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Londres 2012: Entrevista exclusiva com Oscar Schmidt

Maior ídolo do basquete brasileiro fala sobre passado, presente e futuro 12/04/2012 às 10:23
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Oscar Schmidt é o maior ídolo do basquete brasileiro
Adan Garantizado São Paulo

Não existe nome no basquete masculino brasileiro mais respeitado do que Oscar Daniel Bezerra Schmidt. O potiguar é sinônimo de vitórias, recordes e patriotismo. Aos 54 anos de idade, o “Mão Santa” goza do prestígio que conquistou ao longo de seus 32 anos de carreira, sendo 24 deles dedicados à Seleção Brasileira. Números imbatíveis até hoje, a recusa à NBA e vitórias históricas como a sobre os EUA, no Pan de Indianápolis, em 1987, fazem com que Oscar seja reconhecido até hoje como o maior nome da história de nosso basquete. A volta da Seleção masculina aos Jogos Olímpicos após 16 anos foi comemorada por Oscar neste bate papo exclusivo com o CRAQUE, concedido nos estúdios da Rede Record, em São Paulo.

Como uma pessoa que recusou diversos convites para jogar na NBA por causa da Seleção vê a situação de jogadores como Nenê, Leandrinho e Varejão de recusarem jogar no time nacional? Você os convocaria para as Olimpíadas?

Eu fico muito triste e irritado com isso. Jogar na Seleção Brasileira sempre foi motivo de desejo para qualquer atleta. Não vejo esses jogadores brasileiros que estão na NBA se imporem. Eles não têm coragem de chegar e dizer “quero jogar na minha Seleção e pronto”. É obrigatório o clube liberar jogador para a Seleção. Eles não estão cometendo nenhum crime. Então quando eu vejo, por exemplo o Nenê. Ele Some. Ninguém sabe por onde ele anda. Não quer nem falar em Seleção Brasileira. Isso me irrita. Leandrinho é a mesma coisa. Arruma uma contusão e no dia em que o Brasil estava decidindo o Pré-Olímpico, ele estava treinando no Flamengo. Poderia muito bem ter feito como o Varejão, que se colocou à disposição para viajar com o time. Eu por mim não levaria os dois para a Olimpíada. Mas sei que com eles, o Brasil fica mais forte, infelizmente. Então eu tenho certeza que o Magnano irá convocar os dois.

 Como você lida com esse status de ídolo eterno do basquete brasileiro?
Me sinto feliz pois adoro meu País. Sou muito patriota, cara. Ter jogado 24 anos na Seleção Brasileira, sendo 20 no adulto e  quatro no juvenil, é o maior orgulho da minha carreira. O dia em que eu parei de jogar foi um dia duro. Ser reconhecido após tantos anos sem jogar é um motivo de orgulho mesmo. É muito reconfortante saber que o brasileiro gosta muito de mim.

E de onde vem o apelido “Mão Santa”?
No México havia um jogador fenomenal chamado Arturo Guerreiro. Ele era chamado de “Mano Santa”. Aí o Álvaro José e o Juarez Araújo que eram repórteres descobriram isso e disseram: “Ah! Se o México tem o Mano Santa, nós temos o Mão Santa. Colocaram esse apelido sem intenção alguma e foi pegando, pegando... Virou um apelido que o Brasil inteiro reconhece. Acho legal. Só que a mão não tem nada de santa. É muito treino.

Você tem saudade de sua época de atleta? E como está sendo a preparação do Oscar para ser comentarista da Record em Londres?
Estamos fazendo uma preparação diferenciada para ser comentarista em Londres. A Record colocou até fonaudiólogos à nossa disposição para melhorar nossos vícios de linguagem, articulação vocal, tom de voz. Gravamos alguns pilotos de jogos gravados, sugestões boas. Estamos nos preparando bem.

Quanto ao treinamento e a minha rotina no basquete, tenho muita saudade sim. Construí uma história bonita como jogador de basquete. Olhando para trás hoje, com 54 anos vejo o quanto treinei. Dá dor só de pensar (risos). Não sei se eu voltaria a fazer o mesmo. Fui ao meu limite, exagerei sim e fiz o que nenhum ser humano havia feito. Mas tenho muito orgulho disto.

Por falar em olhar para o passado, você marcou 49.737 pontos na carreira. É uma marca impressionante...

É ponto demais, mas foi o meu jeito de jogar. Eu era fominha. Queria todos os arremessos. Eu treinava demais. Joguei basquete por 32 anos, sendo 26 como profissional. Naturalmente iria fazer muitos pontos. Fico orgulhoso porque teve muito jogador bem melhor do que eu, mas nenhum deles conseguiu marcar mais pontos que o Oscar.

Como foi sua passagem pelo Flamengo?
Jogar pelo Flamengo já é algo diferente. Você só entende o que é jogar no Flamengo, no dia em que perde pro Vasco. Porque o torcedor do Flamengo vai te xingar, te pressionar muito. Primeiro porque não é pra qualquer um jogar lá. O Flamengo tem um amparo maravilhoso da torcida. No Corinthians também é assim. Tive a felicidade de jogar e ser campeão nos dois. O torcedor do Flamengo se sente dono de você. Você vira patrimônio do clube. Joguei quatro anos lá. Infelizmente foram os últimos anos da minha carreira.

