Publicidade
Esportes
Craque

Londres 2012: Entrevista exclusiva com Diogo Silva

Super campeão do taekwondo fala sobre as chances nos jogos na terra da rainha 13/04/2012 às 09:05
Show 1
Campeão de Taekwondo Diogo da Silva
Adan Garantizado ---

Diogo André Silvestre da Silva, 30, parece predestinado a romper barreiras e ser sempre o “primeiro da fila”. O atleta do taekwondo que ganhou notoriedade ao conquistar uma medalha de ouro no Pan-Americano de 2007, vive um dos melhores momentos da carreira e se diz preparado e mais experiente para a segunda Olimpíada de sua vida, em Londres. Credenciais ele tem, afinal, conseguiu passar por uma seletiva duríssima no ano passado, no Pré-Olímpico Mundial, disputado em Baku, no Azerbaijão. A competição envolvia 70 países e apenas três vagas para os jogos Olímpicos. Diogo ficou com o bronze na categoria até 68 kg. Agora, o garoto que começou a praticar taekwondo aos 7 anos de idade porque se encantou com os chutes da modalidade quer “conquistar o mundo” de vez. Neste bate papo exclusivo com o CRAQUE, concedido no ginásio do Clube Círculo Italiano, em São Caetano, São Paulo, Diogo fala dos seus planos olímpicos e também mostra seu lado politizado, falando sobre a causa negra, protestos contra a falta de apoio à <br/>modalidade.

Como você está encarando a chance de participar de uma Olimpíada pela segunda vez na vida?
Londres é uma Olimpíada especial. Em Atenas, na minha primeira Olimpíada, eu tinha 21 anos. Mas queria muito ir para lá porque a Grécia é o berço dos Jogos. Já em Londres, estou com a mesma sensação. Será minha segunda Olimpíada, estou mais experiente. Hoje sou o sétimo colocado do ranking mundial. Estou com ótimas expectativas de medalhas. Londres possui um fuso horário pequeno, bem próximo ao do Brasil e a alimentação não é tão diferente. A adaptação não vai ser sofrível. Saber que a próxima sede é no Brasil também me motiva. Todos vão estar de olho para saber se o Brasil será uma potência em 2016.

E como está sendo a sua preparação para Londres?
Após o Pan, tirei um mês de férias e desde dezembro estou focado em Londres. Fiz parte do treino em Londrina, agora em São Paulo. Tenho metas semanais com planos de baterias que vão do fraco ao nível super forte (que chega à 4 horas por dia). É necessário fazer isso para o corpo ganhar um melhor condicionamento físico.

Você se vê em condições de lutar pelo ouro olímpico?
Nunca penso que há um limite. O atleta de alto rendimento sempre quer algo mais. Os Jogos Olímpicos são a maior competição que há no esporte. Se um dia você é campeão olímpico, nos próximos Jogos, você vai querer ser bi campeão. O atleta sempre quer mais. Uma medalha Olímpica em Londres com certeza será a cereja do meu bolo. Pretendo encerrar a carreira nos Jogos Olímpicos do Brasil. Até porque tenho uma história muito bonita aqui. Eu nunca perdi uma luta no Brasil, sendo nacional ou internacional desde que entrei para a Seleção Brasileira, aos 19 anos de idade. Ganhei os jogos Sul-Americanos no Brasil, o Pan do Rio em 2007, os Jogos Militares em 2011. Tenho essa história de competir sempre muito bem aqui. Quero encerrar com chave de ouro em 2016.

Você também tem outros projetos fora do Esporte: Já participou de programas na ESPN, canta Hip Hop. Como administra essas outras “carreiras”?
Há 15 anos atrás, quando morava em Campinas, já tinha um grupo de hip hop. Mas era mais por diversão. Depois comecei a fazer participações com alguns grupos de mais renome no Brasil. Conversei com o Sombra, meu parceiro do grupo, e ele topou crescer o projeto. Começamos a ensaiar e a produzir e já temos 4 músicas. Vamos ver se até as Olimpíadas, a gente já consegue soltar uma ou duas músicas para serem meu tema, enquanto estiver competindo em Londres. O esporte tem uma forma de comunicar, a música tem outra. Queremos atingir as pessoas da melhor forma, seja com um ou com outro. Eu também estou produzindo um DVD com imagens como um documentário sobre as viagens para competições que eu fiz no Brasil e fora daqui. E eu vou produzir a trilha sonora desse material com o pessoal do Hip Hop. Quero fazer um curta para ser apresentado em tv´s que incentivam a cultura e o esporte.

Em 2007 você foi o primeiro atleta brasileiro a conquistar uma medalha de ouro no Pan do Rio. Como se sente sendo lembrado até hoje por este feito?

Havia uma expectativa muito grande sobre o Pan, por ter sido a primeira grande competição organizada pelo Brasil. O Taekwondo não tinha uma visibilidade, ou grandes ícones da modalidade. Então era muito importante pra gente conseguir um bom resultado. Nunca imaginei ser a primeira medalha de ouro do Brasil. Foi algo que aconteceu por acaso. Lembro que no primeiro dia, o Márcio que é peso leve chegou na final e perdeu a medalha de ouro faltando dois segundos.  No dia seguinte eu fiz a outra final e ganhei. Foi sorte. Poderia ter sido o Márcio. Todos queriam uma medalha de ouro e tive a felicidade de ser o primeiro. E aí teve aquela imagem do pódio que ficou marcada naquele Pan.

