olimpíada.

 

Um atleta em ano Olímpico tem tempo para focar em outras coisas. Como por exemplo, sair, namorar, ou não dá para ter um “uma vida normal?
Realmente a abdicação e dedicação quase que exclusiva para os treinos e provas faz com que sobre  pouco tempo para ter uma vida “normal”. Para mim,  a pior parte é estar longe do Brasil, longe da minha esposa, dos amigos e familiares. Mas faz parte da vida de um atleta que almeja ser Olímpico, não tem jeito. Mas apesar de todo o sacrifício, eu consigo conciliar bem essa parte e estar tento descontrair sempre que possível. Minha esposa tenta estar nas provas que eu participo e podemos nos ver alguns dias. Tentamos pelo menos estar juntos uma semana a cada dois meses (risos).  Mas isso é provisório e sabemos que não será sempre assim, pois depois da Olimpíada a vida volta ao normal. Por isso o apoio da família, esposa, namorada é essencial para um atleta chegar até a <br/>Olimpíada.

 Quais são as potências do Triatlo que mais vão te dar trabalho e qual será o percurso enfrentado nas Olimpíadas de Londres?
Os principais favoritos são dois ingleses e um espanhol, são constantemente atletas que estão no pódio, nas etapas do circuito e com certeza vão para ganhar medalha em Londres. O percurso de Londres em termos técnico é muito simples e favorável a nós brasileiros, percurso totalmente plano, natação em lago e que geralmente favorece o bom corredor.

No início de 2010, você ficou quatro meses afastado por conta de lesão no tendão de aquiles da perna direita. Em outubro do mesmo ano, uma contratura na panturrilha direita, sofrida no início de prova do Campeonato Pan-americano, afastou você dos treinamentos por mais dois meses. Como andam suas lesões. Elas te preocupam para as Olimpíadas?
 As lesões são algo que me acompanham há muitos anos. Aprendi a conviver com as dores, lesões e entender, bem como saber que também fazem parte da vida de um atleta Olímpico. Sempre estamos no limite físico e o corpo acaba sofrendo muito com isso. Mas a experiência também me ensinou a importância de estar sempre cuidando do corpo através da fisioterapia, massagem, alongamentos, e digo que sou quase um fisioterapeuta por experiência, de tanto que já aprendi com eles.  Mas estou feliz por neste momento, com quase 33 anos de idade, estar saudável e se nenhuma lesão séria que possa me fazer parar de praticar esporte.

Qual será sua próxima prova para conquistar o índice Olímpico?
 Temos mais três provas classificatórias. Dia 6 de maio em Huatulco, Mexico; dia 12 de maio em San Diego, USA;  e dia 27 de maio, a última prova em Madri, Espanha.

Você foi o atleta mais jovem a disputar o Triatlo nas Olimpíadas de Sidney 2000, com 21 anos e agora poderá ser o mais experiente com 33. Como encara isso?
Acho superlegal e acaba me motivando bastante em tentar este recorde, e principalmente mostrar que podemos sim levar uma carreira longa e saudável no esporte competitivo. A idade nem sempre é o fator principal, quero estar competindo entre os melhores do mundo, independente da minha idade ou dos jovens atletas que vou enfrentar, por muitos anos ainda.

Você com toda certeza passa por privações alimentares.  O que um triatleta não pode comer e sente falta?
Hoje em virtude Olimpíada, quanto mais leve o atleta for, melhor ele vai se sair na prova. Então, considero esse o maior desafio em estar no circuito mundial disputando as Olimpíadas: a privação de poder comer o suficiente! Treinamos muito e nosso corpo pede o alimento, a recuperação, mas acabamos tendo que maneirar e comer o mínimo possível para poder manter um peso leve. Então sinto muita falta de chocolates, doces, tortas, bolos, pizza, hambúrguer, batata frita (risos). Enfim, sou mortal, gosto de uma besteirinha de vez em quando.

 O Brasil é o melhor País para se treinar triatlo. Se não, qual seria e por quê?
O Brasil é excelente para o triatlo devido ao clima favorável. Nunca faz muito frio e podemos treinar o ano todo outdoor, diferente de muitos países que no inverno neva muito e é impossível treinar bem o ano todo. Mas em termos de estrutura, locais ideais para treinamento o Brasil deixa muito a desejar. Passo a maior parte do tempo treinando no centro de treinamento DESMOR, em Rio Maior, Portugal, que é excelente para o treinamento. Em Portugal temos boas estradas, boas trilhas para corrida, piscina, pista de atletismo, tudo num mesmo local. E também  gosto muito da Austrália para treinar.

 Você é um torcedor fanático pelo Atlético Paranaense. Há quanto tempo não vai prestigiar seu time no estádio ou não assisti a um jogo?
 
Nossa, nem lembro a última vez que fui a um jogo do Atlético-PR, com certeza antes da minha primeira Olimpíada, porque depois de 2000 nunca mais parei por muito tempo em Curitiba, sempre viajando e morando em vários lugares pelo mundo. Gosto de futebol, mas não jogo nunca, devido ao risco de lesão.

Você ainda faz parte do Exército brasileiro? Como é sua relação com eles?
Sim, sou sargento do Exército e represento as Forças Armadas através do esporte, competindo pelo Exército brasileiro. Ano passado competimos nos Jogos Mundiais Militares que foi um evento maravilhoso e este ano temos previsto o  Campeonato Mundial  Militar, em Lausanne, na Suíça, final de agosto. Tenho muito orgulho em ter sido convocado e poder integrar as Forças Armadas do Brasil. As experiências e aprendizados que tenho através do serviço militar, é único e vou levar para a vida toda.

O Brasil ainda vai poder contar com você nas Olimpíadas de 2016, ou pretende se aposentar antes?
 Aposentar, só se meu corpo não me permitir mais praticar o triatlo. Amo o que faço e amo mais ainda ter esse esporte como minha profissão. Seria maravilhoso poder competir numa Olimpíada no Rio de Janeiro, e com certeza vai fazer parte dos meus objetivos após Londres.  Gostaria de Agradecer meus patrocinadores que ajudam a tornar tudo isso realidade.

Perfil

Juraci Moreira

Idade:  02/05/1979

Local:  Curitiba - PR

Peso:   75kg

Altura:  1,87m

Técnico:  Luiz Gandolfo e Homero Cachel

Principais resultados:   Medalha de bronze nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro 2007, Pentacampeão Brasileiro de triatlo, Campeão do Mundialito de Fast Triatlo 2008 e 2009, 3º lugar na Copa do Mundo do Japão 2002, Campeão dos Jogos Sul-Americanos da Argentina 2006; Atleta mais jovem a disputar o Triatlo nas Olimpíadas de Sidney 2000, atleta olímpico em