Se você pudesse voltar no tempo e repetir algum momento de sua trajetória, que momento seria?
A vida me proporcionou muitos momentos bonitos. Mas guardo três momentos com muita emoção. O primeiro é o campeonato mundial de clubes com o Sírio, em 1979, emoção tremenda, dentro do ginásio do Ibirapuera. Depois veio aquela vitória inesquecível sobre os Estados Unidos em Indianápolis (1987). Foi a primeira vez que os Estados Unidos foram batidos dentro de casa. Também guardo meu último jogo pela Seleção Brasileira. Foi uma emoção doída, uma angústia. Pensava “nunca mais vou jogar pela Seleção”, era uma violência com o meu coração. Na minha vida como ser humano, ver meus filhos nascerem e ficar 37 anos juntos com minha esposa são minhas realizações. São momentos para sempre.

Você participou das Olimpíadas de Moscou, Los Angeles, Seul, Barcelona e Atlanta. Qual dessas Olimpíadas foi mais significativa?
Olimpíada é uma coisa muito séria para qualquer atleta. Tive o prazer de disputar cinco delas. A primeira Olimpíada é um negócio diferente. Ainda mais por ter sido em Moscou, nos tempos da Cortina de Ferro. Você via o sofrimento do povo russo, que não tinha medo de falar, era uma coisa que dava asfixia. A primeira foi importantíssima, inesquecível, mas a melhor de todas foi a de Seul. Primeiro porque nosso time tinha chances reais de ganhar uma medalha a até mesmo a Olimpíada. Não ganhamos porque subestimamos a Espanha. Lembro que o Marcel me perguntava “Oscar, quem é o melhor jogador da Espanha?” e eu respondia “O Epifânio, Marcão, Monteiro...” e ele respondia “Não, Oscar. O melhor jogador deles é o Brabenda, que era auxiliar técnico deles”. Nós subestimamos isso e perdemos. Errei um arremesso decisivo, que até hoje sonho com esse erro. A derrota nos tirou a chance de medalha. Mas esta Olimpíada marcou uma era bonita dessa Seleção, que jogou junto oito anos, de 1985 a 1992. Conseguimos as primeiras colocações em todas as competições que disputamos. E no ano das Olimpíadas de Seul tive o melhor ano da minha vida na Seleção Brasileira.

Por que o Oscar recusou convites para jogar na NBA?
Se eu jogasse um jogo sequer na NBA, eu seria considerado profissional. A Federação Internacional de Basquete (Fiba) ainda era considerada amadora na época. As seleções eram consideradas amadoras. Se jogasse um minuto, teria que ficar o resto da vida fora da Seleção. Foi uma escolha muito fácil de se fazer. Eu sempre falei não, recusei todas as vezes que me convidaram. E fico muito feliz, principalmente após a vitória no Pan de 87 sobre os EUA lá dentro. Aquilo me faz ganhar dinheiro até hoje. Faço palestras sobre aquela vitória. Quando você ganha algo que parece ser impossível com a Seleção Brasileira, você fica marcado para sempre.

 Como você analisa o atual momento da Seleção Brasileira de Basquete?
Me sinto muito feliz, porque a Seleção Brasileira de Basquete, depois de ficar de fora das três últimas Olimpíadas - a última vez que havia se classificado eu ainda jogava, em 96 - finalmente a gente se classificou. A Confederação está fazendo um trabalho sério e correto. Mudaram de presidente, ainda bem. O novo presidente colocou o Wanderlei, que jogou na Seleção masculina para tomar conta da equipe dos homens, a Hortência no feminino. Convocaram um fenômeno de técnico que é o Rúben Magnano. Temos uma liga forte, chancelada pela CBB, que é o Novo Basquete Brasil (NBB). Tem muita coisa certa, sobretudo o novo presidente ter mudado os estatutos da CBB e acabado com a reeleição no cargo. Isso é o maior favor que ele fez ao esporte. Vamos para a Olimpíada torcendo muito para que o Brasil faça uma Olimpíada digna. Se ganhar melhor. Mas o importante é crescer e ver o nosso basquete bem.

 Que recado você mandaria para os jogadores que vão servir à Seleção Brasileira nos Jogos Olímpicos de Londres?
Eu peço que eles encarem a Seleção Brasileira como uma verdadeira guerra. Eles são soldados do Brasil e vão pros jogos para enfrentar adversários poderosos. Os jogadores tem que fazer o melhor de si, ouvir muito o Ruben Magnano e jogar bem, ter uma participação digna. E depois vem Mundial, Sul-Americano, Pan e os Jogos Olímpicos do Brasil. Torço muito para que a gente faça uma final Olímpica em 2016. Tenho certeza que isso vai acontecer. Os meninos provaram no Pré-olímpico que eles são uma boa Seleção. Espero que eles se apresentem como jogadores de Seleção Brasileira.