A torcida a favor ajuda. A gente praticamente só luta com torcida contra em campeonatos internacionais.

Você também se tornou porta voz da causa negra desde que ganhou visibilidade com suas conquistas...

Foi uma questão de princípios. A vivência do meu dia a dia é a vivência da causa negra. Eu morei na periferia, pegava ônibus, tinha muita dificuldade. Tenho noção de como a coisa pública não funciona. Saúde, transporte... Tudo que é público é lento e demora. A minha briga é mais pela questão da sobrevivência mesmo. De alguma forma as pessoas precisavam ver que aquilo estava acontecendo e é real. O esporte me deu uma visibilidade e eu aproveitei isso para questionar e conscientizar as pessoas. Era necessário uma mudança.

Na sua primeira participação em Olimpíadas, nos Jogos de Atenas 2004, você fez um protesto entrando para as lutas com uma luva negra nas mãos. O que significou aquilo?

Fiz aquilo pela falta de incentivo ao esporte que estava acontecendo naquele momento. Eu vi muitos atletas desistindo de suas carreiras e outros se machucando por utilizar material inadequado. Os Jogos Olímpicos dão a impressão de que tudo é perfeito e de que todos os atletas que estão ali ganham muito dinheiro. As pessoas não tem noção de que tem atletas ali “com uma mão na frente e a outra atrás” como era o meu caso. Eu recebia 500 reais de benefício da Confederação. E eu apreveitei a visibilidade dos jogos olímpicos para mostrar essa causa para o mundo inteiro. Tem muitos atletas que não tem condições de treinamento. Alguém precisava se expor e falar sobre isso.

E porque você decidiu cortar seus dreds no cabelo? Eles eram sua “marca registrada” sua, principalmente durante o Pan de 2007...

Quando recebi o convite para os Jogos Mundiais Militares precisei ingressar na Marinha do Brasil. Sou soldado especializado e entrei na carreira militar somente para competição. Foi nesse momento que eu precisei cortar os dreds. Fazia seis anos que eu não cortava o cabelo. Passei dois anos me achando estranho (risos). Não me identifiquei muito, mas agora já me acostumei, estou adaptado.

Apesar de ter ido à Atenas e da conquista no Pan de 2007, você ficou de fora dos Jogos Olímpicos de Pequim, 2008. O que aconteceu?

Minha principal dificuldade em Pequim foi que o Pan me deu visibilidade e houve um assédio muito grande. Eu não estava preparado para tudo isso. Deixei de cumprir meus compromissos com treinamentos e fui fazer outras coisas. Até porque era o momento de aproveitar financeiramente para conseguir coisas que eu não tinha. Eu não consegui manter o mesmo padrão de treinamento e o mesmo foco. Esse foi um dos grandes motivos que me deixou fora de Pequim. Quando passei a trabalhar para Londres, já estava mais consciente do que eu queria. Trabalhei os últimos três anos focado para essa vaga. A diferença foi o comprometimento.

No Pan de Guadalajara você também não obteve um bom resultado...

A classificatória par aos Jogos Olímpicos foi em julho e três semanas depois aconteceram os Jogos Mundiais Militares. Quarenta dias depois, houve o Pan de Guadalajara. Era impossível conseguir ótimos resultados nas três competições. Como eu entrei na Marinha em 2009 só para lutar os Jogos Mundiais Militares e já havia passado por todo um processo, precisava dar uma prioridade para essa competição, além de óbvio, manter o alvo nas Olimpíadas. Com isso, precisei abrir mão do Pan de Guadalajara. Fui apenas para cumprir tabela. Não tinha mais condições físicas e muito menos psicológicas.

Você é o primeiro brasileiro  a conquistar medalhas em quatro World Games (Sul Americano, Pan Americano, Jogos Universitários e Mundial Militares), foi o 1º brasileiro a conquistar ouro no Pan 2007, e foi o primeiro brasileiro a se conseguir a vaga para Londres. Tá faltando ser o primeiro medalhista verde amarelo no taekwondo também?

Não tinha parado para pensar nisso (risos). Eu espero que o ciclo se feche assim. Nosso trabalho tem este objetivo. Quando nós começamos esta “alavancada” dentro dos world games, era uma competição que possui um nível muito difícil, mas com categorias diferentes. Nos Jogos Militares só competem militares. No universitário, idem. São características diferentes. Eu falei que queria ganhar o maior número de competições com características diferentes. É mais complexo assim. Fui ganhando um, outro e percebi que dava. Os Jogos Olímpicos são os últimos desta constelação. Então em Londres eu vou para cima. É o meu melhor momento. Estarei mais experiente. Já participei de uma Olimpíada e não tem mais aquela ansiedade. Já conheço praticamente todos os meus adversários. E hoje, o Brasil tem uma estrutura muito melhor do que há quatro anos atrás. A Petrobras patrocina a modalidade e nos dá total incentivo.

Perfil

Diogo André Silvestre da Silva

Idade:  30

Naturalidade:  São Sebastião, São Paulo

Altura:  1,78

Peso:  68 kg

Modalidade:  Taekwondo

Títulos  Campeão dos Jogos Militares 2011, campeão do Universiad (Jogos Mundiais Universitários) (2009), campeão dos jogos Pan-Americanos do Brasil (2007), Bi-campeão dos Jogos Sul-Americanos (2002, 2006), campeão do Bélgica Open (2006), campeão Coréia Open (2006), 4º colocado nos Jogos Olímpicos de Atenas (2004).